A TV não será mais a mesma
18/02/2007 11:44Por:
A nova TV será punk por definição, sem estúdio, sem maquiagem, sem fórmulas.
Zapeando pelos canais a cabo na madrugada, vejo freqüentemente um informercial de uma câmera digital chamada Cybershot ou algo assim, que cabe na palma da mão. No estilo exagerado dos produtos Polyshop, o fabricante diz que aquela câmera minúscula tem resolução de 8 megapixels e é capaz de gravar até duas horas de vídeo em um único cartão de memória. Depois, é possível ver as imagens na TV ou no computador. Mas espere, não é só isso! O kit vem ainda com uma pilha de softwares para editar imagens, inserir alguns efeitos especiais, etc.
O interessante é ver que o alvo do comercial são pessoas comuns, e não profissionais do ramo. Uma câmera digital “popular”, na casa dos R$ 500 ou R$ 600, com recursos que há quatro ou cinco anos só se encontrariam em aparelhos dez vezes mais caros. A câmera é rudimentar por design, não por limitação tecnológica — quer dizer, é feita para qualquer um usar, inclusive crianças. Assim temos hoje uma geração de crianças com um equipamento nas mãos que seria considerado de altíssima qualidade técnica há poucos anos. (Na ilustração, o punk Bob Cuspe, por Angeli)
Isso me fez lembrar que em 2002 entrevistei para este Webinsider o produtor de televisão canadense Moses Znaimer (A TV pós-moderna). Em 1972, com um orçamento de US$ 970.000, Znaimer e sua jovem equipe (ele era o mais velho, com 29 anos) criaram um canal de TV local em Toronto, a CityTV. Sem muito dinheiro, a solução foi usar a cabeça. Abolir hierarquias, dogmas, gravatas, métodos, estúdios, o sofá da Hebe, abolir a própria Hebe. A equipe de um, de dois. As portas abertas. A mudança foi heterodoxa e causou incômodo no petrificado “establishment” da TV canadense. Znaimer, que havia trabalhado na rede estatal Canadian Broadcasting Corporation, disse que aprendeu na CBC como NÃO fazer televisão.
A pergunta de Znaimer era: “Como é possível que as TVs francesa, alemã e inglesa se pareçam tanto com a russa, a japonesa e a tailandesa, que por sua vez se parecem a a TV dos Estados Unidos? Existem mais de 5 mil canais de TV no mundo e todos são virtualmente idênticos, salvo as exceções de praxe. Os programas são criados em salas de reunião fechadas e executados em locais artificiais chamados estúdios.”
A equipe de Znaimer ocupou um prédio antigo de cinco andares no centro de Toronto, no coração comercial e financeiro da cidade. O interior do edifício foi totalmente reformado para dar lugar a um conceito de “TV sem estúdio”. O prédio foi equipado com 35 “hidrantes”, estruturas que saiam do piso e que continham tomadas de áudio, vídeo, sincronização, intercom e iluminação, conectados por mais de 250 quilômetros de cabos sob o piso. Qualquer canto do edifício podia entrar no ar em questão de minutos. Qualquer coisa poderia ocorrer em qualquer ponto do prédio, e se tornar parte da transmissão ao vivo.
Várias câmeras automáticas estrategicamente posicionadas formavam o “Olho de Toronto”, registrando imagens do movimento urbano, como acidentes de trânsito, assaltos, o efeito da chuva ou da neve –– contemplando a cidade. Nos carros de reportagem da emissora foram estampadas frases como “A cidade é nossa redação!” e “Em Todos os Lugares!”. Outra inovação foi o “Speaker’s Corner”: o cidadão entrava numa cabine, colocava uma ficha e uma câmera automática gravava sua opinião sobre qualquer assunto, por um ou dois minutos. Se o material gravado levantasse questões importantes para a cidade, o tema seria usado em uma pauta para o telejornalismo, ou podia ser usado como comentário para uma matéria já produzida.
Com essa reinvenção do meio TV, Znaimer e sua equipe reescreveram parte do manual de produção da mídia. O foco ultra-local na programação, a participação do espectador/cidadão, a democratização do conteúdo abrir os bastidores de um programa de TV para as câmeras são idéias hoje cristalizadas. Fazem parte do cânone da produção televisual, mesmo quando não são seguidas.
Isso, lembrem-se, foi no começo dos anos 70. Em 1981, o conglomerado de mídia canadense CHUM comprou a CityTV e Znaimer se tornou vice-presidente do grupo, além de produtor executivo da CityTV. Nos quinze anos seguintes, Znaimer comandou uma grande expansão do império CHUM-CityTV, lançando vários canais especializados. Atualmente, a CHUM-City tem 12 canais locais e 21 canais especializados, além de 33 emissoras de rádio e uma gravadora. O conteúdo criado pela rede é exportado para 130 países, inclusive o Brasil. Em 2003, Znaimer se afastou da direção do grupo, mantendo-se apenas como produtor de alguns programas. Atualmente, ele dirige a Cannasat Therapeutics, uma companhia farmacêutica que está desenvolvendo novos medicamentos a partir da planta da maconha.
Ocorreu que, com o passar dos anos, as idéias de uma TV revolucionária foram consideravelmente diluídas diantes dos imperativos comerciais de uma rede desse porte. Atualmente, a grade de programação da CityTV é populada pelas mesmas fórmulas, séries e reality shows que podem ser vistos nas TVs da França, Alemanha, Japão, Estados Unidos e Brasil. Concursos para escolher cantores populares, chefs de cozinha ou top models, celebridades que dançam ou patinam no gelo, e muitas séries produzidas nos EUA. Todas concebidas em salas de reunião fechadas e executadas naqueles ambientes artificiais chamados estúdios.
De fato, vivemos o mesmo tipo de inflexão que ocorria na TV no começo da década de 70. Por motivos diferentes, e em contextos diferentes. Naquele tempo, os formatos eram poucos porque a TV ainda estava nos verdes anos. Os equipamentos eram muito caros e a tecnologia era rudimentar. O videotape ainda era uma novidade recente. A TV ainda retinha características herdadas do rádio e do teatro de variedades. E o modelo de “television business” dos Estados Unidos era o norte para o qual todas as TVs do mundo apontavam. Afinal, a TV rapidamente destronou o rádio como mídia publicitária mais lucrativa. Durante décadas, as três grandes redes de TV reinaram absolutas, oferecendo um cardápio pouco variado de atrações.
Hoje, as restrições tecnológicas e a herança de mídias anteriores não existem mais. Um programa como o ‘Big Brother’ pode se dar ao luxo de usar dezenas, talvez uma centena de câmeras de altíssima qualidade. A captação, edição e transmissão de imagens são digitalizadas. Há hoje recursos, tecnologias e talentos para se produzir praticamente tudo que sair da cabeça de roteiristas e autores.
Mas se a tecnologia evoluiu para que fizesse mais do mesmo com melhor qualidade, o efeito colateral foi que todos podem entrar nessa festa. Os preços despencaram dramaticamente, de equipamentos a software. Agora, a família de classe média, em vez de assistir televisão, pode produzir televisão.
Em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial deste ano, Bill Gates disse que “daqui a cinco anos, todos riremos do que temos hoje na TV”, falando sobre como a fusão da TV com internet vai revolucionar totalmente a noção de televisão. Palmas para o Sr. Gates por afirmar o óbvio, mesmo com anos de atraso. Pena que o entusiasmo de Gates se deve à noção de que essa revolucionária fusão TV-PC-internet vai rodar softwares da Microsoft.
O bilionário já se esqueceu a verdadeira revolução que ele mesmo iniciou em uma garagem nos anos 70, quando era um adolescente de jeans rasgados. Agora, a tecnologia pode fazer surgir um (ou uma) novo adolescente criativo, que seja uma mistura de Bill Gates como Moses Znaimer, multiplicando garagens eletrônicas pelo planeta afora. A nova TV será punk por definição, sem estúdio, sem maquiagem, sem fórmulas. Para o “establishment”, esses milhões de vozes gritarão em uníssono: “NO FUTURE”. [Webinsider]
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