Comportamento - Negócios

Empresas públicas têm mais ética do que as privadas?

16/03/2006 0:00

Por: Patricia Cauceglia

Off-topic: em um país assolado pelo crime, a essência da discussão sobre Ética nas empresas não remonta ao setor privado ou ao público. Mas ao ser humano e, especialmente, ao cidadão brasileiro.

A respeito do oportuno artigo “Ética, ao menos para obter a lealdade do cliente ”(veja ao lado), de Guilherme Bova, gostaria de comentar alguns poucos pontos.

Quando o colega o intitula, anunciando que cabe às empresas privadas a iniciativa do estabelecimento de códigos de ética entre seus funcionários e clientes, entoa aos leitores a idéia de que são as empresas privadas as grandes responsáveis pela ausência da conduta ética – problema que tem assolado nosso país – face à inexistência de códigos de ética em seus âmagos.

Em igual proporção, estimula a crença de que se a iniciativa privada é ineficiente neste aspecto, a pública já não o é. Citamos o parágrafo quarto do artigo: “(…) Tomemos como exemplo os escândalos políticos recentes em que empresas privadas viabilizaram o esquema de corrupção envolvendo o governo. (…)”.

Todavia, a essência dessa discussão não remonta ao setor privado ou ao público. E sim ao ser humano e, especialmente, ao cidadão brasileiro.

Não faltam códigos de moral e ética universais, a citar o primeiro deles, a Bíblia Sagrada, que apregoa e reafirma, aos crentes e ateus, a existência da consciência, dos princípios, da moral e da própria ética.

Destarte o cunho religioso do código exemplificado, anunciamos apenas alguns de tantos outros que normalizam o princípio de isonomia entre os indivíduos e em prol da coletividade: Global Compact; Declaração Universal dos Direitos Humanos; Carta Geral das Nações Unidas; Estatuto da Corte Internacional de Justiça; Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos; Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais; Princípios Orientadores para a Prevenção e Repressão do Crime Organizado; Declaração sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento; Declaração sobre o Uso do Progresso Científico e Tecnológico no Interesse da Paz e em Benefício da Humanidade; Declaração dos Direitos da Criança.

Como se observa, ao longo da história da humanidade, muitos foram os instrumentos utilizados para o alcance do propósito de unicidade de padrões de conduta morais e éticos.

Assimilando–se aos padrões universais, cada um dos povos e nações adota os seus próprios, como é o caso da Constituição Federal, leis, dos códigos, estatutos, regulamentos etc.

Paralelamente, outros grandes formadores da conduta moral e ética dos povos são as famílias, os centros religiosos, as escolas, as organizações e os demais grupos sociais dos quais participamos ao longo de nossas vidas.

É neste aspecto que chamo atenção para a realidade vivenciada em nosso país.

A iniciativa pública, historicamente, é a antecessora na implementação de regras e códigos administrativos, até para que essas regras e códigos possam balizar ou motivar a iniciativa privada a segui–los.

Sendo assim, não deveriam ser os seus próprios funcionários os primeiros a dar o exemplo da assimilação desses documentos e de sua efetiva prática? Então, esclareça–me, caro Guilherme, o porquê dos mais recentes escândalos, que macularam nosso país, serem advindos exatamente da iniciativa pública envolvendo agentes, funcionários ou servidores públicos?

Eles não deveriam servir de exemplo à população? E, o que pensar, então, acerca dos agentes públicos (os deputados e senadores), eleitos para o grandioso propósito de auxiliar na gestão do país e de seu povo?

Todo cidadão que tenha sido concebido em qualquer sociedade, com os mínimos princípios de civilidade, possui consciência e discernimento entre aquilo que é o “bem” e o “mal”.

Resultados lucrativos em nada têm correlação com ilicitude de ações; ao contrário, a cada vez que nos apresentarmos, seja em nosso ambiente profissional, familiar ou social, enquanto pessoas íntegras mais e mais nos afeiçoaremos e atrairemos àquelas outras que estão, em meio a esse grande caos ético, clementes e ansiosas por recobrar a dignidade e justiça públicas!

Afinal, como o autor Tenório sabiamente assevera: não há justiça sem a ética (e vice–versa). (TENÓRIO, F.G. Responsabilidade Social Empresarial: Teoria e Prática. Rio de Janeiro: FGV, 2004.)

[Webinsider]

Sobre o Autor

<strong>Patrícia Cauceglia</strong> (cauceglia@cnt.org.br) é especialista em gestão do conhecimento. Atua há vários anos no terceiro setor com gestão documental, estratégica da informação e do conhecimento, integração de SIs e alinhamento entre negócios e TI.

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    Publicada em: 16/03/2006 0:00
    Impresso em: 28/11/2009
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