Tecnologia

Em busca do som absoluto

08/04/2007 21:39

Por: Paulo Roberto Elias

Amantes de música deveriam começar a prestar mais atenção nas origens de gravação do áudio em vez da tecnologia ou da mídia utilizada para reproduzir o som.

O som absoluto, aquele que só encontra paralelo na reprodução ao vivo dos instrumentos musicais, é a busca obsessiva daqueles que se dedicam, profissionalmente ou não, à pesquisa do áudio. E tal pesquisa passa por fontes de reprodução (aparelhos usados como “front-end” na cadeia de áudio), pré-amplificadores, amplificadores, processadores e, principalmente, sonofletores. Ao que tudo indica, o tempo passa e a busca nunca termina.

A apreciação do que se chama de som de boa qualidade é subjetiva, e varia de pessoa para pessoa. No entanto, existe um fator, aparentemente inconteste: a qualidade do som que se ouve começa, e muita das vezes termina, na qualidade da gravação.

A eterna busca pelos audiófilos do som absoluto nunca terá fim, porque ele é virtualmente impossível de ser alcançado.

A maioria dos audiófilos e amantes de música estão sendo bombardeados por uma miríade de métodos, codecs, processadores, reprodutores e outros equipamentos, sem que haja nenhuma trégua no que concerne à obtenção do som de alta qualidade. Mas em nenhum momento se leva em consideração o elo mais fraco da cadeia de reprodução: o som gravado.

Os primeiros pesquisadores e engenheiros, que se dedicaram ao aprimoramento da captura e reprodução do som, rapidamente perceberam que se trata de uma tecnologia de enorme complexidade e quase impossível de dominar. Na primeira parte do século 20, engenheiros da Bell presumiam que seriam necessários cerca de 100 microfones e 100 alto-falantes para reproduzir corretamente uma gravação orquestral. E esta noção está aí até hoje, endossada por gente como Tom Holman, conhecido dos cinéfilos como o idealizador do sistema de reprodução THX. Mas, a idéia inicial da Bell foi abandonada por não ter nenhum sentido prático.

Se as pesquisas em torno da capacidade humana de percepção do som não tivessem evoluído, muito do que se seguiu depois não teria chegado a lugar algum. Mas, foi por culpa de Alan Dower Blumlein, engenheiro eletrônico inglês, que os primeiros conceitos práticos de gravação de alta qualidade foram desenvolvidos.

Antes dele, sabia-se que a percepção espacial do som (a base do som estereofônico) poderia ser alcançada, desde que se implementassem fones de ouvido para a audição do som capturado. Isto, entretanto, tornava a audição intra-aural, ou seja, a sensação psicoacústica do espaço elimina o espaço externo ao ouvinte. Blumlein mudou isso, patenteando a captura do som por dois microfones, a 90º um do outro, e a 45º da fonte, e da reprodução por dois alto falantes.

Arranjo_de_microfones,_pelo_método_proposto_por_Blumlein

A colocação desses microfones foi proposta por Blumlein, para ficar na mesma posição do ouvinte, e embora ele próprio não tenha se referido a isso como “som estereofônico” na época da patente (1933), a verdade é que a maioria desses fundamentos se aplicou, e ainda se aplica, àquilo que a gente ouve hoje em dia.

O método de gravação proposto por Blumlein faz parte de uma filosofia de gravação, adotada por selos de audiófilos, chamada genericamente de técnica minimalista. A idéia é que, quantos menos microfones forem usados, menores serão os erros de fase, que produzem falta de acuidade na captura e reprodução do som de um ou mais instrumentos, num determinado ambiente. Entretanto, se isso fosse aplicado de forma draconiana, em qualquer circunstância onde uma gravação de boa qualidade seja o objetivo final do trabalho de gravação, então qualquer método que usasse mais de dois microfones seria automaticamente incorreto, e potencialmente indutor de erros de reprodução.

Na prática, porém, se mostra conclusivamente que isso não é verdade, e por isso métodos de gravação, que envolvem três microfones em arco, ou até “arrays” de um monte de microfones, podem, e de fato são, usados com total sucesso.

O cerne da questão é, novamente, muito mais complexo do que se imagina. Por isso, um amigo meu, que é audiófilo com grande experiência, me diz, com razão, que uma gravação bem feita, e que soa bem em qualquer equipamento com um nível razoável de qualidade, é o resultado de uma série de circunstâncias felizes, que incluem os tipos de microfone usados, o equipamento de gravação, o local e a acústica do mesmo, onde a gravação é feita, entre outros fatores.

Em outras palavras, é muito difícil antecipar resultados, ou presumir que uma gravação tecnicamente bem feita é aquela que é feita por um estúdio de ilibada reputação técnica, porque nem sempre os objetivos de captura acabam resultando em alguma coisa sonicamente convincente.

De qualquer maneira, manda o bom senso que, antes de se faça um julgamento drástico da performance de um sistema ou equipamento, é necessário lançar mão de um sinal de referência, e, no caso, a maneira mais fácil de fazer isso é usar uma gravação de grande precisão de captura.

Por outro lado, não se deve ignorar a fragilidade relativa de cada um dos componentes de uma cadeia de reprodução, a começar pelo chamado “front-end”, que é o reprodutor usado para tocar a mídia, e indo parar no tipo de alto falante ou caixas usadas.

Resguardadas as diferenças mais radicais entre os vários sistemas de reprodução, a escolha da fonte (disco, fita etc.) contendo a gravação é de suma importância e por isso ela é constantemente escrutinizada pelas revistas e publicações especializadas.

A maioria dos estúdios que exploram gravações comerciais não dá a menor bola para qualidade sonora. É comum, e chega a ser irritante, o uso abusivo de compressores e limitadores, cujo único objetivo é fazer a música tocar mais alto. A colocação imprecisa de microfones, a mixagem desleixada, e os níveis altos de distorção de captura, no fim das contas, acabam não fazendo nenhuma diferença. Usar isso como desculpa para condenar CD, Dolby Digital, MP3, ou seja lá o que for, é, na minha opinião, imprudente.

Remasterizações feitas com critério devem ter sempre a presença de alguém que tenha gravado, ou assistido na gravação original, como foi o caso da série Living Presence, com a presença da viúva do engenheiro Bob Fine. Entre a chamada “fita master” e um CD, a perda pode ser muito grande se o sinal for manipulado indevidamente.

Recentemente, eu mesmo tive a chance de comprovar isso, uma vez suprido com a cópia “raw” da master, em CD, e depois comparando a mesma, com a versão final, colocada à venda. No caso do ambiente digital, esta perda nunca é devida à passagem de uma geração para outra, como no analógico. Por tudo isso, exposto acima, deixo uma sugestão a quem ainda quer ouvir um bom som dentro de casa: um bom som começa com a gravação certa! [Webinsider]

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Sobre o Autor

<strong>Paulo Roberto Elias</strong> é professor aposentado da Faculdade de Medicina da UFRJ, hobbyista em áudio e vídeo, Mestre em Ciências (M.Sc.) e Ph.D. em Bioquímica. Manteve, até recentemente, o site Miragem, cujos artigos podem ser <strong><a href="http://webinsider.uol.com.br/index.php/artigos/tags/arquivo-miragem/">lidos aqui</a></strong>.

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    Publicada em: 08/04/2007 21:39
    Impresso em: 28/11/2009
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