Redes sociais - Educação e ensino

A sociedade da informação não existe

01/04/2009 22:43

Por: Carlos Nepomuceno

Em qualquer época, a informação (e as redes que a sustentam) foi fundamental para manter o equilíbrio entre a população e suas necessidades. Analisar a nossa sociedade como a da informação é um erro teórico.

Volta e meia o problema volta.

“Nós que vivemos na sociedade da informação”.
“Agora, nessa sociedade da informação”.

Isso é quase um carro da pamonha que passa todo dia aqui na porta. Vamos dar um tempo e parar para pensar! (Já tratamos do assunto aqui, mas vamos aprofundar.)

Ok, sem dúvida, precisávamos separar alguma coisa na Economia antiga para essa nova.

Assim, realmente estamos em outra sociedade diferente da construída pela Revolução Industrial. Certo?

Mas será que é a da Informação?

A necessidade de conceituar e teorizar sobre determinado objeto visa facilitar a nossa aproximação de determinado problema.

Você pode utilizar a teoria que quiser para enfrentar problemas práticos, mas quando começar a patinar é momento de rever se pegou o trator (conceitos e teorias) que vai realmente te tirar do atoleiro.

Há uma mudança na sociedade e precisamos chamá-la de outro nome - o volume da informação cresceu e pimba: “sociedade da informação!”.

Foi bom para você? Sim, mas agora não é mais suficiente. Esse conceito afundou na realidade.

Vamos pegar um exemplo para demonstrar que a quantidade de informações é proporcional ao número de habitantes.

Vejamos o Brasil com dados arredondados:

Ano - Habitantes
1550 - 15 mil
1660 - 184 mil
1760 - 1.800.00 mil
1860 - 8.500 mil
1960 - 70 milhões
2000 - 170 milhões

(fonte)

Hoje - 191 milhões

(fonte)

Nossa população praticamente se multiplicou por 10 a cada 100 anos. Note que hoje para resolver as necessidades de cada pessoa é preciso:

Some ainda lazer, transporte, educação, comunicação… o volume de dados necessários para manter essa população viva é gigantesco, gerando uma quantidade informacional absurda para que possamos resolver nossas necessidades.

No livro “Here Comes Everybody”, de Clay Shirky (página 27), o autor traz uma visão interessante, que tenta demonstrar que o aumento das pessoas no ambiente não cresce apenas em número, mas cada vez mais em complexidade.

Ou seja, quanto mais gente, mais do que crescimento aritmético, temos pelo aumento do número de relações, uma expansão geometrica da complexidade.

Veja a figura abaixo:

complexidade.jpg

Ou seja, quando saltamos de 15 mil, em 1550 para 191 milhões hoje em dia, ganhamos aritmeticamente em tamanho e explodimos geometricamente em complexidade.

Em todas estas situações a informação (e as redes que a sustentam) foram fundamentais para manter o equilíbrio entre a população e suas necessidades.

Todas foram sociedades da informação, aritmeticamente e geometricamente compatíveis com o número de habitantes e a complexidade que a articulação entre as pessoas necessitou em cada etapa.

Quanto mais fomos evoluindo, mais precisamos sofisticar os ambientes de informação, suas redes de conhecimento. É uma relação proporcional que ganha mais e mais complexidade a cada passo.

O ambiente oral precisou da escrita (para deixarmos recados) e deste partimos para a rede digital, com o computador (pavimentando e virtualizando o mundo, gerando processadores de dados fora das nossas cabeças), e ainda introduzimos a colaboração a distância do muito para muitos, conectando e permitindo a interação entre pessoas sempre à procura de relevância para sobrevivermos nesse mar informacional cada vez mais largo e profundo.

Ou seja, temos o sistema de informação compatível com o volume da população, nem mais nem menos.

Analisar a nossa sociedade como a da informação, como diz Castells, é um erro teórico.

(O mesmo vale para sociedade do conhecimento.)

Temos que ver não o que sempre foi, mas onde realmente somos diferentes. A saber, um cardápio para escolha:

Temos que direcionar nossos esforços para compreender nossa sociedade, naquilo que realmente temos de novo e como vamos nos adaptar a essa nova realidade.

E não colocar cabelo em ovo e ficarmos perdidos sem entender a lógica do processo, patinando na areia da praia.

Quando erramos o alvo, tão longe, acabamos inventando um mundo que não existe. Gestões de uma porção de novidades que só nos atrapalham.

O ser humano não muda suas necessidades básicas, apenas sofistica aqui e ali. Somos, de certa forma, os mesmos, mas muitos mais no planeta.

Precisamos, em função disso, de um ambiente informacional mais sofisticado, com o qual precisamos nos adaptar e, ao mesmo momento, corrigir na nossa forma de organizar, mais compatível com a nova realidade, o que não dava antes por falta de condições de articulação no ambiente passado.

(Note que a guilhotina é filha do livro e tirou a cabeça dos reis para criar o modelo do Governo que temos hoje.) [Webinsider]

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Sobre o Autor

<strong>Carlos Nepomuceno</strong> (nepomuceno@pontonet.com.br) é professor, pesquisador e co-autor do livro <strong><a href="http://www.campus.com.br/script/CpsMontaFrame.asp?pStrCodSessao=456D1141-5DBC-4385-907E-9E5E6415DD8E&pIntCodProduto=0&pIntCodParceiro=0" rel="externo">Conhecimento em Rede</a></strong> (Editora Campus), coordenador do <strong><a href="http://www.ico.org.br" rel="externo">ICO</a></strong>, Instituto de Inteligência Coletiva e diretor da <strong><a href="http://www.pontonet.com.br" rel="externo">Pontonet</a></strong>. Mais dele no blog <strong><a href="http://cnepomuceno.wordpress.com/" rel="externo">CNepomuceno</a></strong> e no <strong><a href="http://twitter.com/cnepomuceno" rel="externo">Twitter</a></strong>.

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    Publicada em: 01/04/2009 22:43
    Impresso em: 26/11/2009
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