Mídia interativa - Branding

Não buzine, sou surda (uma conversação iniciada)

17/09/2008 21:38

Por: Tulio Paiva

Você com pressa, dirigindo, parado atrás de uma Kombi lerda na ladeira. A situação mostrou um bom uso de interface para iniciar uma conversação e aliviar o desconforto por meio do humor.

Por uma questão cronológica óbvia, não faço internet desde sempre. Quando estava começando minha carreira, o computador ainda era uma novidade nas agências. Tive o privilégio de usar um dos primeiros editores de texto, cheios de códigos para bold, em telas de fósforo verde. E vi, até, bem de pertinho, coisas hoje lendárias como o paste-up e a fotocomposição.

Se isso faz com que, aos olhos da minha jovem equipe, eu pareça alguém muito próximo de embarcar dessa para melhor, por outro lado também explica essa minha santa mania de recorrer a exemplos analógicos para ilustrar meus conceitos sobre a criação online. Como vou fazer agora. Old habits never die, my friend.

Um belo dia, estava eu voltando para a agência, depois de uma reunião com um cliente que havia demorado um pouco mais do que o previsto. Cheio de pressa, com jobs me esperando, resolvi cortar caminho por um daqueles atalhos ninjas que todos nós temos – ou pelo menos acreditamos ter.

Batata. No meio de uma ladeira, sem nenhuma vicinal à mão, encalhei atrás de uma Kombi subindo a zero por hora. Pânico, caos, desespero. Quando estava prestes a entrar em surto psicótico, pousei os olhos sobre um cartaz que a motorista havia colado no vidro traseiro. Impresso em laser, trazia os singelos dizeres: “não buzine, sou surda”.

Como você, abri um sorriso. E imediatamente refleti sobre como a maneira de pensar e usar a interface é muito mais importante que a interface em si. Sim, interface. O vidro traseiro de uma Kombi na ladeira. É ou não é uma tela?

A motorista poderia ter comprado um adesivo “não buzine” na banca de jornal. Do ponto de vista de conteúdo, teria dado seu recado. Mas não teria preenchido nenhum vazio emocional meu, não teria respeitado o contexto, não teria oferecido nenhuma conveniência (no caso, a conveniência de aliviar um desconforto por meio do humor).

Mais importante: não teria estabelecido uma conversação, uma troca de emoções por meio da interface. E não se estabeleceria comunicação. Ela preferiu me divertir.

Pense nisso. Por mais que a tecnologia evolua e nos fascine, por mais que o design se aprimore, por mais que a AI nos conheça em nossos hábitos pelo avesso, saber que alguém pensou na gente antes de nos dizer alguma coisa faz toda a diferença. A diferença de um sorriso. A diferença de preferir a marca A ou a marca B.

O que as suas interfaces andam dizendo? “Não buzine.”? ou “Não buzine, sou surda.”? [Webinsider]

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Sobre o Autor

<strong>Tulio Paiva</strong> (tulio.paiva@draftfcb.com) é publicitário, diretor de criação digital da Giovanni+DRAFTFCB e mantém o blog <strong><a href="http://blogdoseotuli.blogspot.com/" rel="externo">Cá entre nó dois</a></strong>.

Url original: http://webinsider.uol.com.br/index.php/2008/09/17/nao-buzine-sou-surda-uma-conversacao-iniciada/
    Publicada em: 17/09/2008 21:38
    Impresso em: 28/11/2009
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