Carreira - Relacionamento

Liderança

12/05/2006 0:00

Por: Ana Clara Cenamo

Competências necessárias para ser um líder e gerenciar pessoas nos atuais sistemas de trabalho.

Pois é… de novo muito tempo sem escrever. Se for olhar meus últimos textos quase todos começam assim, com um pedido de desculpas pela demora em publicar mais um texto.

Vicente, Tardin, meu amigo: eu se fosse você me excluiria da lista dos colunistas!

Mas, como sempre ocorre, um tema começa a se impor e se constrói em meu dia–a–dia, a partir dele… desta vez o que impera é a questão da liderança, da intensa, gratificante e muitas vezes solitária função de liderar e zelar para que uma equipe, um grupo de pessoas com funções determinadas possam exercer suas tarefas da melhor maneira possível.

Ao longo dos anos, lidando sempre com pessoas, fui aos poucos formulando perguntas e encontrando algumas respostas que hoje gostaria de dividir aqui.

Estar no dia–a dia de processos que envolvem muitas pessoas é algo que exige um sacrifício e uma dedicação pessoal muito grande. Não é nada fácil.

Comecei então a buscar ajuda em livros, em conversas com amigos e na minha própria experiência, erros e acertos.

Do que estamos tratando quando falamos em liderança?

Estamos no campo das RELAÇÔES, de todas elas, porque as relações do trabalho são só mais uma reedição da forma (ou fôrma) como nos relacionamos com todos: pais, filhos, mulher, namorado, empregados, chefes, amigos, desconhecidos que encontramos em relações fugazes.

Nas relações existe toda uma série de escalas hierárquicas de poder. Há os que lideram e os que são liderados. Há os que ensinam e os que são ensinados, ao menos em um primeiro momento, pois a cabo de vários processos muitas vezes as posições podem se inverter e o ensinador passar a ser ensinado e vice–versa…

Cabe àqueles que lideram e que se colocam ou são colocados como modelos e signos de representatividade de determinada organização, cuidarem para que o que representam e o que fazem se concretizar seja eficazmente o melhor para todos. Pelo menos é o esperado.

Lembro–me de cada bom líder e mestre que tive ao longo de minha vida e sei que devo a cada um deles uma parte daquilo que sou hoje como pessoa e profissional. Temos que diferenciar líderes de chefes, pois nem todo chefe torna–se líder e nem todo líder é um chefe. Liderança genuína e chefia nem sempre andam juntas…

A liderança tem a ver com maestria e é uma arte que se aprimora ao longo da vida.

Meu primeiro chefe, Paulo Schiller, foi um psicanalista. Eu ainda atuava como psicóloga e trabalhei durante seis anos na Escola Paulista de Medicina, no departamento que depois se transformou no atual GRAAC – Grupo de Apoio ao Adolescente e á Criança com Câncer.

Na experiência extrema de equipes de recém–formados em psicologia que tinham que lidar com situações críticas como as vividas em um hospital para crianças com câncer, com ele aprendi a relativizar minhas verdades e vivi uma aprendizagem muito intensa de desconstrução de vários paradigmas da psicologia normatizadora que havia aprendido na faculdade. Com ele aprendi que escutar e ouvir são duas coisas muito diferentes. Ele foi um chefe que se tornou um líder e um mestre, por muito tempo.

Mas, como o próprio Paulo dizia, ser mestre é sempre um posição perigosa, pois os humanos elegem mestres para depois derrubá–los.

E parece ser assim… já me senti mestra e derrubada algumas vezes. Tem seu lado bom e ruim, pois sabemos que aqueles que se espelham e se orientam por nós, um dia vão… ganham asas e trilham seu próprio caminho. A derrubada não é algo que te destrói… é só o abandono… abandono de discípulo que já sabe o que quer seguir.

E torcer por isso é o grande ouro! Se formos bons líderes e mestres seremos derrubados muitas vezes. A missão é esta mesma. Dar o melhor de si pela formação alheia e saber que eles um dia se vão. Vão para o mundo, vão com sua aprendizagem e vão para disseminar o que apreenderam e o que agora tem de seu próprio mundo afora.

Acabei de ler um livro interessante. Um best–seller que em outros tempos não leria jamais porque minha arrogância pseudo–intelectual me impediria: O Monge e o Executivo”, de James C. Hunter.

O livro caiu nas minhas mãos em um momento preciso e precioso. Um momento de profunda reflexão sobre minha função e sobre os papéis que cada um representa dentro das relações de mercado que vivenciamos hoje.

O livro fala dos atributos essenciais que um líder deve desenvolver para ser um bom líder, talvez um mestre. Fala de líderes e não de chefes. Aqueles que influenciam as pessoas com as quais trabalham não pelo poder, mas pela autoridade, por um dom cultivado através do sacrifício pessoal e da constante determinação em ser um modelo a ser seguido e dirigido acima de tudo por boas intenções associadas a ações e atitudes coerentes.

Antes de liderar é preciso servir, o autor afirma.

É preciso estar próximo daqueles a quem influenciamos de modo justo e de modo atento, cuidando para que nossas necessidades não se sobreponham de modo violento aos limites do outro.

A liderança genuína se constrói no relacionamento cotidiano, na atenção minuciosa, na paciência, na escuta, no exemplo dado, no retorno dado e no cuidado com críticas desmedidas ou elogios infundados.

É algo que não se tem pronto. Não se nasce líder ou mestre.

Constrói–se um líder em si mesmo, a duras penas. Com muita entrega, dedicação e servidão. Aprofundando–se em todas as coisas, aprendendo antes de querer ensinar, dando antes de solicitar, escutando antes de falar. E para isto muitas vezes é necessário mudar… de jeito de ser, de atitude, de posição.

Se você não mudar a direção, terminará exatamente onde partiu. (Antigo provérbio chinês citado no livro de Hunter, pg. 39).

A mudança de direção nos tira do movimento circular que sempre retorna ao mesmo ponto. Para tornar–se um líder e gerenciar pessoas nos atuais sistemas de trabalhos, algumas mudanças e competências se fazem necessárias:

- ter um interesse genuíno por pessoas e acreditar que os resultados são conseguidos através delas.

- conhecer e buscar conhecer os pontos fortes e fracos das pessoas com as quais trabalhamos, buscar saber mais profundamente sobre elas e interessar–se, genuinamente, interessar–se.

- dedicar tempo e atenção às atividades de desenvolvimento pessoal e profissional de cada um e cultivar a rotina de dar feedbacks constantes e construtivos, indo além das atividades do dia–a–dia.

- manter e propiciar um ambiente positivo, agradável e bem humorado em sua área. Nada é melhor do que trabalhar se divertindo, tendo prazer em cada coisa que fazemos.

Para isso é necessário sempre estimular a participação e a troca de idéias, respeitar as diferenças de opiniões e a diversidade. Estimular a criatividade de cada um na equipe, buscar a contribuição das pessoas para a tomada de decisões, apoiar as decisões, comprometer–se com as pessoas de sua equipe.

Não deixar que seus interesses e opiniões se sobreponham aos da equipe é algo que requer maestria e delicadeza.

E tão importante como os itens acima é o planejamento e monitoramento constante da situação real vivida por cada membro da equipe: sua condição de remuneração, sua carga horária, seus benefícios, seu desempenho e possibilidades de carreira que devem ser sempre prioritários.

Muito importante é a necessidade do reconhecimento formal e informal dos sucessos alcançados pelas pessoas, que devem ser comunicados frequentemente. As pessoas precisam se sentir valorizadas e ter retorno de seus progressos.

Por último, o verdadeiro líder promove a prática de compartilhar informações de forma aberta e transparente, independente do nível hierárquico das pessoas e abre a possibilidade de associação do trabalho de sua área com os objetivos estratégicos da companhia: sendo um bom formador de pessoas e equipes, sabendo orientar de forma clara e transparente, estimulando seus colaboradores a realizarem suas atividades e atingirem os objetivos com interesse e satisfação pessoal.

O líder é o inspirador! Sabe inspirar as pessoas que lidera a darem o melhor de si para si mesmas. E isto reverbera… Sempre!

Enfim… algumas coisas a mais para pensar e agir. Creio que refletem mudanças. Digam lá! [Webinsider]

Sobre o Autor

<strong>Ana Clara Cenamo</strong> (ana.cenamo@gmail.com), geógrafa, psicóloga e publicitária, é diretora de Atendimento da Ogilvy Interactive.

Url original: http://webinsider.uol.com.br/index.php/2006/05/12/lideranca/
    Publicada em: 12/05/2006 0:00
    Impresso em: 28/11/2009
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