Não vi na TV a cabo, preferi baixar pela internet
25/05/2005 0:00Por:
Filmes e música: a pirataria da internet não é culpada de nada, é simplesmente resultado do entusiasmo de fãs aliado à ineficiência da distribuição da informação no modelo tradicional.
Há meses ouço falar, de várias bocas, sobre uma série chamada “Lost” (passa na ABC nos Estados Unidos e no AXN aqui no Brasil). Mas mesmo com tantas recomendações positivas, nunca havia conseguido ajustar meu relógio biológico para lembrar de sintonizar o mesmo “bat–canal” na mesma “bat–hora”. Sem falar que, pelo que tinham me adiantado da trama, seria bem chato começar a acompanhar a série, muito rica em detalhes, a partir de um episódio avançado.
Não iria acompanhar mesmo, já estava decidido. “Lost” estava condenada a ser mais um grão na tonelada de informações que perco diariamente por causa da ineficiência da grade televisiva e da minha preguiça. Estava. Para o bem dos produtores, roteiristas e artistas envolvidos com a série existe uma eficiente rede de pirataria na internet.
As redes de distribuição de vídeos no bit torrent são muito sofisticadas. O ritmo de produção é praticamente instantâneo e há hierarquias muito bem organizadas. Quem contribui mais e faz doações tem privilégio e prioridade para baixar mais coisas. Quem não contribui, só baixa e não compartilha sua banda, é sumariamente expulso. Por trás desta “pirataria do bem”, não há nenhuma motivação financeira, como na “pirataria do mal” que inunda o comércio com CDs, DVDs e mercadorias adulteradas.
Um episódio inédito de “Lost” vai ao ar nas noites de quarta na TV americana. Três horas depois, este episódio já está disponível no meu grupo de bit torrent favorito, cuidadosamente encodado em DivX e com os comerciais devidamente editados.
E para quem não é muito fluente em inglês, em cerca de 12 horas um arquivo com a legenda (de qualidade aceitável - já vi coisas piores na TV) pode ser baixado. Resultado: em uma semana baixei e assisti compulsivamente 23 episódios, ficando 10 na frente dos meus amigos que me recomendaram a série. Agora estou sincronizado com os americanos e sou eu que recomendo aos amigos que não participam deste o maravilhoso mundo do tráfego (ou tráfico mesmo) de dados: “não perca o próximo do AXN, vai ser sensacional”.
Essa “pirataria do bem” fez “Lost” ganhar um fã que já estava perdido. E todos sabemos que não há nada mais valioso do que um fã. E justamente a grande motivação que faz esta pirataria funcionar extremamente bem é o fanatismo. Qualquer esforço é válido para ter acesso rápido e na hora que quiser ao conteúdo que interessa, rompendo os grilhões de dias e horários pré–determinados.
Aí está o ponto que os produtores precisam entender. A “pirataria do mal”, como a dos chineses, representa um prejuízo financeiro real e precisa de um mega–esforço para ser combatida. Já esta pirataria da internet (que muitos apontam como a grande culpada de tudo) é simplesmente resultado do entusiasmo de fãs aliado à ineficiência da distribuição da informação no modelo tradicional, com dia e hora marcados. Sem falar nos atrasos… É impossível reprimir algo assim usando a força, mas essa contravenção movida a entusiasmo pode muito bem ser revertida a favor dos próprios produtores.
Adeptos deste novo estilo de acompanhar programas pela rede via torrent são cada vez mais numerosos, mas não representam uma ameaça. Sempre serão uma parcela mínima. Não é qualquer um que tem possibilidade técnica, paciência e manha para baixar mais de 1 gb por semana (o que representaria uns 3 episódios).
Por que ao invés de caçar estas redes, os produtores não montam um grupo de torrent próprio para distribuir mundialmente seus próprios programas? O prejuízo seria minimizado e quem sabe poderia até ser revertido em lucro.
O custo de manutenção de uma rede de arquivos torrent é praticamente nulo, visto que a banda é fornecida pelas próprias pessoas que estão baixando os arquivos. Intervalos comerciais mais segmentados poderiam integrar os vídeos, ao invés de serem podados, como nas redes clandestinas.
E eu não duvidaria que muitas destas pessoas estariam dispostas a pagar para receber um “algo mais” no conteúdo ou algum privilégio na hora do download. Se a minha rede clandestina de torrent recebe doações para permanecer no ar, imagina se não haveria pessoas pagando para uma rede oficial, com possibilidade de oferecer alguma garantia.
Enfim, pagas ou gratuitas, estas redes oficiais seriam a chave para se ter na mão um mapeamento completo dos maiores fãs daquele programa, fãs que por muito pouco se transformariam em agentes propagadores daquele produto, aumentando o buzz em torno dele que pode torna–lo um sucesso onde realmente interessa: a TV aberta e mercados de TV a cabo nas partes mais remotas do planeta. Tudo muito simples como o velho ditado: se não pode vencê–los, junte–se a eles. [Webinsider]
.