O homem cordial e o desprendimento brasileiro
04/07/2004 0:00Por:
Os ensinamentos matemáticos de Einstein e as pesquisas sociais de Sérgio Buarque de Holanda podem nos servir de referência, na tentativa de explicar um pouco mais a febre do Brasil no Orkut.
Albert Einstein, alemão, precisou de poucas linhas para formular a teoria da relatividade restrita, onde aproximou ainda mais o místico do racional ao dizer que energia podia se transformar em matéria e vice–versa. Desenvolveu seu raciocínio a partir das idéias de Maxwell e de muita criatividade matemática. Para seu profundo desgosto, 40 anos mais tarde as cidades de Nagasaki e Hiroshima provavam que ele tinha razão.
Sérgio Buarque de Holanda, brasileiro, conhecido por muitos desavisados apenas por ser o pai do Chico. Formulou e escreveu o clássico Raízes do Brasil, no qual analisa como as relações entre índios, escravos e portugueses nestas terras do sul acabaram por gerar um povo particular, especial, que pode ser entendido através da imagem do homem cordial.
O homem cordial, como o próprio Sérgio Buarque explica, não é o homem gentil. Não. Para capturar o significado da expressão, é preciso buscar a etimologia latina do vocábulo cordial: cor, cordis. Coração. O homem cordial é aquele que age movido pelos instintos do coração. Homem visceral, a quem prefirir.
O homem cordial, o brasileiro, é aquele que não suporta formalidades. Aquele que quer estreitar distâncias a todo custo. Aquele que prioriza o afetivo, as relações pessoais. Aquele que aceita ser amado ou odiado, mas nunca esquecido. Falem mal, mas falem de mim, já diz o ditado. O homem cordial, segundo Roberto Pompeu de Toledo em artigo durante a última copa do mundo, é o Felipão. Paizão ou arquiinimigo, mas nunca frio ou indiferente. Romário é o melhor jogador? Que importa? O homem cordial não olha os fatos, mas os sentimentos.
Ao contrário da teoria de Einstein, não há provas da adequabilidade das idéias de Sérgio Buarque. Ciências sociais não são matemática e é mais difícil (embora não impossível) pôr um como queremos demonstrar ao final de uma página de equações e se dar por satisfeito. Entretanto, apesar da falta de provas explosivas, diversas novas teorias e análises foram feitas, com sucesso, sobre o nosso povo, usando como base o homem cordial. A mais nova evidência da genialidade (e correção) das idéias do sociólogo está aí, ao alcance de todos: o Orkut.
O Orkut, se é que alguém nunca ouviu falar, é basicamente uma versão moderna das antigas listas de discussão. Inclui, entretanto, uma série de novidades, como a existência de perfis para cada usuário e a possibilidade de se formar uma rede de contatos. Como se não bastasse, podem–se classificar os contatos (os seus amigos, na linguagem do Orkut) dando–lhes pontos segundo a sua sensualidade (sexy), confiabilidade (trust) ou interesse (cool).
Os coraçõezinhos, cubinhos e sorrisos do Orkut (símbolos da sensualidade, interesse e confiabilidade) são a transformação de energia em matéria. A conversão de um sentimento abstrato em realidade, física, mesurável.
Pois bem, nessa comunidade onde as leis da física são postas em prática, os brasileiros são agora maioria: 34% dos usuários. Os Estados Unidos, segundo colocado, têm 28%. A partir do terceiro posto as porcentagens caem para abaixo de 5%.
Surpreendente? A internet tem pipocado de explicações para este domínio (crescente) dos brasileiros. É realmente extraordinário, sobretudo ao considerar–se as condições econômicas do nosso país (qual a porcentagem da população que tem acesso à internet?). Pois aqui vai mais uma tentativa de resposta: o homem cordial.
O homem cordial quer ser amado. Quer ser sexy, trustable e cool e, sobretudo, ter milhões de amigos. O homem cordial recebe o convite para entrar no Orkut e no mesmo dia o repassa para toda sua lista de e–mails, que inclui o chefe, a ex–namorada e, se brincar, até a sogra.
Esse desprendimento do brasileiro está ligado à noção de espaço individual: os limites que impomos à divulgação da vida privada. Se este conceito já era algo vago no Brasil, com o advento do e–mail desapareceu quase que por completo. Gostamos de invadir a vida de estranhos (e mesmo de ser invadidos). Queremos ser chegados de todo mundo! Enviamos aquela animação em power point tanto para o nosso ente mais querido como para aquele cidadão que uma vez, por engano, nos enviou uma mensagem.
Por outro lado, na maioria das outras culturas ocidentais (sobretudo no hemisfério norte), é justamente o espaço individual, a vida privada, que dita as regras. Tudo que pode ser considerado uma invasão de privacidade é tabu. Morando em um país frio (Canadá, mas poderia ser a Alemanha), quantas vezes vi as pessoas darem mil voltas antes de se atreverem a perguntar algo personalíssimo como você gosta de batata–frita? Há o medo de ofender, o medo de invadir. E quem tem medo de ser incoveniente nunca vai enviar um convite de Orkut para alguém com quem não tenha intimidade.
E assim, ao decidir por um crescimento orgânico ou seja um crescimento baseado na entrada de usuários apenas através de convites, Orkut (que é o nome do engenheiro da Google responsável pelo projeto) acabou por vestir–se de verde amarelo, falar português e gostar de samba, futebol e cerveja. E aí está a razão da nossa maioria.
Respondido o mistério da invasão brasileira, quedam dezenas de outras perguntas, isso é bom ou ruim?, o Orkut serve pra alguma coisa ou é pura perda de tempo?, a maioria brasileira poderá ter influência no futuro destas redes de amigos ou vamos apenas continuar a ser cordeirinhos nas mãos dos pastores do norte?. Para responder isso tudo, uso meus genes brasileiros, dou um tapinha nas costas do Einstein e respondo, citando suas palavras¹: tudo é relativo. [Webinsider]
¹ esta frase, provavelmente a sabedoria Einsteniana mais popularizada, nunca saiu realmente da sua boca: ao contrário, uma das bases da teoria da relatividade é que as leis da física não são relativas ao observador inercial.
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