Relacionamento - Jornalismo

O blog da Petrobras é um desafio saudável

24/06/2009 11:20

Por: Carlos Nepomuceno

Para o bem ou para o mal, o case servirá de modelo e discussão para outras iniciativas, no Governo e fora dele, sobre empresas colaborativas. Toda empresa devem prestar conta a seus consumidores.

Quando todo mundo deveria estar batendo palma em pé para a primeira empresa do Governo que cria um site colaborativo, mais dinâmico e que permite comentários, ao contrário, leva tiro de todo os lados (Fatos e Dados, mais conhecido como blog da Petrobras).

Claro, que houve erros iniciais no processo. E erros continuam, mas vamos separar o óleo do petróleo.

O presidente da Petrobras já disse ao Valor, de quinta, dia 10/06, que não colocará no blog as perguntas que o jornalista pedirem sigilo. Ok, muito bom, parabéns!

É simpático, educado e de bom tom, pois não se divulga o trabalho alheio sem permissão. (Detalhe, no novo mundo web é o jornalista agora que tem que dizer baixinho: “Mermão, é off-the-blog-records, ok!?”)

Tudo certo, isso se ajeita. Teve também um filósofo, que disse ao Globo, no dia 10/06, que a Petrobras está praticando no blog “Terrorismo de Estado“.  Recomendo mandá-lo para Palestina em temporada de bombardeio para separar o míssel da missiva.

No fundo da polêmica, lá no âmago, há uma revolta contra a perda de poder da mídia. E um espanto, uma falta de informação, diante das novas possibilidades que a rede permite.

A mídia hoje tem sido obrigada a tirar, com abridor de latas, a armadura pesada que ganhou, a partir de 1450, com o surgimento da prensa do Gutemberg.

O jornal em papel é mono, a rede é polifônica. O jornal de papel é estéril, a rede é, no mínimo, estéreo.

Toda empresa, principalmente do Governo, deve, deveria e deverá prestar conta direta a seus consumidores.

Seria bom, seria ótimo!

Atendê-los em todas as suas dúvidas, pois em última instância são os micro-patrões, pedindo satisfações.

Isso deve ser saudado e não questionado.

E mais: os consumidores estão ganhando o direito de saber o que os outros consumidores perguntaram e o que a empresa respondeu a eles.

Esse é o novo direito humano de expressão e acesso à informação, que surge com a rede: leitor sabe o que o outro leitor reclamou, vide Amazon.

Isso, e apenas isso, é a grande novidade da presença da Petrobras na rede, que, diga-se de passagem, não começou hoje, apenas agora permite comentários dos leitores em um site, digamos, mais vivinho do que o anterior.

O resto é fumaça!  Leitor agora lê a opinião de leitor sobre o que rola na empresa, estimulada pela Petrobras, que bom! E com direito a réplica da empresa? Melhor ainda!

São milhares de “jornalistas-participativos”, indagando, perguntando, sugerindo, denunciando, apurando. Quanto a Petrobras vai economizar em pesquisa de opinião?

Saímos do SAC com fundo (onde a empresa escuta as queixas, mas não compartilha) para o Saco sem  fundo, na qual as críticas e elogios são compartilhados com o mundo.  Até rimou!

É aí vem a minha crítica ao novo site dinâmico e colaborativo da Petrobras, que muitos gostam de chamar de blog.

Galera, moderar comentário é tiro contra, bola fora, não é assim que rola por aqui no novo mundo colaborativo.

Não aceitem comentários anônimos, isso sim, mas se um brasileiro (ou qualquer outro internauta, já que a Petrobras é multinacional)  quer comentar, ele tem o direito de fazê-lo sem censura, sem mediação.

Que digam os maiores absurdos, mas não falem pelas costas, falem diretamente a vocês!  Façam como fez o Globo online.  Deixe um espaço para denúncia de comentários indevidos, racistas, mentirosos. Coloquem um filtro de palavrões.

É a comunidade que vai afastar os que estão ali para sabotar, para criar ruído e não somar. Na rede, quem define isso é a comunidade e não o “dono” do site!  E quando as críticas forem improcedentes? A empresa tem que trazer dados, abertos, claros, cristalinos.

Ah, bom, e se, digamos, a empresa estiver errando, a denúncia tiver procedência?  Aí, meu caro, vem o preço de ser colaborativo, de ser 2.0, tem que mudar!

Pois denúncia no SAC é um fato isolado e no blog é um fato político! Apenas isso.

E aí vem a segunda parte dessa novela, a pergunta que não quer calar:

Aviso aos navegantes 2.0  neófitos: ser 2.0 não é um passo tecnológico, mas ideológico. Cultural.

É esse o desafio saudável que a empresa assumiu no seu novo espaço virtual, repito, que muitos gostam de chamar de blog.

Para o bem ou para o mal, o case servirá de modelo, de discussão para todas as outras iniciativas, tanto no Governo, quanto fora dele sobre empresas colaborativas. É ver no que vai dar!  Por enquanto, viva o blog da Petrobras. Concordas? [Webinsider]

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Sobre o Autor

<strong>Carlos Nepomuceno</strong> (nepomuceno@pontonet.com.br) é professor, pesquisador e co-autor do livro <strong><a href="http://www.campus.com.br/script/CpsMontaFrame.asp?pStrCodSessao=456D1141-5DBC-4385-907E-9E5E6415DD8E&pIntCodProduto=0&pIntCodParceiro=0" rel="externo">Conhecimento em Rede</a></strong> (Editora Campus), coordenador do <strong><a href="http://www.ico.org.br" rel="externo">ICO</a></strong>, Instituto de Inteligência Coletiva e diretor da <strong><a href="http://www.pontonet.com.br" rel="externo">Pontonet</a></strong>. Mais dele no blog <strong><a href="http://cnepomuceno.wordpress.com/" rel="externo">CNepomuceno</a></strong> e no <strong><a href="http://twitter.com/cnepomuceno" rel="externo">Twitter</a></strong>.

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    Publicada em: 24/06/2009 11:20
    Impresso em: 28/11/2009
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