Desenvolvimento - Design - Planejamento

Projetos web, metodologias e negócios sustentáveis

18/03/2007 21:58

Por: Gilber Machado

Um estudo sobre alguns cuidados que os desenvolvedores web devem ter para manter a qualidade no projeto, clientes satisfeitos e rentabilidade.

Alguns artigos já publicados no Webinsider se propuseram a discutir a realidade complexa dos projetos web. Conceitos, estratégias, experiências e dicas foram sugeridos para ajudar na definição de práticas, métodos e metodologias para o desenvolvimento de projetos web [1].

A comunidade acadêmica também entende que as metodologias de engenharia de software precisam ser adequadas e especializadas para atender aos projetos de sistemas de informação voltados para web [2].

Resolvi escrever uma trilogia com o objetivo de debater a natureza complexa dos projetos web, quais as suas origens, como gerenciar e quais metodologias aplicar nesses projetos, e finalmente, quais modelos de negócios são viáveis para atuar no mercado dos projetos web.

1 - Wicked Problems e a natureza complexa dos projetos web

O ponto de partida é fundamentar a natureza complexa dos projetos web e compreender suas origens. Para isso recorro à teoria de Design e Wicked Problems.

1.1 – A árdua atividade de projetar

Design é uma palavra inglesa que pode ser entendida como o ato de projetar. Uma definição clássica para design é: “processo de criar artefatos tangíveis para atender necessidades intangíveis do ser humano, através de um processo de decomposição e resíntese do problema, a partir de negociação e deliberação, o que fundamentalmente inclui incertezas e conflitos” [3].

Os fatores relacionados à complexidade do design estão mais associados ao processo do design do que propriamente ao artefato [4]:

O processo de design consiste em ciclos de construção e reflexão que ocorrem em diferentes níveis, evoluindo através de discussões, desenvolvimento, reuniões de verificação, testes em protótipos, revisões, verificações formais, etc. Isso exige uma intensa atividade colaborativa que apresenta problemas de comunicação agravados pela existência de colaboradores que possuem diferentes conhecimentos e especialidades, cada um falando diferentes linguagens.

1.2 – Design como Wicked Problems

O design pode ser descrito como um “wicked problem”, termo sugerido por Rittel [5] para descrever uma classe de problema com as seguintes características:

Estudos sobre a atividade de design [6] constataram que o que conduz o processo de design é um conjunto de fatores imprecisos, muito influenciados pelo pensamento criativo dos envolvidos no processo. O processo não linear não é caracterizado por falta de conhecimento ou despreparo, mas é baseado num processo natural de aprendizagem.

Isso contraria a tendência natural de imaginar que quanto mais complexo um problema, maior necessidade em seguir um fluxo linear. O gráfico na figura 1 apresenta o processo cascata.

Figura-1.jpg
Figura 1: processo cascata [6]

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A figura 2 apresenta o processo não linear de resolução de problema utilizado pelo projetista e o compara com o processo cascata. Os projetistas ao tentarem entender o problema, já iniciam simulações em busca de eventuais soluções. A cada tentativa, novas informações vão sendo adquiridas e um refinamento dos requisitos é feito de forma gradativa, o que ficaria limitado num processo cascata onde somente após a análise de dados é possível iniciar a formulação de uma possível solução.

Figura-2.jpg
Figura 2: processo real de resolução de problema x processo cascata - [6].

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1.3 – Não torne seu projeto um Wicked Project

Segundo Rittle [5], o contrário de um Wicked Problem é um “Tame Problem”, uma classe de problema que pode ser resolvido a partir da aplicação de técnicas bem definidas. Um processo linear pode ser aplicado para resolver o problema durante um período definido de tempo, e a resolução do problema pode ser claramente identificada a partir de um resultado final previsível.

A regra a ser aplicada é: não torne seu projeto web um Wicked Project, complexo e sujeito a problemas devido às características de um wicked problem. Trabalhe sempre tentando manter seus projetos com características de um “Tame Problem”. Seguem alguns pontos a considerar para tornar isso possível:

Identificação: identifique o mais breve se o seu projeto possui falta de consenso, falta de entendimento sobre o problema, interesses incomuns, ou simplesmente não pode ser resolvido a partir da aplicação de metodologias e técnicas. Nesse cenário, não existe uma resposta correta ou ideal, a busca é pela solução adequada ou possível.

Taming: na minha visão essa é a vantagem competitiva de uma empresa de projetos web: possuir equipe, processos e metodologias capazes de lidar com essa natureza complexa em larga escala. Tecnologia para adaptar o “wicked” em “tame” é fundamental. Esse tópico é tão importante que será tratado num próximo artigo Metodologias para Projetos Web.

Adaptação: Wicked Projects não podem ser tratados como “Tame Problems”. Desta forma, alguns projetos não poderão ser resolvidos seguindo a cartilha da empresa sobre qualidade, gerência de projetos e metodologias de desenvolvimento. Será preciso adaptar a forma de trabalhar para tratar essa classe de projetos, mas sem esquecer a rentabilidade das empresas. Esse tópico será abordado em detalhes no artigo Projetos Web e Negócios Sustentáveis.

1.4 – Considerações finais

Compreender os projetos web como um processo de design e um wicked problem é o ponto inicial para nossa discussão sobre como manter qualidade, clientes satisfeitos e rentabilidade. Esse é um conhecimento de uso prático que serve para nortear o pensamento de toda organização e serve como filosofia para o desenvolvimento de metodologias. É um conhecimento que também pode ser ensinado aos clientes, afinal de contas, eles também fazem parte da engrenagem social que origina e mantém toda essa complexidade. [Webinsider]

1.5 – Referências:

[1] Lista de Artigos publicados no Webinsider:

[2] PRESSMAN, R. S. Engenharia de Software. 6a edição, Parte 3 – Aplicação de Engenharia da Web. Editora McGraw-Hill, 2006

[3] MORAN, T. P. AND CARROLL, J. M., Overview of Design Rationale. In Moran, T. P., and Carroll, J. M. (Eds.) (eds.) Design rationale: concepts, techniques, and use. Lawrence Earlbaum Associates, Mahwah, NJ – 1996

[4] BROWN, D.C. & BIRMINGHAM, W.D., Guest Editor’s Introduction: Understanding the Nature of Design, IEEE Expert,12(2), pp. 14-17 – 1997.

[5] RITTEL, H. AND WEBBER, M. “Dilemmas in a General Theory of Planning,” Policy Sciences 4, Elsevier Scientific Publishing, Amsterdam, pp. 155-159, 1973.

[6] CONKLIN, J. Wicked Problems and Social Complexity (Revised April 2, 2003), In http://cognexus.org/wpf/wickedproblems.pdf, Setembro de 2004. Chapter 1 of the forthcoming Dialogue Mapping: Defragmenting Projects through Shared Understanding.

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Sobre o Autor

<strong>Gilber Machado</strong> (gilber@e-brand.com.br) é diretor executivo da <strong><a href="http://www.e-brand.com.br" rel="externo">e-brand</a></strong> e consultor de inovação da <strong><a href="http://www.inbate.com.br/" rel="externo">InBate</a></strong>.

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    Publicada em: 18/03/2007 21:58
    Impresso em: 28/11/2009
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