Novos players da TV brasileira
01/08/2003 0:00Por:
Boni, Gugu e J. Hawilla.
O cenário da TV brasileira está abandonando sua aparente calma e imutabilidade. Em meio à crise dos grupos tradicionais e da penúria das redes menores, estão despontando três players que devem exercer grande influência no século 21: José Bonifácio Sobrinho, Gugu Liberato e o empresário J. Hawilla.
Os três aproveitam condições específicas de mercado e regulamentação e, sem muito alarde, estão criando suas redes de emissoras.
Um outro player (ou players) que deve ser acompanhado de perto são as igrejas neopentecostais, com destaque para a Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo.
J. Hawilla, “tycoon” determinado
J. Hawilla acaba de adquirir 90% das ações das emissoras que retransmitem a Globo em Bauru, Rio Preto, Sorocaba e Itapetininga, e criou a chamada “TV Tem”. A rede já atinge 318 municípios (47%) do estado de S. Paulo.
A venda de 90% das ações foi efetivada no ano passado pela família de Roberto Marinho. A operação teria movimentado R$ 120 milhões. Só a TV Modelo de Bauru custou R$ 42 milhões a emissora transmite o sinal da Globo para a região de Ourinhos e Santa Cruz do Rio Pardo. A família Marinho detém 10% para as emissoras continuarem afiliadas à Rede Globo. As quatro afiliadas juntas empregam mais de 400 profissionais. Alguns deles estão sendo remanejados com promoções a funções novas. O objetivo é expandir ainda mais os negócios, já que as emissoras se mostram cada vez mais rentáveis. O investimento nas afiliadas, neste ano, deverá ser superior a R$ 6 milhões, segundo fontes da emissora.
A oferta de ações das emissoras que retransmitem a Globo fez parte da estratégia de levantar R$ 135 milhões com a venda de 27 das 113 afiliadas. O capital é para sanear as operações da Globopar, holding do grupo da família Marinho que ameaçou a estabilidade financeira de todo o grupo da Globo.
Na compra das três afiliadas paulistas, também é sócio no empreendimento Stefano Hawilla, filho do dono da empresa de marketing esportivo.
J. Hawilla é um ex–radialista que iniciou sua carreira em São José do Rio Preto, passou pelos departamentos de esportes da Rede Globo e Bandeirantes, mas se notabilizou como empresário na área de marketing esportivo. Ele chegou a depor na CPI do futebol que apurou o contrato da Nike com a CBF. Hawilla foi o negociador do contrato. A empresa dele detém os direitos de transmissões esportivas de vários campeonatos de futebol.
Junto com a afiliada de Bauru funciona um site na internet com média de 900 mil acessos/mês. O portal também muda para TV Tem. “Vamos alterar o layout e buscar parcerias. O internauta gosta de novidades. O nosso portal era um dos mais visitados”, declarou.
J. Hawilla ainda tem planos de expansão internacional. Em 2002, o empresário mostrou interesse em adquirir a Rede Azul TV, na Argentina. Segundo o jornal argentino ‘El Cronista’, o valor cogitado para a venda giraria em torno de US$ 30 milhões, um quarto do que o grupo australiano Prime pagou pela mesma rede há quatro anos, quando a adquiriu do empresário argentino Francisco de Narvaez.
A Azul TV é tradicionalmente o quarto faturamento entre as redes argentinas, com perto de 1,5 milhões de pesos mensais, ou 15 a 20 milhões de pesos anuais. As líderes são a Telefé e o Canal 13 (do Grupo Clarín), com perto de 30% do bolo publicitário do segmento cada uma. Além da base (canal 9, em Buenos Aires), a Azul detém emissoras em cidades com Mar del Plata, Resistência e Paraná, e é distribuída ao resto do país via cabo ou retransmissão de coligadas regionais.
J. Hawilla também está montando uma estrutura “periférica” para sua rede de TV. A TV 7 – Vídeo Comunicação, produtora independente de televisão do Grupo Traffic, contratou recentemente os publicitários Rafael Moreno, ex–Bandeirantes e Rede TV, Nelson Perpétuo, ex–Noar Filmes, e Jô Mattos, ex–Cena 1, para reforçar sua equipe de vendas. Eles atuarão como executivos de atendimento da produtora – lançada no mercado em setembro do ano passado.
Como prova de sua força, a TV 7 e a Traffic Marketing Esportivo transmitiram ao vivo a partida final da Taça Libertadores entre Santos e Boca Juniors para 85 países da Europa, Ásia e Oceania.
A estrutura operacional para a cobertura e transmissão do sinal envolveu 61 profissionais entre diretores de TV, diretores de arte, produtores, editores, câmeras etc. – 40 no estádio do Morumbi e 21 na sede da TV 7 em São Paulo. O radialista e jornalista Charles Mills fez a narração–guia em inglês – orientação para as dezenas de emissoras que mostraram o jogo em seus países.
Apesar das parcerias com a Rede Globo, J. Hawilla aproveita oportunidades para jogar contra o gigante especialmente quando o assunto são transmissões de jogos de futebol, cujos horários continuam determinados pela grade da Globo.
Boni, o mago
Há trinta anos, quando entrou na Rede Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni, um paulista de família espanhola nascido em Osasco, aceitou a proposta de Roberto Marinho de, em vez do salário, receber 1% do lucro da emissora anualmente. Como nos três primeiros anos a rede deu prejuízo, Boni se contentou com retiradas esporádicas do caixa quando havia dinheiro no caixa.
Em entrevista para a ‘Veja’ em 1997, Boni disse que “A pulverização das TVs permitirá que se arrisque mais, que se façam programas e canais experimentais”.
Naquela entrevista, Boni deu indicações de que mudaria o tripé “novela–notíciario–novela” se possuísse sua própria rede. “É preciso imaginar uma nova programação, tentar preparar a televisão para as modificações tecnológicas importantíssimas que estão ocorrendo”, disse ele.
Boni disse que a pulverização da televisão pode democratizar o meio. Mas pode levar também ao efeito contrário: a irrelevância. Em vez de ser um instrumento de moldar a opinião pública, a pulverização talvez a desarticule.
O oposto da TV aberta de hoje é a TV de consulta, que já acontece com algumas emissoras de cabo, como a CNN e a Globo News. Onde a pulverização pode ter um aspecto positivo, e aliás já tem, como no caso da New York One, é na TV comunitária, quando ela parte para cobrir os problemas de uma cidade. Boni prossegue: Esse é um tipo de televisão que eu gostaria de fazer. Não acredito nessas televisões de noticiários internacionais cada vez mais genéricos, feitos para hóspedes de hotéis, notícias que não são ditas na sua língua. Acredito no enraizamento da televisão em comunidades, cidades.
Na entrevista de 1997, Boni reclamou que o sistema de licitação de canais por leilões e pontos estava correto, mas “acabava privilegiando o bispo Edir Macedo”.
Seis anos depois, Boni voltou a ser entrevistado pela ‘Veja’, e falou sobre a inauguração de sua própria emissora, a TV Vanguarda. Ele reflete as posições sobre pulverização do meio TV que mencionou na entrevista de 1997:
“Veja – Quais são seus projetos atuais?
Boni – Tenho duas concessões de televisão na região de São José dos Campos, cobrindo 46 cidades. A partir dessa base, pretendo pôr uma emissora que batizei como TV Vanguarda para funcionar, em agosto. Trabalho como consultor para o hospital Albert Einstein, de São Paulo, que está produzindo programas numa rede interna para seus pacientes. Finalmente, tenho pensado muito sobre a questão da interatividade. Estou testando, juntamente com uma grande operadora de cartões de crédito, um cartão e um aparelho que permitem fazer compras diretamente de casa: você vê o anúncio, passa o cartão no aparelho, digita um código e elimina todos os intermediários. E não é só isso. O cartão também permite que se armazenem inúmeras informações sobre seu dono.”
Gugu quer combinar notícias com entretenimento
O apresentador Gugu Liberato também busca criar sua rede de emissoras. No final de 2001, Gugu acertou a compra de uma concessão em Cuiabá, criada em concorrência pública aberta em 1998. Gugu não participou da licitação, que acabou sendo vencida pela empresa Pantanal Som e Imagem Ltda. A outorga saiu em junho de 2001, mas só na última quinta–feira foi aprovada pelo Senado Federal.
Gugu Liberato é obcecado por ter sua própria rede de TV. Atualmente, disputa seis licitações. Está montando estúdios e se prepara para co–produzir novelas. O canal já é um passo importante para esse projeto. Gugu pode agora conquistar retransmissoras em cidades grandes, que exibiriam a programação produzida em São Paulo e gerada em Cuiabá. Não sei ainda se vou retransmitir alguma rede ou se vou gerar programação própria, pois isso exige um estudo de custos. Se eu conseguisse montar uma rede com retransmissoras próprias e afiliadas, poderia até voltar a pensar em lançar um canal de notícias aberto, uma mistura de CNN e E!, revela o apresentador.
Gugu teve problemas legais com a concessão em 2002 e reclamou da inação do Ministério das Comunicações para tentar cassar mandado de segurança que lhe devolveu concessão de TV no Mato Grosso.
Outro projeto de Gugu também não deu certo, a parceria com a TV Record (de Edir Macedo) para a co–produção de telenovelas. De acordo com o colunista Daniel Castro, do jornal Folha de São Paulo (05/06/2003), um sócio português da produtora de Gugu, a GGP, desistiu do negócio. [Webinsider]