China censura web, Microsoft e Google ajudam
08/08/2005 0:00Por:
Governo chinês constrói uma nova grande muralha para barrar todo o conteúdo considerado inconveniente. Microsoft e Google colaboram. Se der certo, será um péssimo precedente.
É comum encontrar afirmações de que é impossível controlar a internet. Para isso seria necessário instalar filtros em cada uma das múltiplas faces que compõem a rede hoje em dia. Seria necessário refazer toda a internet de baixo para cima e de cima para baixo, trabalho considerado impossível por seu custo incalculável. No entanto a China está disposta a tentar.
Com a cumplicidade explícita de vários fabricantes ocidentais de software e hardware, o governo chinês deu início a uma perigosa experiência que pode levar a fragmentação e talvez ao colapso da internet na forma como conhecemos hoje (leia mais na Slate).
Desde o final de junho todos os blogueiros chineses devem estar registrados junto ao governo ou se arriscam a sofrer com pesadas represálias. E isso é só o começo. Recentemente a Microsoft reconheceu que seu sistema de blogs em chinês impede literalmente que se escrevam termos como “liberdade” ou “democracia”. Já é de conhecimento geral que os resultados de buscas no Google China não incluem páginas na internet que incomodam o Partido Comunista Chinês.
O fato aberto é que a China tenta colocar limites na internet com ajuda explícita de empresas multinacionais. Os termos desta inusitada colaboração entre o governo chinês e as empresas de tecnologia são simples: ou se colabora ou o maior mercado do planeta ficará fora de seu alcance. Em tempos onde a economia chinesa e seu mercado sem fim são o sonho dourado de todos, quem resiste? Se para o Google e a Microsoft censurar suas páginas é um preço bom para entrar no mercado chinês, quem poderá dizer o contrário? Não pense na IBM, ela já é chinesa.
O governo chinês quer uma internet limitada, uma gigantesca infovia, mas local, com pequenos e muito bem vigiados pontos de contato com a rede no resto do mundo. Para atingir este objetivo, além da cumplicidade das empresas que controlam as maiores e melhores fatias da internet, a China já estão desenvolvendo a tecnologia necessária.
Na internet os únicos países reais são os idiomas. Para o governo chinês basta controlar os conteúdos para conseguir seu propósito final. Controlando os pontos chaves da rede, como provedores de acesso em seu território, conexões internacionais, principais provedores de conteúdo e os buscadores, é possível eliminar com critério tudo o que lhe incomoda e pode ser uma ameaça interna.
Na prática não é tão simples assim. O governo chinês precisa promover a mudança de equipamentos e pressionar empresas estrangeiras. Uma ação deste tipo tem um custo impossível de se calcular, mas o governo chinês parece disposto a pagar o preço, seja lá qual for, para atingir seu objetivo. Dinheiro não é o problema. Em breve a internet na China será muito parecida ao panorama econômico do país: liberdade controlada por um regime autoritário.
Se você acha que a China é um país muito distante e está aí se perguntando enquanto olha para o seu umbigo: e o que eu tenho a ver com isso? Se o governo chinês decide isolar o país do resto do mundo o problema é deles. Não é isso? Mas não é bem assim.
Se a China obtiver êxito em sua tentativa de desenvolver uma extensa tecnologia capaz de erguer uma nova Grande Muralha online, muitos outros países se sentirão à vontade para seguir o exemplo. Todas as ditaduras do mundo ficariam aliviadas. A internet não seria mais aquele sonhado instrumento sem fronteiras. Iria para o buraco a idéia de que as ditaduras não têm mais espaço em um mundo conectado globalmente. A internet se dividiria em várias intranets com conteúdo fiscalizado.
Seria o fim do sonho da aldeia global. E não apenas para países com regimes autoritários. Governos assombrados pela guerra contra o terrorismo, perseguições religiosas e outras campanhas internas poderiam usar o advento da tecnologia chinesa para controlar suas próprias redes e limitar o acesso a conteúdo externo.
O governo chinês é o único neste momento que tem o poder, o dinheiro e a falta de oposição para dar o pontapé inicial a um propósito temeroso. Não há nenhum governo, ONG, entidade ou o que seja disposto a impedi–los. Alguém duvida que terá êxito? [Webinsider]