Office XP pode render mais ações antitruste
31/05/2001 0:00Por:
Integração do Office XP com Hotmail e MSN é tão estreita que pode dar margem a acusações de concorrência desleal. Microsoft diz que não vai sacrificar a inovação por causa um possível processo legal.
Cesar Bianconi, da Reuters
Uma empresa como a Microsoft, fabricante norte–americana de software que detém a maioria esmagadora do mercado de sistemas operacionais, pode ser um alvo fácil de processos sobre competitividade. Mas a empresa de Bill Gates parece não dar muita bola para isso.
O lançamento da nova versão do pacote de aplicativos da companhia, o Office XP, na quinta–feira, é prova disso. Numa atualização considerada como "um divisor de águas" pelo diretor–geral da Microsoft Brasil, Mauro Muratório Not, a empresa integrou fortemente os programas Word, Excel e Outlook com a internet. Tudo normal, se não fossem os laços íntimos entre tais aplicativos com MSN e Hotmail, portal e email gratuito da Microsoft, respectivamente.
Um advogado especialista ouvido pela Reuters disse que o casamento Office XP e MSN pode dar margem a processos com base nas mesmas leis que originaram a famosa batalha nos tribunais dos EUA, que começou em 1997, por causa da distribuição conjunta do sistema operacional Windows com o navegador Internet Explorer.
Em junho do ano passado, o juiz norte–americano Thomas Penfield Jackson disse que a Microsoft deveria ser dividida em duas empresas, para evitar que a gigante dos softwares incorra em futuras violações às leis antitruste dos Estados Unidos. A companhia ainda apela da decisão.
Agora, a situação pode ser parecida. No caso da nova versão do processador de texto Word, por exemplo, incluída no Office XP, quando o usuário for salvar um arquivo terá a opção de armazená–lo num disco virtual na web. Para isso terá que ser assinante do serviço de e–mail Hotmail, que tem mais de 100 milhões de usuários no mundo e pertence à Microsoft. O armazenamento será feito nos servidores do portal MSN.
"O problema é fechar o sistema. Se o usuário quer esse tipo de facilidade (do disco rígido virtual), por que restringir a contratação de um produto idêntico de um concorrente da Microsoft?", disse à Reuters o advogado especialista em informática e internet da Opice Blum Advogados, Renato Opice Blum.
"Os princípios seriam os mesmos (do processo antitruste anterior), inclusive no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) no Brasil há princípios muito parecidos com os dos Estados Unidos", disse ele, lembrando da ação movida pela brasileira Paiva Piovesan Engenharia & Informática, criadora do software Finance, concorrente do Money da Microsoft.
A Microsoft se defende: "Você não faz (a venda) por decreto. Se o usuário vai usar um produto X, Y ou Z, é ele quem escolhe. Esse assunto (de competitividade) está ficando defasado, fora de moda. Eu não vou sacrificar inovação por causa de um possível processo legal", disparou Muratório, da Microsoft Brasil, à Reuters.
O advogado faz uma analogia do caso à uma situação hipotética. "É como se comprássemos um carro da GM e só fosse possível rodar com pneus da própria montadora", disse Blum.
Mas, pelo menos por enquanto, a Microsoft não tem conhecimento de nenhuma ação legal envolvendo o novo Office XP. "Posso garantir que não ouvi nada sobre isso na Microsoft", afirmou o diretor–geral da empresa no Brasil. [web insider]