Metodologia e desenvolvimento no 8P da Globo.com
23/10/2006 15:10Por:
Você vai desenvolver um site de mídia social baseado em fotos e sente que a linha de montagem clássica de desenvolvimento de software não vai dar conta. Era preciso algo menos industrial.
Em 1908, Henry Ford revolucionou a maneira de construir coisas com seu Modelo T. A linha de montagem reorganizou a produção para que mais carros fossem feitos simultaneamente, distribuindo as várias etapas da fabricação de um automóvel ao longo de uma esteira rolante. Os profissionais deveriam ser especialistas naquele pequeno ofício de apertar um parafuso dentro do processo inteiro.
Em 2006 me peguei usando um processo muito parecido com o de Ford para construir um website. O analista de produto fez um briefing, o arquiteto da informação estruturou os mapas de arquitetura, o designer de interface projetou os wireframes e depois os layouts, o pessoal do desenvolvimento client implementou um html, e os desenvolvedores inseriram a inteligência do sistema que fora prevista pela descrição funcional. Uma linha de montagem clássica.
Não bastasse o simples fato de usarmos um processo de cem anos atrás, ainda encontramos alguns problemas típicos dos tempos atuais: os profissionais envolvidos com o desenvolvimento de um site trazem os mais variados backgrounds e portanto falam línguas diferentes; a indústria da internet evolui e muda de direção em alta velocidade, o que faz com que o retrabalho seja uma constante. E, por fim, trabalhamos com algo menos tangível e com mais especificidades que um carro. Um software de online banking é totalmente diferente do site de um fotógrafo, por exemplo.
A rigidez do processo tolia a inovação. Os caras de criação entregavam um pacote fechado de idéias para os desenvolvedores. Havia pouca colaboração entre as áreas e nem todos tinham o mesmo sentido de paternidade do projeto. Tudo isso desaguava numa dinâmica patológica ao produto final, onde as funcionalidades eram concebidas muitas vezes prematuramente e aos desenvolvedores só restava tentar proteger os prazos e diminuir o escopo.
Processo colaborativo
Pesquisamos algumas metodologias menos rígidas e esbarramos no Extreme Programming (XP), um processo de desenvolvimento de software que prioriza a adaptabilidade em detrimento da previsibilidade. Em linhas gerais, o XP entende que mudanças são uma característica da indústria, não uma falha de projeto. Além da absorção das mudanças, outros conceitos importantes aprendidos foram: o mínimo de documentação e o máximo de comunicação entre os atores do processo; utilização das idéias mais simples, que aumentam em complexidade em releases evolutivos e trabalhar com feedbacks constantes do usuário e da equipe via protótipos, testes de usabilidade e iterações entre os participantes do projeto.
Testamos a nova metodologia (inspirada em XP, mas sem sua aplicação na íntegra) no novo projeto do núcleo de aplicativos da Globo.com, um site de mídia social baseado em fotos, que se chamaria 8P.
Sabíamos que o processo mais rígido, ao qual já estávamos habituados, nos daria maiores garantias em termos de prazo e infalibilidade do sistema, mas a diretoria estava disposta a arcar com os riscos em nome do aprendizado que favoreceria a inovação.
As funcionalidades seriam destrinchadas na sua menor unidade possível, e discutidas entre todos os envolvidos desde o primeiro momento aposentando os grandes pacotes de entregas, onde um recurso passava a bola para outro e lavava as mãos.
Documentação
A documentação seria feita quase integralmente numa ferramenta de wiki, onde arquiteto, analista de requisitos, desenvolvedor e designer construiam coletivamente cada funcionalidade do produto. A idéia podia vir de qualquer um dos envolvidos e a colaboração era tanta que, em nome dos prazos, muitas vezes tínhamos que trazer de volta um pouco do sentido de propriedade documental em cada uma das etapas. Era preciso evitar que alguém confundisse colaboração com democracia. Se cada decisão fosse discutida e votada estaríamos em loop até agora.
O caráter evolutivo do processo nos encorajou a tentar um novo formato de documentação. O arquiteto funcional passou a escrever uma espécie de pré-caso-de-uso, que seria complementado pelo arquiteto de sistemas. Antes, o primeiro escrevia uma especificação funcional que era re-escrita pelo segundo para chegar ao formato caso-de-uso. Isso tomava tempo e gerava documentação excessiva.
Pessoal integrado
A atitude dos recursos do projeto também mudou. O fato de todos trabalharem com proximidade física quebrou o gelo entre as equipes, facilitou a comunicação e eliminou o efeito “eles e nós”. Os “criativos” não tinham mais a pretensão de especificar o mundo em duas semanas e os desenvolvedores não se sentiam mais preteridos no processo.
A interface de excluir foto, por exemplo, foi projetada e prototipada algumas vezes antes de chegarmos a uma solução final, proposta pelo programador. O designer Thadeu Morgado, por sua vez, acampou algumas vezes na baia do desenvolvedor do mecanismo de personalização de página, flexibilizando sua idéia pelo que era mais factível. Também não era raro pedir feedback de funcionários da Globo.com que não tinham nada a ver com o projeto. Promovíamos testes de usabilidade relâmpago toda vez que tínhamos dúvida sobre o funcionamento de algum mecanismo.
As novidades do processo acabaram repercutindo no produto final, que conta com um blog onde a equipe de desenvolvimento adianta melhorias, conta detalhes e recebe feedback do usuário do 8P. Conseguimos mobilizar a comunidade para que ela contribua ativamente com o processo, reportando bugs e sugerindo melhorias. Outro aspecto facilmente notado é que o design do produto final é focado na maneira como o usuário se relaciona com o sistema, não num branding de afrescos visuais. A personalidade do produto vem dos mecanismos de interface.
No balanço final ficamos com um processo que precisa de muitos ajustes, mas indica um caminho na metodologia de como criar um software. Assim como o produto projetado, o método de desenvolvimento também deve ser vivo, com aperfeiçoamentos constantes. [Webinsider]
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Alguns links para você conhecer o 8P:
A homedo produto
Blog da equipe do projeto
O espaço de Gluz no 8P
Grupo Que filme é esse?
Grupo Obina Facts
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