Jornalismo

Como o jornalismo brasileiro absorveu a internet

11/05/2005 0:00

Por: Nara Franco

Sobre a discussão que envolve jornalismo, diploma, banalização da profissão e tempos modernos: o blog facilita, mas não determina o "ser jornalista". Se é assim, por que os jornalistas não invadem a rede?

Há algo de estranho no reino da internet brasileira. Nesta semana, num intervalo de 24 horas, li dois interessantes artigos que tratavam de um mesmo assunto: blog e jornalismo. No primeiro, o jornalista Pedro Doria, de NoMinimo, classifica como um mistério o fato de haver tão poucos blogs brazucas voltados para a informação. No segundo, publicado aqui no Webinsider (Jornalismo virou commodity. Aceite e aja, veja ao lado), o também jornalista Julio Daio Borges diz que o blog banaliza a profissão de tal maneira que qualquer pessoa pode ser um jornalista hoje em dia.

Quem está certo ou errado, não sei. Mas que está estranho, isso está. Parece aquela discussão do biscoito: vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais? Na verdade, os dois artigos não explicam nada. Nem a ausência de blogs informativos, muito menos a banalização da profissão. Creio que a questão é bem mais profunda e antiga e não passa por comparações com outros países ou por questões pessoais.

Primeiro é preciso entender como o jornalismo brasileiro absorveu a internet. Sabemos que a rede desfigurou muitas redações, que abriu um importante mercado de trabalho e que possibilitou maior agilidade na apuração e divulgação de uma matéria. Mas ficamos só nisso? Não. A internet deu voz a muita gente boa do mercado, como o próprio Julio Daio, e no vácuo da rede surgiram diversos blogs, zines e revistas abordando temas não muito presentes na grande mídia.

A internet abre portas, possibilita que você expresse seu ponto de vista sem passar pelo editor, o patrão ou o cliente assessorado. Ela é território livre e cabe a cada um escolher sobre o que falar. Se não há muitos blogs informativos no Brasil talvez seja o momento da classe jornalística se unir para discutir o porquê de ainda hoje, nos jornais, as redações online serem discriminadas e seus profissionais tratados como “jornalistas de segunda” pelos colegas de redação “offline“ ou o porquê de muitos desses profissionais colocarem um jornal inteiro no ar na base do Ctrl + C, Ctrl + V e ainda assim terem menos prestígio e ocuparem aquele fundinho de sala da redação. E pior: de serem aqueles que mendigam por uma credencial para eventos que, na maioria das vezes, ignoram totalmente a existência dos veículos web.

Dizer que qualquer um pode ser jornalista porque pode criar um blog é ler de maneira superficial o que de fato é a profissão. Jornalismo com credibilidade exige muito trabalho de redação e apuração, conhecimento de fontes, responsabilidade de saber que o que você publica pode beneficiar e/ou prejudicar alguém. Isso tanto é verdade que atualmente muitos blogs estão sendo alvo de processos judiciais.

Para cativar um público e ter dele respeito é preciso saber informar e isso, creio, não é tarefa para qualquer um. O blog é uma poderosa ferramenta da internet. Há casos de sucesso envolvendo jornalistas, há casos de fugaz notoriedade e há a massa que se diverte no papo de bar. Os motivos que levam os jornalistas a ignorarem esse espaço ou a mal aproveitá–lo merece uma crítica em conjunto dos profissionais. É preciso perder o medo da tecnologia e entender que o processo de comunicar vai além da atuação na rua.

Por outro lado, o blog, pelas oportunidades que cria, não é tábua de salvação para os que não têm espaço na grande imprensa. Mais uma vez, repito: a profissão vai além. É preciso buscar alternativas. Mas acima de tudo é preciso zelar pelo que é feito e, principalmente, respeitar e encorajar aqueles que almejam, como nós almejamos, abraçar a profissão. [Webinsider]

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Sobre o Autor

<strong>Nara Franco</strong> (narafranco@gmail.com) é jornalista e trabalha como gerente de comunicação integrada na <strong><a href="http://www.fsb.com.br" rel="externo">FSB Comunicações</a></strong>.

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    Publicada em: 11/05/2005 0:00
    Impresso em: 28/11/2009
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