Comportamento - Software Livre - Relacionamento

Porque Linus Torvald não poderia repetir Bill Gates

26/04/2007 18:41

Por: Carlos Nepomuceno

Os criadores do sistema operacional Linux não seguiram a mesma lógica comercial pré-internet utilizada pela empresa de Bill Gates porque entenderam o modo como idéias e produtos se propagam em rede.

É comum divagar que Linus Torvald, ideólogo e pai do Linux, poderia hoje estar rico se tivesse vendido o “seu” sistema operacional, ao invés de ofertá-lo de graça pela Internet.

A afirmação até que procede, se partirmos da premissa com a qual estamos acostumados a pensar o mundo dos negócios:

Idéia –> Produto –> Empresa –> Preço –> Consumidor

Se analisarmos, entretanto, a história dos processos de inovação de software e serviços na (e para) a web, constataremos uma nova dinâmica.

Desde o hipertexto, Netscape, ICQ, Linux, Apache, Wikipedia, MP3, Emule, Orkut, Skype - para citar alguns produtos que mudaram a rede e, parcialmente, a sociedade - percebemos uma nova lógica:

Idéia –> Produto ou Serviço Grátis –> Rede –> Consumidor

Não conheço nenhum projeto que tenha atingido a escala global que tenha fugido dessa rota.

Dito isso, é interessante analisar como determinadas idéias - vindas de visionários dos cantos mais insólitos do planeta - se multiplicam e ganham a rede em escala mundial.

Os estudos acadêmicos sobre a presença do ser humano em rede - eletrônica ou não - demonstram, contra o senso comum, que a tendência é de que gradualmente, apesar das diversas opções, selecionemos centros de referência prioritários.

O que explica o fato de, apesar do usuário ter na internet a liberdade de acessar milhões de endereços, as visitas se concentram em apenas centenas deles.

Se isso vale para sites, acontece também com as pessoas no ambiente web.

Alguns têm mais capacidade de influência do que outros em alguns temas ou assuntos, como já ocorre, na verdade, na vida cotidiana.

São os anéis, ou hubs, por onde escorre o fluxo da informação.

Assim, se fôssemos aperfeiçoar o estudo dessa nova lógica da criação de produtos, teríamos a seguinte dinâmica na rota de inovação na rede para a rede:

Idéia –> Produto Grátis –> Rede –> Multiplicadores –> Consumidor

O multiplicador formal (revistas e sites especializados, colunistas, etc) e o informal (blogs, comunidades, etc) são os filtros e conectores daquilo que será, ou não, interessante para os demais.

O multiplicador, geralmente, é articulado em comunidades em rede e mantém canais diferenciados com toda a cadeia, explicando, portanto, a velocidade e o alcance da difusão do boca-a-boca.

Podemos, se quisermos, dar um zoom no início desse processo, no exato momento da entrada de um determinado produto ou serviço na rede, teríamos o seguinte processo:

Idéia –> Produto Grátis –> Rede –> (Multiplicador) –> muito curioso e especialista de plantão –> menos especialista e menos curioso–> eu topo novidades, mas sou quase leigo –> eu só topo o que for mastigado e sou muito leigo –> (Consumidor).

Esse processo seria no gráfico da rede algo assim, obviamente não de forma tão esquemática, pois os pontos podem se entrelaçar, mas valeria para efeito de regularidade de constância:

multiplicadores.jpg

Verde: muito curioso e especialista de plantão
Amarelo: menos especialista e menos curioso
Laranja: eu topo novidades, mas sou quase leigo
Azul: eu só topo o que for mastigado e sou muito leigo

Diante disso, produtos em rede para a rede só têm chance de prosperar nessa dinâmica do chamado marketing viral se for aderente às regras e demandas dessa recente net-ecologia.

Foi esse novo cenário e paradigma que obrigou Bill Gates a lançar, na década de 90, o Internet Explorer, primeiro produto grátis na história da Microsoft, para poder competir com o Netscape, seguido depois de vários outros como o Windows Media Player, Outlook, etc.

E tem mudado a maneira de se pensar negócios para produtos intangíveis, aqueles que podem circular na Net.

Portanto, para acabar com a polêmica criada sobre a não riqueza Microsofitiniana de Linus Torvald, diria o seguinte:

Se ao lançar o Linux na rede, ele aplicasse a mesma lógica empresarial pré-internet seria com certeza, apenas mais um maluco anônimo, que teve uma bela idéia fracassada de um sistema operacional interessante, mas inviável, num inverno frio e sem namorada na Finlândia.

E nada mais. [Webinsider]

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Sobre o Autor

<strong>Carlos Nepomuceno</strong> (nepomuceno@pontonet.com.br) é professor, pesquisador e co-autor do livro <strong><a href="http://www.campus.com.br/script/CpsMontaFrame.asp?pStrCodSessao=456D1141-5DBC-4385-907E-9E5E6415DD8E&pIntCodProduto=0&pIntCodParceiro=0" rel="externo">Conhecimento em Rede</a></strong> (Editora Campus), coordenador do <strong><a href="http://www.ico.org.br" rel="externo">ICO</a></strong>, Instituto de Inteligência Coletiva e diretor da <strong><a href="http://www.pontonet.com.br" rel="externo">Pontonet</a></strong>. Mais dele no blog <strong><a href="http://cnepomuceno.wordpress.com/" rel="externo">CNepomuceno</a></strong> e no <strong><a href="http://twitter.com/cnepomuceno" rel="externo">Twitter</a></strong>.

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    Impresso em: 28/11/2009
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