Porque chineses adoram mensagens no celular
26/05/2005 0:00Por:
Em um lugar sempre cheio de gente e censura estatal nos meios de comunicação de massa, a privacidade do SMS é um bem valioso. E um canal onde as pessoas podem experimentar um gostinho de transgressão.
Durante praticamente um mês de viagem pela China, a cena foi bastante comum. Não importava o local e mesmo em reuniões de trabalho, os profissionais e empresários chineses sempre tinham seus olhinhos pregados na tela dos celulares, lendo e respondendo SMS. Não que no Brasil não aconteça, pelo contrário, mas, percebi um apego extra pelas
short–messages naquele país.
Algumas particularidades podem ajudar a explicar o sucesso do serviço que atualmente movimenta 750 milhões de mensagens diariamente numa base de 330 milhões de assinantes de telefonia celular (só durante a semana do último Ano Novo Chinês foram 11 bilhões de SMSs - mais de 1,5 bilhão/dia - praticamente uma mensagem para cada um dos 1,6 bilhão
de habitantes).
A enorme concentração populacional provoca um efeito especialmente sufocante para quem está acostumado com a disponibilidade de espaço que temos no Brasil. Mesmo nas grandes cidades brasileiras, existem aquelas pracinhas e bairros sossegados. Já na China, todos os lugares ruas, residências, estabelecimentos comerciais tudo está sempre
cheio de gente. Claro, essas pessoas precisam estar em algum lugar e, no caso, estão por toda parte. E o resultado é que não existe muita privacidade. Nesse cenário, encaixa–se perfeitamente o celular, uma das únicas coisas que as pessoas realmente podem considerar só suas, e o SMS, que não tem o risco de ter a conversa ouvida por alguém do lado.
Outro ponto fundamental é a rígida censura estatal dos meios de comunicação de massa. Por ainda estar fora desse controle, o SMS mostrou–se um ótimo canal onde as pessoas podem experimentar um pouco do gostinho da transgressão e até mesmo extravasar idéias que poderiam ser proibidas de outra forma. Na prática, essa liberdade materializou–se na viablização através de SMS dos protestos anti–Japão ocorridos em abril. É a versão política (e útil) dos flashmobs que percorreram o mundo nos últimos anos.
Percebendo a força desse meio P2P (pessoa–a–pessoa), o governo chinês está adotando as mesmas armas. Além dos blogueiros puxa–sacos divulgados nesta semana, a polícia de uma província chinesa enviou milhões de SMSs alertando para a ilegalidade dos protestos. Ainda estamos aguardando a divulgação do resultado dessa campanha.
Se um dia desses receber um SMS em chinês, não estranhe, pode ser uma convocação para o próximo protesto. [Webinsider]