Tecnologia

DSD é formato para gravar e masterizar com qualidade!

17/12/2008 19:01

Por: Paulo Roberto Elias

O mercado está voltado para o MP3, mas formatos de muito maior qualidade estão maduros e em uso.

Os anos se passam e parece às vezes que certas coisas não mudam. No universo dos audiófilos eu já vi de tudo! O último incidente foi lá pelo final do século passado, quando apareceram duas alternativas novas de gravação e reprodução de áudio digital: DVD-Audio e SACD.

Até então, o PCM linear, que a gente já conhecia do CD, iria chegar a taxas de amostragem de 48 kHz e 96 kHz com o DVD, mas com pouca ou quase nenhuma aplicação pela indústria fonográfica. DVD-Audio e SACD se propuseram a mudar isso. Mas, ao invés de fazer esta mudança, acabaram por deflagrar uma guerra de formatos absurda.

Resultado: esta guerra, cercada de disputas egóicas pelos fóruns da internet, desestimulou até mesmo o público potencialmente interessado em áudio de melhor qualidade, no qual eu me incluo, e tudo isso teve como conseqüência, ao longo do tempo, na pouca disseminação e eventual falência comercial dos dois formatos.

O mais irônico desta estória, porém, é que, apesar de oficiosamente mortos, DVD-Audio e principalmente SACD continuam a ser produzidos e vendidos em vários países e por vários estúdios, com orientação para o público que demanda qualidade de gravação, antes de qualquer outra coisa. Mais irônico ainda é que, durante a guerra de formatos, foi o SACD quem sofreu o maior e mais vilão dos ataques e, no entanto, foi praticamente o único dos dois que ainda respira sem a ajuda de aparelhos.

O SACD está presente até mesmo no PS3, que é uma máquina desenhada para Blu-Ray e jogos, ou então pode ser encontrado em leitores de DVD “universais”, alguns caríssimos, é verdade, mas outros bem mais em conta e ao alcance de qualquer um.

O ataque ao SACD foi, por vezes, amparado em documentos técnicos, inundados de cálculos que só os engenheiros entendem, mas na prática, toda esta exegese cai por terra, quando o SACD vai para as mãos de quem ouve. E se alguma lição a gente pode (e deve) tirar disso aí é que os ouvidos da gente são sempre mais apurados do que os cálculos e as medições dos instrumentos.

Não é a primeira vez que se tem evidência de que preceitos de eletrônica e de engenharia entram em descrédito, por falta de uma maneira correta de medir distorções ou anomalias na onda musical. O áudio esotérico foi várias vezes uma prova disso. Quando certos tipos de capacitores foram considerados deletérios para a qualidade do áudio, muitos engenheiros dizeram que “capacitor é capacitor”, ou seja, o efeito dielétrico é o mesmo. Mas o áudio esotérico trabalha de forma empírica, na base da tentativa, observação e erro, e se ao trocar de um tipo de capacitor para outro e o som muda, então alguma coisa ali deve estar influenciando isso, sem que os métodos de medição de capacitância tradicionais possam identificar o motivo!

Resultado: hoje em dia, somente certos tipos de capacitor são admitidos nas cadeias de transmissão de áudio, sem que outros questionamentos sejam feitos.

Com o SACD foi algo parecido: execrado por alguns por se tratar de um formato baseado no DSD (Direct Stream Digital), que é uma extensão do método de modulação digital chamado de Delta-Sigma Modulation (DSM). O DSD faz a amostragem do sinal analógico com apenas 1 bit, porém numa freqüência de amostragem de 2.8224 MHz, isto é, uma taxa de 64 vezes o valor usado para o CD (44.1 kHz).

O sinal é armazenado como DSM, e os erros de quantização (inerentes a qualquer processo de amostragem digital) são eliminados por um método chamado de “noise shaping”. O DSD tem, segundo seus proponentes (Philips e Sony), capacidade para reproduzir sem distorção sinais na faixa de 0 (DC) até 100 kHz, e com uma dinâmica que pode chegar a 120 dB. Isto o torna ideal para a preservação (arquivamento), gravação ou masterização de diversas fontes de sinal de áudio.

A Philips, a partir do final da década de 1980, vinha se envolvendo com esta tecnologia, com o objetivo de aperfeiçoar os estágios de saída dos seus leitores de CD. E apresentou, no início dos anos de 1990, um decodificador digital analógico “Bitstream”, chamado de DAC-7 (TDA1547), que não por coincidência, ainda foi usado nos estágios de saída dos leitores de SACD.

Para que o leitor tenha uma idéia de como o DSD pode ser bem aproveitado nos estúdios de gravação e masterização, eu convidei o engenheiro de gravação Homero Lotito, do Reference Mastering Studio, em São Paulo. Homero é um músico erudito, que cuida dos trabalhos de masterização, sendo o primeiro a usar o DSD como forma de garantir a alta qualidade do seu trabalho. E é ele mesmo quem nos conta como isso é feito:

homero_lotito.jpg

Homero Lotito, em ação, próximo a uma das estações de trabalho no estúdio da Comep, em São Paulo.

“Antes de abordar o processo de masterização é importante que se tenha uma idéia geral das várias etapas de uma gravação / produção musical “padrão”.

Podemos dividir em três etapas distintas e complementares.

O processo:

Para facilitar a compreensão do processo de masterização, vamos nos ater à masterização para a mídia CD Áudio.

O material chega ao estúdio de masterização em diversos formatos, o mais comum atualmente é um arquivo de computador contendo o áudio em formato wav ou aif.

Diferentemente dos formatos mais comuns aos usuários de computadores e internet, esses arquivos de áudio estão em alta resolução (24 bits e amostragens de até 192kz).

Primeiramente as músicas são ouvidas e analisadas pelo engenheiro de masterização que busca por imperfeições sônicas como ruídos, freqüências ressonantes, diferenças de equilíbrio tonal e dinâmica entre todo o conjunto.

Todos já devem ter reparado que quando se ouve um CD não é necessário que se ajuste o volume de audição de música para música. Este é um dos trabalhos mais importantes da masterização, o equilíbrio dinâmico entre as várias faixas.

Qual o volume médio que o CD vai ter?

Esta discussão estilística é discutida com o produtor musical logo no início do processo. Vale ressaltar que os diversos estilos musicais têm requisitos bastante distintos quanto a faixa dinâmica. Um CD de rock requer um volume médio muito mais constante (menor faixa dinâmica) que um CD de música clássica, por exemplo. Estabelecidos estes parâmetros começa o processo propriamente dito:

O áudio em formato digital é convertido para sinal analógico e passa por pelo menos dois processadores analógicos: um equalizador que modifica o equilíbrio entre as diversas freqüências sonoras e um compressor/expander, que estabelece a faixa dinâmica do programa.

Em seguida é novamente convertido para o formato digital - podendo ainda passar por outros processadores - e termina gravado já na resolução final em uma segunda ”workstation” (gravador digital). Este processo é repetido música a música, ao mesmo tempo uma comparação sônica constantemente feita entre elas, a fim de se estabelecer o equilíbrio desejado.

Na etapa seguinte as músicas são colocação na seqüência desejada e é feito o espaçamento dentre elas (as pausas entre as faixas do CD).

Por ultimo é gravado um CD Master que será duplicado industrialmente.

Neste exemplo, mesmo sendo o CD Áudio a mídia de destino, a tecnologia DSD pode ser usada em diversas etapas na masterização:

A masterização é um processo altamente técnico, mas que envolve conceitos estilísticos importantíssimos para a boa apresentação da obra artística.”

O trabalho que é executado dentro de um estúdio como o de Homero Lotito atende a todos os requisitos de padrão de qualidade internacionais, particularmente no segmento de público que procura algo mais, na hora de escutar música: a reprodução de instrumentos em ambiente adequado e com a maior fidelidade possível. O estúdio de Lotito abraçou, para este fim, a tecnologia DSD, como ele nos relata:

“Em 2003 o Reference Mastering foi pioneiro no emprego de outra tecnologia para áudio digital, o DSD (Direct Stream Digital). Foram lançados os dois primeiros SACDs totalmente gravados e produzidos no Brasil: André Mehmari – Lachrimae e André Geraissati – Canto das Águas.

O Super Audio CD foi desenvolvido pela Sony/Phillips com a intenção de ser o substituto do CD tradicional, porém nos últimos anos houve uma mudança profunda no hábito das pessoas escutarem e consumirem música. A aceitação incondicional do MP3, um formato de resolução e qualidades baixíssimas quando comparado ao próprio formato CD, determinou que projetos e investimentos projetados para o SACD fossem desviados ou suspensos.

Isso gera um paradoxo: os estúdios de gravação e masterização têm condições de entregar ao consumidor final padrões de áudio de qualidade inquestionável, porém os interesses da indústria de informática e dos meios de comunicação caminham no sentido inverso, isto é, muita quantidade e baixíssima qualidade.

Vale lembrar que as tecnologias digitais de gravação também estão em constante mudança, o que nem sempre significa evolução.”

De fato, o SACD, bem como todos os outros formatos capazes de dar ao ouvinte o melhor áudio possível, está cada vez mais restrito a um nicho de consumidores, o que é uma pena.

Em tese, o SACD teria tudo para dar certo. Como mídia, ele acompanha o CD tradicional, na forma de um disco híbrido, e assim o usuário pode tanto ouvir a camada contendo o CD quanto a do DSD, e neste caso, ele ainda pode escolher entre estéreo convencional e multicanal. Além disso, equipamentos de reprodução mais recentes permitem que SACD possa ser lido e depois transmitir o DSD digitalmente, ou na forma de LPCM multicanal, conforme o processador de destino. Em qualquer hipótese, o resultado obtido supera qualquer expectativa.

Independentemente do que o consumidor possa usar para reproduzir música em casa, e de aceitar a massificação de codecs de áudio de baixa qualidade, para nós, pelo menos, é sempre bom saber que existe forma e intenção de caminhar no sentido oposto, como nos mostra o trabalho do engenheiro Homero Lotito.

Eu acredito, e me baseio na minha própria vivência para ousar afirmar isso, que áudio e música de qualidade sempre irão existir no espírito e na apreciação de muitas pessoas, por este mundo afora. Modismos vêm e somem, e nem sempre fazem parte de um processo evolutivo, e nisso eu estou absolutamente de acordo com o Homero Lotito. Porque, evolução de verdade, nunca deixa de respeitar o que o ser humano já conquistou de bom, em todos os campos do conhecimento humano! [Webinsider]

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Equipamentos de masterização usados no Reference Mastering Studio.

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Sobre o Autor

<strong>Paulo Roberto Elias</strong> é professor aposentado da Faculdade de Medicina da UFRJ, hobbyista em áudio e vídeo, Mestre em Ciências (M.Sc.) e Ph.D. em Bioquímica. Manteve, até recentemente, o site Miragem, cujos artigos podem ser <strong><a href="http://webinsider.uol.com.br/index.php/artigos/tags/arquivo-miragem/">lidos aqui</a></strong>.

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    Publicada em: 17/12/2008 19:01
    Impresso em: 28/11/2009
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