Comportamento

A luta em Tropa de Elite e a luta pela cultura livre

10/10/2007 0:28

Por: Gilberto Alves Jr.

Opinião: ao perceber que a internet e os CDs não atrapalharam o sucesso de Tropa de Elite (podem ter ajudado), vale discutir a questão difusa sobre o que é pirataria e o que é informação livre.

Depois da entrevista do Mano Brown ao programa Roda Viva, resolvi ouvir toda a discografia dos Racionais. Coloquei tudo no iPod e fiquei mais de uma semana, só ouvindo o retrato deles da periferia paulistana.

Já tendo ouvido tudo mais de uma vez, fui ver Tropa de Elite no cinema. Foi como ver aquilo que passei uma semana ouvindo. O filme é muito mais violento do que eu suporto. É, de longe, o filme mais violento que eu já vi. Filmes de terror, como Jogos Mortais ou O Albergue, não me afetam, porque sei que são ficção.

Mas Tropa de Elite retrata algo muito mais próximo da realidade da periferia dos grandes centros urbanos, como disse o Chico Buarque: a periferia da periferia da periferia.

Um soco na cara

Eu cheguei a ficar literalmente enjoado, não sei se por causa da violência, da câmera chacoalhando, ou do gnocchi com muito queijo que comi no Spoleto. Diferentemente de Cidade de Deus, o filme não é bonito. É feio. Não tem poesia. É um soco na cara da gente. Ao ver a ação do Bope, percebi que será muito mais difícil e levará muito mais tempo para mudar certas coisas no Brasil do que eu jamais imaginaria.

A internet ajudou o filme a ser um sucesso

Como disse Michel Lent aqui no Webinsider, “Levando em consideração que a bilheteria do cinema é parte impulsionada pelas campanhas de marketing, mas principalmente alavancada pelo boca-a-boca, Tropa de Elite já contaria neste momento com milhões de “agentes” de marketing. Quem viu a versão pirata diz que o filme é muito bom; boa parte, inclusive, quer ver novamente no cinema. Se metade dos três milhões de espectadores resolver ir ao cinema de novo e convencer pelo menos mais duas pessoas, o filme já faria perto dos cinco milhões de espectadores”.

“Pirataria” e a luta pela cultura livre

A questão sobre a legalidade de se baixar filmes e música na internet ainda não é absolutamente clara. Não há consenso absoluto se, no Brasil, é ilegal fazer isso. Mas há quem lute para que não seja, para que a informação não possa mais ser controlada como propriedade privada em nenhum lugar e para que a internet não seja controlada por nenhum governo.

Eu me recuso a chamar quem baixa arquivos na internet de pirata. Concordo com John Perry Barlow, que sintetiza de maneira clara a posição da luta pela cultura livre: “Piratas são pessoas malvadas que atacam embarcações no alto mar, matam todos a bordo e roubam tudo o que tiver valor. Não são pessoas que encorajam outros a ouvir as mesmas músicas de que eles gostam. Além disso, não vejo como alguma coisa possa ser roubada se ainda a tenho. Propriedade é algo que pode ser tirado de alguém”.

Se não estará provado, pelo menos haverá mais um caso no qual a distribuição livre da informação mais ajudou a gerar receita do que atrapalhou.

O filme teve um incrível sucesso o primeiro fim de semana. O longa levou aos cinemas 180 mil espectadores no seu primeiro fim de semana. Foram 140 cópias exibidas em 171 salas, o que dá uma média de 1.052 espectadores por sala. 48% maior, por exemplo, que a “A Grande Família”, o filme brasileiro mais visto em 2007.

Já, se comparado a “Carandiru” – o nacional que teve a melhor a abertura desde a retomada –, o Tropa de Elite ficou 38% abaixo. Em relação a “Cidade de Deus” foi 90% melhor. E ainda, comparado a “Dois Filhos de Francisco” - o filme brasileiro que alcançou o maior número de espectadores nos últimos anos – teve um desempenho 46% acima.

(fonte: Banco de dados do Sindicato das Empresas Distribuidoras Cinematográficas do município do Rio de Janeiro. Via Chico Neto no Radinho)

Haverá uma mudança de atitude?

Aos poucos o próprio mercado está percebendo que na internet não adianta, e não vale a pena, tentar controlar a informação e mantê-la como propriedade privada. Jornais como o NY Times recentemente liberaram seu conteúdo, que antes era pago. Lojas de música como a nova da Amazon estão vendendo arquivos para download sem DRM.

Será que vai demorar até a indústria cinematográfica entender como funciona a internet? [Webinsider]

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Sobre o Autor

<strong>Gilberto Jr</strong> (gilbertojr@gmail.com) é sócio da <a href="http://amanaie.com.br" rel="externo">Amanaiê</a> - startup com foco em OpenSocial - e mantém um <a href="http://prati.ca" rel="externo">blog sobre Web 2.0</a>.

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    Publicada em: 10/10/2007 0:28
    Impresso em: 28/11/2009
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