Redes sociais - Jornalismo

Por que o jornalismo participativo não decola nos portais?

26/03/2008 18:18

Por: Juliano Spyer

Veículos de comunicação aceitam a colaboração do usuário, mas fazem questão de manter filtros que nos fazem pensar se o compromisso que possuem não é somente com seu público. Você concorda?

As soluções implementadas hoje do chamado jornalismo participativo, colaborativo ou cidadão pelos principais portais de notícia brasileiros têm de novo só o nome, porque geralmente funcionam da mesma forma como as antigas seções de cartas do leitor.

A chamada internet comercial existe há quase 20 anos e os veículos de comunicação continuam se justificando: - “Precisamos filtrar a informação enviada pelos usuários para garantir a correção da notícia e não comprometer a reputação do veículo.” Mas desde 1997 o site de notícias tecnológicas Slashdot popularizou a auto-moderação, que significa usar soluções para medir a reputação de usuários e compartilhar a filtragem do conteúdo entre os mais comprometidos com o site.

A ação descentralizada dos indivíduos - cada qual votando no que gosta ou não gosta - faz emergir uma ordem que revela de maneira surpreendentemente precisa os interesses da comunidade. Essa solução é mais barata porque usa a contribuição voluntária de centenas, milhares ou milhões de usuários para fazer a triagem do conteúdo.

É também mais eficiente porque os editores não precisam mais adivinhar o que a audiência quer. Por que nenhum dos grandes quer saber disso?

A justificativa de que o filtro existe para resguardar a reputação - veja os termos do Terra e do IG - do veículo encobre a motivação menos nobre: a de que o compromisso de veículo de comunicação não é exclusivamente com seu público.

O poder de influenciar opiniões é usado em benefício próprio ou vendido pelo melhor preço, de maneira explícita como nos anúncios publicitários, ou velada como no caso do dossiê sobre a Veja.

Em um evento recente sobre jornalismo online, responsáveis por sites de notícia reclamavam da quantidade de conteúdo irrelevante que chega nas áreas participativas - como flagrantes de acidentes, denúncias sobre problemas locais como buracos nas ruas. Mas as pessoas observam o que passa e o que fica retido nos filtros editoriais.

Informações críticas podem colocar o veículo em situação delicada com governo ou anunciantes. São aceitos materiais sobre curiosidades, aberrações ou denúncias que quando muito servem para alimentar comentários como: - Todo político é corrupto… - Olha o que fazem com os nossos impostos… - Ricos nunca são presos…

A situação é muito parecida com a das gravadoras que lutam contra a pirataria argumentando o nobre interesse de defender os interesses dos artistas. Mas ficam em silêncio sobre a indústria do entretenimento que paga o famoso jabá para as FMs tocarem uma faixa e alavancarem as vendas de CDs.

O consumidor não só é forçado a comprar um disco inteiro para escutar uma música, como ainda precisa pagar pela embalagem, pela distribuição e - claro - pela campanha de marketing. [Webinsider]

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Sobre o Autor

<strong>Juliano Spyer</strong> (juliano@naozero.com.br), autor do livro <strong><a href="http://www.naozero.com.br/conectado" rel="externo">Conectado</a></strong> e do blog <strong><a href="http://www.naozero.com.br/" rel="externo">NãoZero</a></strong>, é especialista em mídia social e projetos colaborativos na web.

Url original: http://webinsider.uol.com.br/index.php/2008/03/26/por-que-o-jornalismo-participativo-nao-decola-nos-portais/
    Publicada em: 26/03/2008 18:18
    Impresso em: 28/11/2009
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