Comportamento - Redes sociais

As redes sociais digitais e o Iluminismo

09/04/2007 17:43

Por: Leonardo Oliveira

Foram 250 anos até a tecnologia digital iniciar na prática o mais básico dos conceitos iluministas: divulgar informações e construir conhecimento de maneira igualitária e global.

São dois temas com os quais venho confrontando nos últimos dias e se entrelaçaram em minhas divagações, levando-me agora a uní-los como objeto de um artigo. Se num primeiro olhar periférico, aparentam ser temas cuja generalidade impede associações mais estruturadas, é pelo caminho da liberdade de pensamento e construção do conhecimento que vou me lançar.

Forma e conceito das redes sociais

As redes sociais me interessam particularmente em duas frentes: no trabalho, como gestor de uma equipe de desenvolvedores de produtos digitais e também como acadêmico e pesquisador da ciência da comunicação.

A utilização das tecnologias de rede, que não é nenhuma novidade, aliada à fragmentação da formatação de conteúdos, uma “novidade” batizada de Web 2.0, possibilita que as interações em redes sociais se tornem efetivas e gerem resultados mensuráveis.

As ferramentas de busca e organização de conteúdo que hoje nos são tão comuns, como Google, Youtube, Flicker e del.icio.us, trouxeram em seu âmago a semente de uma evolução cultural. Já esperávamos que a tecnologia fosse mudar nossa maneira de produzir conteúdo, e não só acessá-lo, porém agora as evidências fizeram-se fatos.

As mesmas soluções que, a partir de suas premissas, são vistas como essenciais para o nosso cotidiano na web, também o são para o ambiente empresarial, no tratamento e recuperação de seus dados e informações, bens tão preciosos e tão mal cuidados.

Um esteio às crises

Já quanto ao Iluminismo, sua presença neste artigo é tanto efeméride quanto técnica, já que neste ano se comemoram os 50 anos da formação da Comunidade Econômica Européia, um fruto legítimo dos anseios iluministas.

Desde sua concepção como rótulo de um movimento cultural, político e social que se iniciou numa Europa pós renascentista e alcançou de certa maneira todo o mundo ocidental, o Iluminismo, através de seus pressupostos, resiste a todo tipo de guerras, ditaduras e desrespeito aos direitos humanos.

Também a internet sofre com constantes tentativas de cerceamento às liberdades individuais, ao acesso da informação e à legitimidade de diferentes manifestações culturais. São problemas de toda ordem que nos ameaçam diariamente, porém são sempre com argumentos iluministas que se defendem os direitos à liberdade e o acesso à tecnologia. Assim vencemos as censuras, uma a uma.

As luzes estão mais fortes

Desde sua concepção o Iluminismo foi uma das pilastras que legitimaram quase todos os movimentos libertários e humanitários: o fim da inquisição, as revoluções francesa, inglesa e americana, bem como as manifestações culturais como a semana de 22 no Brasil e as passeatas, shows e comícios que tomaram o ocidente durante a década de 60 do século passado.

Mesmo assim, todos estes acontecimentos caracterizaram-se como movimentos de elite; movimentos que partiam de um centro irradiador, onde poucas cabeças decidiam o destino e o comportamento de muitos. Foram, desta forma, necessários quase 250 anos até que a tecnologia digital propiciasse que o mais básico dos conceitos iluministas se tornasse realidade: a divulgação de informações e a construção do conhecimento de maneira igualitária e global, mesmo que através da ramificação, da descentralização dos movimentos culturais e políticos.

Neste ponto, a ligação é tão clara que temos até um case de sucesso no qual a maior bandeira do iluminismo tornou-se plenamente realizada graças às tecnologias digitais, só que em escala e importância estrondosamente maiores do que imaginariam D’Alembert e Diderot quando organizaram sua primeira Encyclopédie: eu falo, é claro, da Wikipedia, enciclopédia na qual qualquer pessoa alfabetizada do planeta pode incluir um verbete e contar com a cooperação, seja para corrigir ou para expandir este verbete, de todos os usuários da rede.

Da teoria à realidade

É, eu sei que nem todos tem acesso à internet. Dos que tem, ainda uma pequena fatia se interessa pela questão das redes de conhecimento. E mesmo destes interessados, poucos sabem como utilizar as ferramentas digitais para construir conhecimento. A desigualdade de oportunidades e o enorme número de pobres e miseráveis do planeta não nos permitem devaneios.

Mas eu sou um otimista. Aliando este otimismo à constante pesquisa acadêmica e à produção empresarial, acredito que a convergência digital, a reestruturação do ensino fundamental e a conscientização das autoridades quanto ao ganho econômico que a tecnologia propicia, permita que grande parte da população mundial tenha acesso e participe de redes sociais digitais.

Com os anos, se cada participante tiver como meta trazer dois ou três novos adeptos, de preferência oriundos das camadas não-digitalizadas, dá pra imaginar o impacto social, cultural e econômico de um mundo interligado por cabos de fibra ótica e ondas eletromagnéticas. [Webinsider]

Referências

Sobre o Autor

<strong>Leonardo Oliveira</strong> (leonardo.oliveira@ogilvy.com) é gerente de operações da <strong><a href="http://www.ogilvy.com.br" rel="externo">OgilvyOne Brasil</strong></a> e mestre em Jornalismo Digital pela ECA/USP.

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    Publicada em: 09/04/2007 17:43
    Impresso em: 28/11/2009
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