Brasil: criatividade x (+) empreendedorismo
30/11/2006 20:12Por:
Se nós brasileiros somos tão criativos quanto achamos (como nossos publicitários são), por que temos tão poucos empreendimentos internacionais com diferenciais resultantes da inventividade brasileira?
Outro dia (na verdade, madrugada) estava conversando pelo Skype com um conhecido que trabalha em comunicação e publicidade na China. No início, contou-me a sobre a curiosidade que tem pelas coisas típicas do Brasil, obviamente, futebol, samba, praia e Gisele Bunchen. Depois, para meu orgulho (apesar de não trabalhar na área), comentou sobre a admiração que tem pela criatividade brasileira, refletida principalmente na propaganda.
Cortando para um outro momento, eu discutia com um empresário chinês sobre os vultuosos investimentos que empresas de internet e tecnologia daquele país estão recebendo, quando ele reclamou que a maioria desses empreendimentos apresentam tremendos avanços tecnológicos, porém, pouca criatividade em termos de negócios e marketing.
Esses são dois momentos que reforçam algo que continuamente martela minha cabeça. Se nós brasileiros somos tão criativos quanto achamos (e os nossos publicitários estão aí para provar), por que temos tão poucos empreendimentos internacionais com diferenciais resultantes da inventividade brasileira?
Além das dificuldades já conhecidas, como economia em desenvolvimento, mercado que permaneceu fechado por muito tempo (acabamos desacostumados a ir ao mercado externo), limitação de crédito, juros, impostos, governo, etc etc etc, é nítida a impressão que não canalizamos totalmente nossa criatividade para a prática de negócios.
Quem quer explorar a capacidade inventiva que aflora na infância acaba usualmente indo para áreas como comunicação e artes. Não que isso seja ruim, pelo contrário, vide o primeiro exemplo acima. O ponto é que poderíamos explorar melhor esse potencial na forma de inovação empreendedora.
Uma área acessível e com enormes possibilidades são de produtos/serviços online (não vou usar o termo web 2.0, mas, é a esses que me refiro). Repercutiu bastante nos blogs de empreendedorismo e capital de risco a declaração de Joe Kraus, fundador do portal Excite, que está cada vez mais barato criar empresas de internet (especialmente no Vale do Silício). O Excite custou US$ 3 milhões na década de 1990 e sua mais última empreitada Jotspot (vendida este mês ao Google) custou US$ 100 mil. Uma boa idéia, mercado, algum capital e muito trabalho para colocar no ar.
Mas qual é a nossa realidade? Temos diversos serviços online - alguns bastante interessantes - mas muitos são basicamente clones de sites estrangeiros (pelo menos três gêmeos do digg.com). Não seria problema se tivessem outros componentes que completassem a oferta, como um modelo de negócios diferente, uma parceria forte, um nicho específico, mas não é o que acontece.
Claro que é cada vez mais difícil ter uma idéia totalmente original. Se ninguém ainda a pôs em prática, é porque talvez seja ruim. Porém, na vida e nos negócios, execução é tudo. Dois produtos complementamente diferentes podem ter se originado a partir da mesmíssima idéia ou necessidade.
Quem desenvolveu os clones brasileiros desses serviços online tem enormes méritos por ter passado da idéia à ação. Porém, isso não é o que pode ser chamado de empreendedorismo. Seus criadores são melhor qualificados como empresários, já que não adicionaram fizeram grandes mudanças ou valor agregado diferenciado. São principalmente executores.
Agora, por que não juntar essas duas pontas (criatividade + execução) em um mesmo empreendimento e criar verdadeiras inovações digitais Made in Brasil? O resultado poderia muito bem ser um serviços online brasileiro, em mandarim, para uma base de mais de 150 milhões de internautas chineses (mesma faixa que os EUA).
Basta perguntar o que teria sido das idéias se o chinês que inventou o papel não tivesse alguém que o produzisse. [Webinsider]
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Obs: por relações familiares, já apresento defesa aos que chamarem os chineses de mão-de-obra barata e pirata. Eles ainda estão esperando alguém pagar pelos royalties do papel, da pólvora, do macarrão etc etc etc.
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