Blade Runner fora de catálogo. E a internet?
19/11/2005 0:00Por:
Uma das referências da cultura cyber, Blade Runner, clássico do cinema, não é visto pelos mais jovens e praticamente não pode mais ser encontrado nas locadoras. Ponto para as redes PSP.
Escrevo no calor do momento – e no relativo frio de São Paulo, onde chove (escrevo numa noite de quinta, depois de uma semana de muito sol e calor atípicos para uma primavera). Agora estou em casa, mas há cerca de uma hora estive numa das lojas da rede de locadoras de vídeos e DVDs 2001, para alugar uma cópia de um dos meus filmes favoritos: o genial Blade Runner.
Dirigido por Ridley Scott (responsável por outro clássico, Alien – o Oitavo Passageiro, e por duas superproduções mais recentes mas nem de longe tão boas, Gladiador e Cruzada), Blade Runner teve lugar de destaque em tudo quanto foi lista de top 100 (e várias de top 10) de filmes de todos os tempos na virada do milênio.
Talvez nem fosse necessário mencionar essas informações, mas, em várias conversas com conhecidos na casa dos vinte e poucos anos, tenho percebido que quase nenhum deles viu esse filme. Pensei, portanto, em pegar uma cópia (infelizmente não tive a oportunidade de comprá–la na época em que saiu) para reunir um pessoal em casa e fazer uma sessão–pipoca de alto nível.
Mas o título desta matéria (ou rant, como dizem os americanos, já que não se trata exatamente de um artigo, mas sim de uma diatribe, um desabafo razoavelmente virulento) já dá uma idéia mais do que razoável a vocês, amigos leitores, do que aconteceu.
Depois de pedir a uma funcionária da locadora (e pronunciar devagar o nome do filme três vezes, pois ela não fazia idéia do que se tratava – e lembrem–se de que eu não estava num supermercado ou num armarinho de miudezas, mas numa das locadoras mais conceituadas de São Paulo), ela me acompanhou até os fundos da loja, onde outra funcionária digitou o nome do filme (corretamente, aliás) no sistema de busca.
Esgotado.
– Mas como assim, esgotado? – perguntei. E ela respondeu:
– É que nós tínhamos um DVD aqui, mas ele quebrou e não temos reposição. Aliás – ela conferiu a tela e lascou o golpe de misericórdia – aqui consta que este filme está fora de catálogo desde 2002.
Saí da loja absolutamente inconformado com o fato de que um clássico do cinema não tem nenhuma cópia disponível em nenhuma de suas filiais. Nem em VHS. E bestificado por este filme estar há três anos fora de catálogo. (Aqui cabe uma observação: ao chegar em casa, fiz uma busca por alguns dos principais sites brasileiros de comércio eletrônico e constatei que a funcionária não estava equivocada: o filme não existe para venda na FNAC nem na Livraria Cultura, e no Submarino só constam o CD da excelente trilha sonora de Vangelis para o filme e uma edição importada do DVD, porém já esgotada.)
Por um lado, talvez eu não devesse me surpreender. Afinal, Blade Runner nunca foi um filme típico de Hollywood. Até porque, para começar, é uma co–produção Inglaterra–Estados Unidos. Em segundo lugar, o filme não foi aclamado por público e crítica na época de seu lançamento, em 1982 (apesar do próprio Philip K. Dick, autor do livro “Do Androids Dream With Electric Sheep?”, no qual o filme foi baseado, ter visto trechos do copião pouco antes de sua morte e gostado).
O sucesso só ocorreria entre 1984 e 1986, por ocasião de seu lançamento no então incipiente mercado de aluguel de fitas VHS. Foi então que o filme explodiu no exterior e aqui, a ponto de ser reexibido esporadicamente nos cinemas brasileiros – e no final da década de 1990, constar da mostra de 75 anos da Warner Brothers, sendo exibido juntamente com Casablanca e Meu Ódio Será Tua Herança, outros clássicos mais antigos, em alguns cinemas cult do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Cerca de dez anos mais tarde, chegaria ao Brasil a versão em DVD – mas com uma surpresa. O lançamento na então nova mídia digital seria apenas da versão do diretor, pela qual Ridley Scott vinha batalhando há tempos. Uma versão bastante diferente da que passou nos cinemas, não apenas com cenas adicionais, mas sem a narrativa de Harrison Ford em off que pontuava o filme inteiro e proporcionava um entendimento maior da história, além de dar um charme adicional típico do cinema noir.
Mas, infelizmente, numa rara e nada honrosa exceção, desta vez o estúdio e os produtores tinham razão. Apesar de até hoje Ridley Scott e Harrison Ford (que interpretou o detetive Rick Deckard, um caçador de andróides) afirmarem categoricamente que a versão original era melhor. Mais complexa e melhor acabada? Com certeza, em particular nas cenas finais a versão que foi exibida nos cinemas continha, em seu encerramento, uma cena de uma floresta de coníferas em vista aérea, que não batia com a paisagem sempre escura e chuvosa da Los Angeles de 2019, época em que se passava a história do filme. O motivo dessa discrepância é que os produtores usaram trechos de O Iluminado, de Stanley Kubrick, para supostamente oferecer um contraponto mais feliz a uma história trágica. Não foram felizes neste ponto, mas outros recursos, como a narrativa de Ford em off (muito utilizada em clássicos do cinema noir, como À Beira do Abismo, com Humphrey Bogart) acabou se revelando genial, e um dos pontos fortes do filme. Eu poderia escrever um livro sobre este filme (vários já foram escritos no exterior), mas vou parar por aqui. Vocês, caros leitores que por acaso não viram o filme, já fazem uma idéia razoável do que estão perdendo.
E por que vocês estão perdendo isso? Alguém sabe? Eu não sei. Só sei de uma coisa: se, como dizia o escritor de ficção científica e futurólogo Bruce Sterling nos primórdios da web em seu livro The Hacker Crackdown, information wants to be free, então temos alguma coisa de muito errada acontecendo. Porque a informação não está sendo disponibilizada. É no mínimo irônico que clássicos mais antigos como Casablanca e Ben–Hur (outros filmes, aliás, que fazem parte da minha lista de top 5) estejam recebendo novos lançamentos de luxo, cheios de extras, e Blade Runner, que é uma das referências da cultura cyber, continue relegado ao esquecimento.
Resta então aos fãs de cinema duas opções: comprar o DVD no exterior (e pagar uma taxa alfandegária absurdamente alta que praticamente duplica o preço do filme) ou baixar o filme em algum programa P2P como o eMule ou o SoulSeek. Que as distribuidoras, portanto, não reclamem. É por esse descaso (e também pelos preços altíssimos dos DVDs) que o consumidor procura os chamados genéricos em bancas de rua ou baixa filmes na rede. É o que eu pretendo fazer com Blade Runner assim que tiver a oportunidade.
E, só para deixarmos as coisas bem claras: pirata é o escambau. Eu (e todos os que já passaram ou ainda passam pelo mesmo tipo de constrangimento) sou consumidor de Cultura. E mereço respeito.[Webinsider]