Comportamento - Redes sociais

Quem sabe para onde vão as crianças 2.0 de hoje?

06/07/2007 15:28

Por: Alexandre Canatella

Foi-se o tempo quando nossos filhos queriam crescer para ter carro, ir às festinhas e chegar mais tarde em casa; agora eles querem site e Orkut. E nós estamos completamente perdidos sobre o futuro deles nesse mundo digital.

Tem uma geração chegando aí que seria até imprudente chamar de nova. Simplesmente, já nasce com DNA abastecido de conhecimento. Isto porque a formação de nossas crianças e jovens pôde, com a tecnologia, adicionar à tradicional troca de experiência no aprendizado dois outros componentes: um de complementaridade, que é a troca em rede cada vez maior e sem barreiras; e outro de velocidade, que definitivamente será parte da formação dos adultos do amanhã

Para falar sobre isto vou relatar um caso que tive com meu filho Enzo, de 6 anos. Propus que tirasse a rodinha de apoio de sua bicicleta. Tirei uma rodinha só. Foi aquele sufoco inicial, e na primeira vez em que ele quase caiu, quis desistir. Como o pai tem aquela função motivadora, expliquei: “filho, a vida é feita de fases e agora é a fase de você tirar as rodinhas. Amanhã será a de namorar, encontrar sua aptidão, trabalhar etc.” Ao que me perguntou: “pai, qual será a fase que terei meu site?”

Parece piada, levei um susto. Porém, trabalhando com tecnologia e comunicação, isto pode realmente ser um desejo natural de uma criança que observa e acompanha seu pai. E questionei: “um site?” Minha esposa sugeriu: “Acho que ele quer um Orkut!”.

Bem, eu tenho quase certeza que ele não sabe o que é um Orkut, mas ele convive com primos e primas… vai saber?! Eu emendei, meio desconcertado: “filho, lembra que eu te disse sobre fases? Para participar de um Orkut você tem que ter 18 anos, acho”.

Antes, as crianças queriam ser jovens para ter um carro ou poder voltar mais tarde para casa. Agora estamos forjando com a tecnologia necessidades urgentes, na sua velocidade de análise e sob o comando na ponta dos dedos. Também é curioso o fato de que este poder de evolução do consumo e da transferência de audiência passiva para ativa, na comunicação, traga novos elementos de necessidade para as plataformas tecnológicas que usamos, e como a propaganda vai impactá-lo, e ainda como isso influenciará sua tribo – ou sua rede.

O Brasil passa por um importante momento ao discutir políticas de acesso à tecnologia, quer seja pelo programa “Computador para todos” ou “Laptops Educacionais”, que podem ser um marco na construção de uma geração com mais acesso ao conhecimento e novas oportunidades. Isso possibilitará que o professor estabeleça contato com pais além das reuniões e bilhetinhos, publicando seu blog com postagem diária sobre o andamento da turma e fazendo que a aula ganhe extensão além da escola.

Mas, na educação realista e prática,minhas perguntas são: como adequar softwares educacionais? Qual será a manutenção desses laptops? Quanto o corpo docente estará preparado em escala para a tarefa de transformar em experiência o potencial tecnológico, e não apenas o uso através de método e de fomento das necessidades locais de seus alunos? Vale lembrar que tudo isto em um Brasil que mistura grande desejo com complexa aplicabilidade de seus projetos e sonhos, no qual nem suas necessidades com instalações elétricas ou a própria segurança dos espaços físico foram supridas.

Em nome de termos o maior número possível de brasileiros em condições mínimas de aproveitamento da experiência educacional bi-direcional, participativa, colaborativa e de curadoria do conhecimento, temos a obrigação de pavimentar analiticamente e na prática que a próxima geração possa ter sua potencialidade desenvolvida e cuidada.

Muito além de analisar os estudos e dados estatísticos, conhecer e analisar o comportamento da geração em rede será o maior desafio dos provedores de tecnologia e comunicação - estas crianças e jovens possuem muitas “palavras-chaves” em suas práticas cotidianas e sabem que no jogo da vida eles possuem um dos lados do “poder”.

Neste jogo de necessidades fica difícil explicar para um garoto de 6 anos porque ele “não pode ou não consegue” ter seu site nesta idade. E, sem querer jogar o assunto para baixo do tapete, tenho que contrastar este desafio com o de agora, que é o de tirar a segunda rodinha da bicicleta dele. [Webinsider]

Sobre o Autor

<strong>Alexandre Canatella</strong> é diretor geral dos portais Cyber Cook e Cyber Diet.

Url original: http://webinsider.uol.com.br/index.php/2007/07/06/quem-sabe-para-onde-vao-as-criancas-20-de-hoje/
    Publicada em: 06/07/2007 15:28
    Impresso em: 28/11/2009
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