Blogs são pauta, mas não fazem notícia
28/05/2007 9:07Por:
Opinião: ainda falta muito para o amadurecimento do blog como mídia, porque nem todo mundo entende que a ferramenta pode se incorporar ao debate diário de cidadania e responsabilidade.
A nossa blogosfera ainda não desafiou a elite da mídia nacional pelo domínio da esfera pública. E talvez isso nunca aconteça. Antes de atacar o tema, vale a pena definir sobre o que estamos falando. A ferramenta blog pode ser usada como um arremedo da mídia tradicional para fazer broadcasting, a chamada comunicação de um para muitos.
É o caso do profissional da mídia que apura informação da maneira tradicional e transmite pela web. Ele continua sendo o gargalo, o que escreve, a parte ativa em relação aos muitos leitores que não têm o mesmo poder de alcance.
O outro tipo de blogueiro é o que usa da ferramenta como o neurônio: ele estabelece ligações com milhares de outros e seu diferencial não está nos contatos, mas em como ele reprocessa a informação servindo ao mesmo tempo como distribuidor e comentarista. Ele não é o profissional da mídia, mas o interessado em outro assunto com acesso à mídia.
Existem blogs que se tornaram famosos no Brasil. Alguns deles são de figuras conhecidas da mídia como Ricardo Noblat e Juca Kfouri. Para eles, o blog é uma alternativa aos veículos tradicionais, um canal de contato direto com o público, tanto para publicar textos, como para receber feedback e informações da audiência.
Outro tipo de blog é feito ainda por grupos específicos, pessoas ligadas à tecnologia e comunicação, com idade entre 20 e 40 anos. Estes, sim, funcionam integralmente como um novo veículo por estarem ricamente interconectados e “digerirem” informações.
Para considerar o blog enquanto mídia diferenciada, estou me referindo ao segundo caso (os interconectados) que pressupõe a comunicação de duas vias entre usuários participativos, que lêem e escrevem, e não o ambiente em que poucos escrevem e muitos lêem.
Amadurecimento
No Brasil, os blogs começaram a aparecer no finalzinho da década passada. Se por um lado tivemos a vantagem de receber a tecnologia pronta e conhecer sua aplicação por conta dos exemplos internacionais, por outro temos um público de internautas bem menor, sendo que uma fração maior dos nossos usuários apresentam dificuldades para compreender textos e se expressar por escrito.
Entre os usuários brasileiros capacitados para tirar proveito da ferramenta, apenas uma parte entende que essa nova mídia funciona de maneira diferenciada, que ela permite ao mesmo tempo a formação de comunidades (pela comunicação de duas vias como o telefone) e a interlocução com audiências (pela comunicação de um para muitos como a TV).
Aqueles têm mais opções para aplicar a mídia a suas profissões, hobbies, bandeiras políticas ou causas sociais, são aqueles que descobriram o canal. Mas as aplicações são restritas às demandas e estímulos do ambiente escolar e social.
O amadurecimento da blogosfera brasileira vai acontecer na medida em que esses dois públicos se encontrem e que os estudantes e jovens profissionais assumam mais espaço e responsabilidades na esfera pública e no mercado de trabalho.
No médio prazo, isso pode acontecer de maneira total ou apenas parcial. É possível que essa transição de fase se complete pela incorporação do blog como parte ativa da condução dos debates públicos, mas também é possível que o caldo não dê liga e a influência dos blogs fique limitada a segmentos específicos de usuários.
Por enquanto, a influência do blog na mídia brasileira existe prioritariamente enquanto tema de pauta na medida em que os veículos locais repercutem notícias européias e norte-americanas. [Webinsider]