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Formatos de tela: cinema, DVD e Blu-Ray

13/04/2009 18:45

Por: Paulo Roberto Elias

As barras pretas na tela da sua TV nas apresentações widescreen não indicam defeito, mas uma correção da relação de aspecto. Entenda.

Não existe, creio eu, coisa mais frustrante do que uma pessoa fazer planos para adquirir uma TV nova, e depois descobrir que está vendo alguma coisa que, supostamente, não deveria. E este raciocínio se aplica à mudança de padrões de tela dos televisores e monitores mais novos, saindo do display 4:3 convencional, para o de tela larga (ou widescreen) em 16:9.

Não é incomum a gente, que tem um pouco mais de experiência nesta área, ouvir a clássica pergunta do “porque a imagem do filme tem essas barras pretas?” E foi pensando nisso, que eu decidi escrever este artigo, na expectativa de tentar esclarecer o porquê das barras pretas, e, dentro do possível, provar a quem lê, que ninguém está sendo lesado, ao adquirir uma nova TV com tela widescreen.

Antes de mais nada, é preciso definir o que é 4:3 ou 16:9. Estas medidas se referem à relação entre a largura e a altura da tela de um monitor ou televisor, qual seja, para cada 4 de largura, eu devo ter obrigatoriamente 3 de altura, de uma medida de comprimento qualquer, por exemplo, centímetros. Assim, uma tela 16:9 tem 1,77 vezes mais largura do que altura, quase o dobro, portanto, daí o termo “widescreen”.

Se a gente dividir 4 por 3, e 16 por 9, vai ter, respectivamente 1.33 e 1.77. Por causa disso, pode-se afirmar que as telas de TV com formato 4:3 correspondem a um fotograma de cinema a 1.33:1 (o chamado fotograma plano, ou fotografia com lente esférica), e 1.77:1 (widescreen em filme plano), no caso de uma TV 16:9.

O cinema adotou a medida padrão de 1.33:1 para o filme plano, que consiste em 4 perfurações para baixo, no filme de 35 mm. A estória está melhor contada, neste outro artigo, dentro deste site. Mas, basta dizer que havia uma necessidade de padronização das proporções na tela, e assim a Academia de Cinema em Hollywood estabeleceu o padrão 1.375:1, que passou a se chamar “academy ratio”. No caso, “ratio”, se refere ao termo em inglês “aspect ratio” ou relação de aspecto. A mudança foi provocada pelo seguinte fato: os filmes mudos eram fotografados em 1.33:1, mas com a mudança para o som ótico, uma parte lateral do fotograma foi perdida. Com a redução da altura, na base de 1.37:1, o formato original em 1.33:1 foi recuperado.

Na medida em que os métodos de filmagem foram evoluindo, as relações de largura e altura foram se alterando, de forma a tornar a tela cada vez mais larga. No passar do tempo, os estúdios foram usando as relações de 1.66:1, 1.78:1, 1.85:1 (widescreen em lente esférica, ou filme plano), e aumentou para 2.76:1 (Câmera 65, Ultra Panavision, etc, em fotograma 70 mm), 2.55:1 (Cinemascope primitivo), 2.35:1 (Cinemascope, Panavision, ambos com lentes anamórficas) e 2.20 (Super Panavision, Todd-AO, em 70 mm).

A tela widescreen dos televisores e monitores modernos foi prevista para 1.77:1 nativo. Como a largura não muda, as acomodações dos fotogramas widescreen, acima mencionados, são feitas com a alteração da altura de cada imagem. No caso dos filmes antigos (1.33:1 e anteriores, a 1.66:1) a imagem pode ser totalmente contida na tela widescreen, com a inserção de barras pretas nas laterais da tela, no caso deste último:

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Cena de “City Lights” (Chaplin), em 1.08:1, em tela 4:3. Note-se na captura, que a imagem integral está mantida na tela.

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Imagem de “Kiss Me Kate”, a 1.33:1, tomando toda a extensão de uma tela 4:3.

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Imagem de “Carmen”, em 1.66:1, em tela widescreen (16:9). Note-se as barras laterais, que cercam o fotograma original. Dependendo da TV, essas barras não são vistas, devido ao “overscanning”.

Nos filmes widescreen transferidos para o vídeo, quanto mais larga a tela, mais espaço terá que ser perdido na altura, de forma a manter íntegra a relação de aspecto. Abaixo, pode ser visto um caso extremo desta situação: um fotograma de um filme Ultra Panavision (70 mm), em 2.75:1, aproximadamente.

image0071.jpg

Cena de “Battle of the Bulge”, em 2.76:1, em tela widescreen. As barras pretas, acima e abaixo da tela, compensam a perda de largura da tela (fixada em 1.77:1).

Uma lista extensa dos principais formatos de tela, pode ser visto nesta interessante página da Internet, caso haja interesse do leitor, em identificar todas essas variações.

Aumento da resolução nas telas “widescreen”

Para que a introdução das barras pretas, acima mencionadas, não implique na perda da qualidade da imagem do filme na TV, foi adotado um padrão de transferência chamado de “anamórfico”. O termo é derivado de uma antiga técnica de filmagem, praticamente introduzida no Cinemascope: uma lente, anamórfica, comprime a imagem fotografada verticalmente, no negativo do filme. Durante a projeção, uma lente com efeito oposto, estica a imagem lateralmente, para compensar a respectiva perda:

image009.jpg

Detalhe do fotograma anamórfico, em filme 35 mm.

A mesma técnica é aplicada, na transferência do filme para a máster de vídeo. Os DVD’s assim produzidos são chamados de anamórficos, ou então “realçados para tela 16:9”:

image0101.jpg

Gravação anamórfica, em DVD (imagem 1.85:1). Note-se o uso completo da resolução vertical (definição) para a captura da imagem.

image0121.jpg

A mesma imagem, expandida em tela 16:9.

image0141.jpg

Cena em 2.35:1 (Panavision), em DVD anamórfico. Neste caso, as barras pretas são usadas, para compensar a relação de aspecto na tela 16:9.

image016.jpg

A mesma cena, expandida, para tela de TV 16:9, com manutenção total da resolução vertical.

A transferência anamórfica permite, como no cinema, aproveitar ao máximo a área disponível, para a captura da imagem. Se assim não fosse, uma parte desta área teria que ser destinada a criação das tarjas pretas, necessárias à criação do fotograma original. Neste último caso, o processo é chamado de “letterbox” ou widescreen não anamórfico. O processo foi extensamente usado nos antigos laserdiscs:

image018.jpg

Cena de The Abyss, em letterbox (widescreen 4:3). A área disponível reduz a qualidade da imagem (resolução vertical), porque uma parte dela foi usada para gerar as tarjas pretas do widescreen.

A perda de resolução na transferência em letterbox é de cerca de 33%, na resolução vertical, quando comparada à mesma imagem, transferida anamorficamente.

Por outro lado, para aproveitar ao máximo este aumento de resolução, é necessário que:

1 – a tela usada para reprodução do DVD anamórfico seja 16:9;

2 – o aparelho de leitura do DVD anamórfico seja ajustado para display 16:9 e não 4:3, como costuma vir de fábrica;

3 – seja usada uma saída de vídeo de alta resolução, como vídeo componente, DVI, ou HDMI.

Os aparelhos leitores de DVD saem de fábrica ajustados para tela 4:3, por convenção. Ao se fazer uso de uma tela 4:3 com disco anamórfico, o leitor aplica um filtro de conversão, de forma a eliminar as linhas que eram anteriormente usadas integralmente, na resolução do DVD. Com isso, a imagem fica empobrecida de qualidade, irremediavelmente. Se o mesmo leitor de DVD é usado para uma tela 16:9, é preciso desligar este filtro. Isto é conseguido, mudando-se a saída de tela no leitor, de 4:3 para 16:9. Se isso não for feito, a tela 16:9 exibirá uma imagem widescreen convertida, com a mesma perda de resolução acima referida.

Os DVD’s com transferência 4:3 “letterbox” (não anamórficos) podem ser reproduzidos na tela widescreen, porém com perda significativa de qualidade. A perda fica ainda mais evidente, se o usuário decidir usar o recurso de “zoom” da TV, porque, no caso, a imagem expandida tem uma resolução nativa em pixels muito baixa. Um recurso que é usado por alguns fabricantes, para diminuir esta perda é o chamado “upscaling”, que consiste no remapeamento de pixels, de modo a aproveitar ao máximo a resolução da tela 16:9. Se este recurso estiver disponível no equipamento leitor, ele deve ter preferência, ao invés de se usar o zoom da TV.

Em resumo, a inserção de barras pretas, na tela de um televisor ou monitor, mesmo em widescreen (16:9), é o que permite a adaptação da tela ao fotograma original capturado pela câmera de cinema. Imagens em alta definição são necessariamente anamórficas, o que significa dizer que a qualidade da mesma, numa tela widescreen, será sempre mantida. [Webinsider]

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Sobre o Autor

<strong>Paulo Roberto Elias</strong> é professor aposentado da Faculdade de Medicina da UFRJ, hobbyista em áudio e vídeo, Mestre em Ciências (M.Sc.) e Ph.D. em Bioquímica. Manteve, até recentemente, o site Miragem, cujos artigos podem ser <strong><a href="http://webinsider.uol.com.br/index.php/artigos/tags/arquivo-miragem/">lidos aqui</a></strong>.

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    Publicada em: 13/04/2009 18:45
    Impresso em: 28/11/2009
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