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	<title>Webinsider &#187; Napoléon</title>
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		<title>Napoléon e o preço de uma restauração</title>
		<link>http://webinsider.uol.com.br/2012/04/06/napoleon-e-o-preco-de-uma-restauracao/</link>
		<comments>http://webinsider.uol.com.br/2012/04/06/napoleon-e-o-preco-de-uma-restauracao/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 07 Apr 2012 02:01:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Roberto Elias</dc:creator>
				<category><![CDATA[Tecnologia]]></category>
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		<description><![CDATA[Filme mudo de Abel Gance, apresentado em 2012 com 5:30 horas de projeção, em exibição de gala, mostra as principais inovações deste cineasta, completadas em 1927, e que formaram a base do Cinerama e outros processos modernos de cinema.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O historiador e preservacionista inglês <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Kevin_Brownlow" rel="externo">Kevin Brownlow</a> gastou <span style="text-decoration: underline">vinte e cinco anos</span> de sua vida em uma obsessiva busca por segmentos de filme perdidos do clássico silencioso “<em><a href="http://www.imdb.com/title/tt0018192/" rel="externo">Napoléon</a></em>”, realizado pelo cineasta francês <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Abel_Gance" rel="externo">Abel Gance</a>, e lançado nos cinemas em 1927.</p>
<p>Brownlow havia adquirido, ainda muito jovem, dois rolos em película 9.55 mm usados, contendo cenas do filme. A história iria demonstrar que <em>Napoléon</em> nunca havia de fato terminado. O filme havia sido planejado para ser revolucionário, e, de fato, o foi: inovação no processo de montagem (edição do filme), tomadas de cena em plano geral com o uso de <em>dollies</em> (a <em>dolly</em> é uma espécie de grua com rodas, que permite montar uma câmera em cima, e com ela realizar tomadas panorâmicas e <em>travellings</em>), planos próximos (close-ups) radicais, a <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Film_tinting" rel="externo">tintura</a> da película (para emulsionar o filme com cor), e a captura de cenas panorâmicas com o uso de três câmeras, guardadas neste caso, para o final do filme.</p>
<p>Estas três câmeras, montadas verticalmente, mas de forma a conseguir filmar uma imagem panorâmica de uma mesma cena, foi batizada de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Polyvision" rel="externo"><em>Polyvision</em></a>. O formato compõe, na projeção, um quadro tríptico, que tanto foi usado para uma só imagem quanto para a composição de três imagens distintas:</p>
<p><a href="http://webinsider.uol.com.br/wp-content/uploads/2012/03/image0012.png"><img class="aligncenter size-full wp-image-25645" src="http://webinsider.uol.com.br/wp-content/uploads/2012/03/image0012.png" alt="" width="273" height="239" /></a></p>
<p>O <em>Polyvision</em> foi, sem dúvida alguma, o precursor do <em>Cinerama</em>. A este respeito, Abel Gance escreveu uma <a href="http://www.in70mm.com/news/2012/gance/uk/index.htm" rel="externo">carta</a> em 1962, onde conta, em rápidas palavras, a sua experiência prévia com o formato tríptico. E não esconde a sua indignação sobre o que ele considerou como o roubo do seu conceito de filmagem e projeção panorâmica.</p>
<p>Gance iria dar apoio explícito ao Cinerama em 70 mm. E isto tem uma explicação óbvia: o alinhamento perfeito (sem linha divisória) das imagens trípticas nunca foi por ele resolvida, e ele mesmo percebeu que no Cinerama de três películas o problema continuava rigorosamente o mesmo!</p>
<p>Durante anos a fio, Kevin Brownlow reuniu-se com Abel Gance, com quem se tornaria um amigo, e quando este faleceu em 1981 (aos 92 anos) uma versão restaurada de <em>Napoléon</em> já havia sido preparada. E se a idéia original de Gance, de realizar um filme com muito mais partes (o filme parou de ser rodado por falta de dinheiro), também a restauração de 1981 mostrou-se incompleta! Foi somente em anos mais recentes que novos segmentos foram achados e uma versão “definitiva” de Napoléon pode ser mostrada.</p>
<div id="attachment_25646" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://webinsider.uol.com.br/wp-content/uploads/2012/03/image0021.png"><img class=" wp-image-25646" src="http://webinsider.uol.com.br/wp-content/uploads/2012/03/image0021.png" alt="" width="600" height="473" /></a><p class="wp-caption-text">Abel Gance (à esquerda) e Kevin Brownlow, em 1967, durante a primeira recuperação de Napoléon.</p></div>
<p>No momento da elaboração deste manuscrito, um <a href="http://www.silentfilm.org/" rel="externo">evento</a> está sendo programado para o <em>San Francisco Silent Film Festival</em> de 2012, para os dias 24, 25 e 31 de março e 1º de abril, com a exibição integral da obra de Gance, acompanhada de orquestra, que executará a trilha sonora composta pelo musicólogo Carl Davis.</p>
<p>As apresentações foram montadas em um cinema de Oakland, Califórnia, cujo tamanho interior e palco são adequados para um filme desta magnitude. O cinema é o Paramount Theater, cujo interior pode ser visto nesta captura:</p>
<p><a href="http://webinsider.uol.com.br/wp-content/uploads/2012/03/image003.jpg"><img class="aligncenter  wp-image-25647" src="http://webinsider.uol.com.br/wp-content/uploads/2012/03/image003.jpg" alt="" width="599" height="336" /></a></p>
<p>Segundo o programa, três projetores separados, controlados por técnicos, irão fazer a apresentação das cenas em <em>Polyvision</em>, ao final da projeção. As sessões durarão 5 horas e meia, com três intervalos.</p>
<p>Em uma <a href="http://www.in70mm.com/news/2010/brownlow/part_1/index.htm" rel="externo">entrevista</a> concedida em 2010 a Mark Lyndon, Brownlow declarou que uma versão em mídia doméstica (DVD e Blu-Ray) iria ser oferecida ao grande público. Membros da organização do festival, entretanto, acham pouco provável que isto aconteça, devido ao alto custo envolvido.</p>
<h2> As brigas pelas versões restauradas</h2>
<p>Depois de cerca de vinte anos de trabalho, tendo ao seu lado Abel Gance, Kevin Brownlow e Carl Davis, com o apoio do <a href="http://www.bfi.org.uk/" rel="externo">British Film Institute</a>, apresentaram em 1979 o que se supunha ser a versão integral de <em>Napoléon</em>.</p>
<p>A apresentação deste trabalho se deu durante a realização do <a href="http://www.telluridefilmfestival.org/" rel="externo">Telluride Film Festival</a>, na cidade do mesmo nome, no Colorado, Estados Unidos. No ano seguinte, o trabalho foi mostrado em Londres.</p>
<p>Entretanto, por volta da mostra da primeira versão de 1979, Francis Ford Coppola adquiriu os direitos de exibição do filme nos Estados Unidos, mas remontou o filme e reduziu a metragem para projeção em 4 horas, ao invés das 4:50 de Brownlow. Além disso, Coppola comissionou seu próprio pai, Carmine Coppola, para musicar o filme, descartando assim por completo o trabalho de Carl Davis. A apresentação foi fruto de uma parceria entre a Zoetrope Studios de Coppola e a Universal Pictures, e se deu em 1980, no Radio City Music Hall, em Nova York.</p>
<p>Além das alterações de tempo de projeção, Coppola ainda acelerou a cadência, de 20 qps para 24 qps, isto é, passou de filme mudo a sonoro, e desrespeitando a intenção original do diretor.</p>
<p>Abel Gance faleceu em 1981, mas os trabalhos de pesquisa de Brownlow continuaram. Em 1983, ele conseguiu recuperar vários segmentos de filmes e fez uma segunda restauração com sua equipe, sendo esta apresentada no <a href="http://www.barbican.org.uk/" rel="externo">Barbican Centre</a>, também em Londres.</p>
<p>Apesar do sucesso parcial, o trabalho de Brownlow e colaboradores ainda iria conseguir resgatar mais de 30 minutos de segmentos do filme considerados perdidos, e no ano de 2000 este resgate se somou finalmente ao filme original, recuperando assim as cinco horas e meia atuais de filme. Esta foi a terceira restauração de <em>Napoléon</em>, e contou novamente com Carl Davis, para completar a trilha musical.</p>
<p>A primeira apresentação da última versão aconteceu no Royal Festival Hall em Londres e a segunda em 2004. Nela se pode ver a recriação da tintura original da parte tríptica do filme por métodos modernos de laboratório. A apresentação desta versão suscitou ameaças judiciais por parte de Coppola sem, no entanto, ter logrado nada.</p>
<p>Coppola, com o apoio da Universal, faria uma versão em 70 mm, apresentada em 2007 no <a href="http://www.lacma.org/" rel="externo">Los Angeles County Museum of Art</a>, mas ainda usando a versão cortada que ele remontara e com a trilha musical composta por seu pai.</p>
<p>Na apresentação proposta para 2012, que acontecerá nos próximos dias em Oakland, será a versão integral de 5:30, recuperada por Kevin Brownlow, com música de Carl Davis, e aparentemente, fruto de um acordo com a Zoetrope, empresa de Coppola.</p>
<h2> O filme</h2>
<p>Abel Gance usou câmeras 35 mm, Debrie e Debrie L, segundo o IMDb. A relação de aspecto do negativo ainda é objeto de controvérsia, mas as apresentações modernas são relatadas em 1.33:1, e 4:1 na seqüência tríptica. A duração original do filme estava prevista para 9 horas, em 6 partes diferentes, mas o dinheiro se esgotou rapidamente logo na primeira parte.</p>
<p>Como suporte para travellings, Gance usou todo o tipo de veículo possível, inclusive trenós, cavalos e dollies:</p>
<p><a href="http://webinsider.uol.com.br/wp-content/uploads/2012/03/image005.jpg"><img class="aligncenter  wp-image-25648" src="http://webinsider.uol.com.br/wp-content/uploads/2012/03/image005.jpg" alt="" width="599" height="448" /></a></p>
<p>Para o filme lançado em 1927 em Paris, com duração de 4 horas e 10 minutos, a trilha sonora havia sido composta por <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Arthur_Honegger" rel="externo">Arthur Honegger</a>. Subseqüentemente, foi apresentada o que os historiadores consideram a “versão definitiva”, com duração de 9 horas e 22 minutos, com música do próprio Honegger. Uma trilha sonora separada foi escrita por <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Werner_Heymann" rel="externo">Werner Heymann</a>, e ela foi usada em uma versão mais curta, projetada na Alemanha, ao fim de 1927.</p>
<p>O filme chegou a América por intermediação da M-G-M, que comprou os direitos de exibição, mas foi rapidamente mutilado para 1 hora e 51 minutos e sem a parte tríptica. A apresentação foi feita em 1929, e segundo historiadores, recebida com indiferença pelo público, por causa da presença maciça nos cinemas de filmes sonoros já naquela época.</p>
<p>Gance, entretanto, continuou a fazer melhorias em <em>Napoléon</em>: em 1934, ele teria tentado o uso de som estereofônico, na forma de efeitos especiais, mas não há informações sobre o processo (chamado de Pictographe) e sobre o sucesso desta empreitada.</p>
<p>A influência da ousadia técnica de Abel Gance iria se refletir na construção do Cinerama© e o uso “moderno” da mixagem de filme plano com as imagens panorâmicas ou trípticas podem ser vistos em filmes como <em><a href="http://www.imdb.com/title/tt0085271/" rel="externo">Brainstorm</a></em>, de Douglas Trumbull (35 mm e 70 mm na mesma tela), e o documentário musical <em><a href="http://www.imdb.com/title/tt0066580/" rel="externo">Woodstock</a></em>, de Michael Wadleigh, respectivamente.</p>
<p>A influência da ousadia técnica de Abel Gance iria se refletir na construção do Cinerama© e o uso “moderno” da mixagem de filme plano com as imagens panorâmicas ou trípticas podem ser vistos em filmes como <a href="http://www.imdb.com/title/tt0085271/" rel="externo"><em>Brainstorm</em></a>, de Douglas Trumbull (35 mm e 70 mm na mesma tela), e o documentário musical <a href="http://www.imdb.com/title/tt0066580/" rel="externo"><em>Woodstock</em></a>, de Michael Wadleigh, respectivamente. Neste último, a composição é feita a partir de tomadas com câmera <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Eclair_%28camera%29" rel="externo">Éclair NPR</a>© de 16 mm, conforme mostra a captura a seguir:</p>
<div id="attachment_25791" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://webinsider.uol.com.br/wp-content/uploads/2012/03/image007.jpg"><img class=" wp-image-25791" src="http://webinsider.uol.com.br/wp-content/uploads/2012/03/image007.jpg" alt="" width="600" height="205" /></a><p class="wp-caption-text">Tomadas em 16 mm, compostas para versões em Panavision 35 mm e Panavision 70 mm.</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<h2> O esforço preservacionista de Brownlow não foi em vão</h2>
<p>Em 2010, Kevin Brownlow recebeu um prêmio honorário da <a href="http://www.oscars.org/" rel="externo">Academia de Artes e Ciências Cinematográficas</a> de Hollywood, pelo seu trabalho de pesquisa em filmes silenciosos, em particular <em>Napoléon</em>, que ele considera o maior filme de todos os tempos:</p>
<p><a href="http://webinsider.uol.com.br/wp-content/uploads/2012/03/image007.png"><img class="aligncenter size-full wp-image-25649" src="http://webinsider.uol.com.br/wp-content/uploads/2012/03/image007.png" alt="" width="296" height="441" /></a></p>
<p>A apresentação de 2012 deve culminar o reconhecimento do seu esforço, durante o Festival de São Francisco.</p>
<p>A versão alternativa de Coppola, ao que tudo indica, continuará em existência, apesar da mutilação e da trilha sonora nepotista que o cineasta encomendou. Ela foi, a propósito, a única versão até agora usada para videodisco e DVD, este fora dos Estados Unidos.</p>
<p>A disputa, entretanto, se estenderá até uma possível edição em mídia digital doméstica, e o colecionador terá sorte se a recuperação integral de Brownlow, com a trilha sonora de Carl Davis, for mantida. Infelizmente, só o futuro dirá se isto irá acontecer.</p>
<p>Eu, que nunca tive a chance de ver a obra de Gance, a não ser por trechos, e nem tenho nada a haver com esta briga, graças a Deus, espero que <em>Napoléon</em>, no trabalho integral de Brownlow, seja preservado (sem trocadilho) e exposto ao público do resto do mundo civilizado. Sinceramente, acho Coppola muito pretensioso para querer impor a sua versão mutilada, não me importa se por homenagem ao pai dele. Afinal, a preservação do cinema não pode dar espaço à vaidade, em detrimento da abnegação de terceiros! <strong>[Webinsider]</strong></p>
<p>…………………………</p>
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