Há modelo de negócio para sites web 2.0 brasileiros?
10/06/2008 21:23Por:
O mercado publicitário ainda está em transformação e uma nova geração de usuários sendo formada. Bom para o empreendedor, mas o caminho da sustentabilidade e lucratividade cada um vai ter que descobrir.
Comprei o novo Nescau 2.0. Além de dar mais uma bombada na “buzzword” 2.0, ele parece representar de certa forma a maneira como a web 2.0 é tratada no mercado de internet do Brasil: um leve “twist” no design e no sabor e pouca mudança no principal. No saldo geral, é mais um caso de uso indiscriminado e indevido do termo, que o desgasta antes mesmo de gerar cases efetivos.
O conceito da web 2.0, cunhado há alguns anos, tenta gravar um marco na evolução da internet, a partir de uma série de novas idéias que estão amadurecendo: desde conteúdo gerado e classificado pelo usuário até questões puramente técnicas. Há um mapa que ilustra muito bem essa nuvem de conceitos (“cloud”).
Sites como Youtube, Myspace e Orkut, Flickr, Delicious, Digg e muitos outros têm proporcionado aos usuários diversos níveis de experiências no conceito mídias socias que se popularizaram e chamaram a atenção de grandes investidores. Esses mesmos sites estão agora em uma etapa de tradução para os diversos idiomas para ampliar ainda mais o número de usuários.
No Brasil, no entanto, a coisa é um pouco diferente, como sempre foi. Como o Nescau 2.0, muitos sites se dão o rótulo (ou “tag” para ficar dentro do jargão) de “site 2.0”, simplesmente por usar uma interação “ajax” ou incluir um espaço de comentário, na expectativa de receber um aporte de capital ou cair nas graças do Google.
Vou fazer uma pequena reflexão sobre os modelos de negócio mais comuns para a internet:
IPO ou venda para grandes players
Confesso que ainda não entendo o modelo de negócios do Youtube, do Flickr ou de vários outros. É certo que se no início da internet ficava-se milionário fazendo-se IPO na Nasdaq, hoje em dia a salvação pode estar em ser comprado pelo Google, Yahoo e outros superplayers do mercado.
Como essa opção é um tanto escassa para a maioria dos negócios, não creio que seja possível montar um plano de negócios realista, cujo objetivo final seja “ser comprado pelo Google”.
Publicidade online
Geralmente, coloca-se a publicidade como a principal responsável pela geração de receitas de um site. Uma das opções é colocar os anúncios do Google ou de outras redes parecidas. Na prática, sabe-se que esse tipo de publicidade só gera algum volume significativo de receitas se o site tiver um número estúpido de visitas, o que geralmente gera um custo alto e a conta não fecha.
No Brasil, grande parte das receitas de campanhas publicitárias para internet (banners, pop ups etc) é absorvida pelos grandes portais, que concentram conteúdo e audiência e possuem uma força de venda efetiva. Para um site independente desses portais, as opções são formar uma força de venda própria ou buscar associação junto a representantes de mídia.
Dado esse cenário, é arriscado basear o plano de negócios unicamente na publicidade online padrão.
Publicidade cauda longa
Sites com um foco bem definido em seu mercado, como é o caso do VCVAI.com, que é um guia 2.0 de lugares para sair, geram valor por intermédio das relações que vão sendo construídas entre o público que acessa o site e seus interesses comuns. (Nota do editor: o autor é fundador do site mencionado acima).
Esta relação, entre pessoas e restaurantes, por exemplo, pode ser explorada comercialmente oferecendo-se uma comunicação totalmente dirigida a um nicho específico. É possível, dessa maneira, explorar a “cauda longa” dos estabelecimentos que estão no guia, com a oferta de pacotes a custos baixos e que atingem diretamente o público que procura ativamente um lugar para sair e já construiu seu perfil de preferências utilizando-se das ferramentas do site.
Ferramentas online profissionais pagas
Outra maneira de explorar a web 2.0 é aproveitar a conversão dos softwares desktop pelos aplicativos online, também chamados de “computação na nuvem”. Novamente, o alvo deve ser um mercado específico que, ao invés de comprar licenças de programas para instalar em suas máquinas, pode usar um aplicativo pela internet pagando uma pequena taxa mensal. Além de ganhar mobilidade, os softwares online não precisam de atualização.
Alguns exemplos são o Aprex, escritório virtual, e os softwares de gerenciamento de projetos e CRM Basecamp e Highrise, que oferecem recursos online com mensalidades baixas, também explorando o conceito de cauda longa, pois mesmo pequenos negócios podem ser assinantes.
E-commerce e serviços pagos pelo usuário
Sempre que o usuário final tem que pagar por um serviço de internet, é esperada uma “taxa de conversão” baixa, pois, para a maioria deles, a internet é “de graça”. Isso significa que é necessário um fluxo muito grande de usuários acessando o site para gerar um número relativamente pequeno de vendas. Acertando o custo de operação com o valor dos produtos, é uma equação que pode fechar a conta, principalmente se o produto for 100% digital.
Deve-se ter em mente que ainda existem muitas barreiras que impedem o e-commerce “brazuca” de ganhar impulso. A desconfiança com a segurança, a pouca experiência com compras online, o menor uso de cartões de crédito, a menor renda e a falta de bons agregadores de pagamento universais, como é o caso do PayPal no mercado internacional.
No Brasil a camiseteria.com.br é um ótimo exemplo de e-commerce de produtos físicos, totalmente sintonizado com o conceito web 2.0. Nesse caso, a própria comunidade cria as estampas e elege aquelas que devem ser comercializadas e ainda há a remuneração do usuário que criou o modelo escolhido.
Enfim, ainda continua difícil responder para a sua mãe “como você ganha dinheiro, meu filho?”. A web, especialmente nesta nova onda, é um território para exploradores onde todos estão aprendendo, formando preços e modelos e são poucas as fórmulas que podem ser repetidas.
O mercado publicitário ainda está no curso de uma transformação e uma nova geração de usuários está sendo formada agora. Estar presente e vivendo essa fase é um privilégio para quem gosta de empreender, mas o caminho da sustentabilidade e da lucratividade cada negócio terá que descobrir. Que a bolha 2.0 passe e revele os modelos de sucesso, boa sorte! [Webinsider]
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