Software Livre

O vapor nosso de cada dia

03/07/2006 21:24

Por: Ricardo Bánffy

WinFS não existe, cenouras existem.

Nos últimos dias, dois anúncios me chamaram a atenção. Um deles não me surpreendeu. O outro não devia ter me surpreendido.

O que não me surpreendeu foi o anúncio da morte do WinFS. Segundo a Microsoft, WinFS é uma forma nova e revolucionária de guardar dados nos discos de computador que traria uma grande facilidade em encontrar e relacionar informações – coisa importante para qualquer empresa que tenha muitos dados.

Não é a primeira vez que ele morre.

Vapor

Acho que agora é uma boa hora para explicar o significado de “vaporware”.

De acordo com a Wikipedia, “Vaporware é um produto que é anunciado pelo seu desenvolvedor bem antes do seu lançamento programado, mas que nunca chega a ser lançado”. Também vale para aqueles produtos que são anunciados para uma data, mas que são lançados meses (ou anos) depois.

Vaporware pode ser usado como arma.

Imaginemos que exista um produto A e que alguns grandes usuários de A pensem em trocá-lo por B, uma alternativa a A, mas de outro fornecedor. Um belo dia o fornecedor de A mostra um produto A2, que parece melhor que B, mas, ele diz, só vai estar pronto em uns seis meses. Muitos vão optar por adiar uma migração para B. Depois disso, pouco importa se o lançamento for adiado – o objetivo foi atingido: evitou-se que A perdesse mercado para B, sem atrapalhar muito as próprias vendas (ele pode até aumentar as vendas – basta oferecer upgrade futuro para quem comprar agora).

A cenoura

O WinFS tem sido prometido para o “próximo Windows” desde 1991. Naquele tempo, o nome era NGFS e era parte do Cairo (o nome do que veio a ser o Windows NT 4). Ele e seus pares são ressuscitados sempre que o Windows enfrenta alguma ameaça.

Em 91 eram o OS/2 e os vários Unixes proprietários. Hoje em dia são o Linux e o MacOS. Em 91, não estava muito claro se Windows NT, OS/2 ou máquinas RISC rodando Unix dominariam o mercado. Hoje em dia, Mac e Linux fazem truques prometidos para o Vista (Xgl/Compiz, Spotlight, por exemplo) e ameaçam roubar mercado, tanto do XP como do 2003 Server. Por isso é importante mostrar betas do Vista e prometer coisas como o WinFS.

Assim, a Microsoft pode acenar com algo que ninguém tem (nem eles – eles só prometem ter, um dia) e, com isso, parar eventuais migrações para competidores que têm tecnologia melhor que o Windows atual, mas que não têm a cenoura do WinFS pendurada na ponta do bastão.

A dura realidade

A realidade é implacável. Chega a hora em que é preciso admitir que a tal coisa brilhante pela qual todos esperaram não vai chegar na próxima versão. No começo, WinFS era parte importante do Vista. Depois ele sairia meses depois do Vista, como um add-on. A novidade é que isso também não vai acontecer – as tecnologias desenvolvidas para o WinFS encontrarão seus lugares dentro de outros produtos. Em outras palavras, não haverá WinFS.

Reposição de vapor

Pouco depois da poeira assentar (ou do vapor condensar), a Microsoft fez a segunda coisa, a que não deveria me surpreender. Nesta semana, no Venture Forum, Bryan Barnett, gerente de programas na Microsoft Research, falou sobre os possíveis sucessores do Windows Vista e o que se pode esperar deles, mas sem falar sobre datas – não existe um cronograma ainda. É o começo de mais uma nuvem.

Não chega a me surpreender.

Afinal, boa parte dessa indústria é movida a vapor. [Webinsider]

Sobre o Autor

<strong>Ricardo Bánffy</strong> (ricardo@dieblinkenlights.com) é engenheiro, desenvolvedor, palestrante e <a href="http://www.dieblinkenlights.com" rel="externo">consultor</a></strong>.

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    Publicada em: 03/07/2006 21:24
    Impresso em: 28/11/2009
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