Criação

A incrível arte de produzir salários

31/07/2003 0:00

Por: Michel Lent Schwartzman

O que acontece no lado de lá (ou de cá) para aquele dinheirinho pingar magicamente todo final de mês na nossa conta?

Desde pequeno, a gente é sempre ensinado a funcionar dentro de um mesmo padrão. Estude, se supere, tire seus diplomas e sua recompensa virá. Algum grande ‘pai’ irá te pinçar no meio da multidão. Te dará um cargo, uma cadeira, uma função e um salário pingará magicamente na sua conta corrente a cada fim de mês. E a vida será simples.

Com o dinheiro, você compra uma casa, seu carro, tem seus filhos e pronto. Tudo isso em recompensa à sua maravilhosa performance acadêmica, puro reconhecimento pelo seu esforço. Uma perfeita meritocracia.

Já ouvi dizer que isso um dia funcionou. Em alguma época não muito distante do nosso tempo. A escola preparava a sociedade para alimentar as posições das empresas criadas pelos…

Perai. Se a gente entra na escola, estuda e um dia alguém dá um emprego pra gente, quem é que dá o emprego pra quem deu o emprego pra gente? A pergunta é quase aquela do ‘se Deus criou tudo, quem criou Deus’?

Complicado né?

Seria curioso não perceber o quanto isso tem impacto no mundo em que a gente vive hoje: um lugar praticamente tomado por gente que foi treinada pra procurar emprego, mas não pra criar empregos. Um mundo onde sobra gente procurando e falta gente fazendo, inventando, criando, fora da formato tradicional que nos ensinaram na escola. Porque na escola a gente aprende montes sobre trigonometria, biologia, afluentes do rio Amazonas, mas não tem uma aula sequer sobre como montar uma empresa, se posicionar no mercado, administração, nada.

Encarando a realidade de hoje vemos: não tem emprego. E o que é pior, não dá nem pra botar a culpa na ‘crise’. Porque com crise ou sem crise, o modelo de funcionamento do mundo está mudando. Os sistemas se automatizando, a tecnologia permitindo o trabalho descentralizado, relacionamentos à distância, tudo modular. E o pior, tem muito mais gente procurando do que inventando emprego.

Cada vez mais, cada um precisa ser dono do seu próprio emprego, inventar o seu próprio negócio, encontrar o seu único caminho, compreender sua função na cadeia de serviços e fazer com que os outros percebam a sua relevância no sistema.

Quase sem perceber e mesmo sem querer, me vi de volta na posição de praticar a “incrível arte de produzir salários”. Transformar os dias de prospecção, negociação, orçamentos, atendimento, posicionamento, planejamento, produção e cobrança em um fluxo constante e (se Deus quiser) ininterrupto de salários depositados todo final de mês, nas contas da turma que ajuda a fazer o negócio acontecer.

Fazer isso simplesmente, sem deixar transparecer pra todos, o que é que realmente acontece do lado de cá, seria repetir o ‘erro’ que nos ensinam na escola: de acreditar que o salário é mágico e parte de uma recompensa pela nossa excelência.

É fundamental que a gente tenha nosso dindim ali depositado magicamente no final do mês, principalmente enquanto estamos crescendo profissionalmente e ganhando bagagem. Mas é imprescindível compreender que não há mágica, não há recompensa, não há pai. Somos todos parte integrante de um sistema que precisa funcionar.

E acima de tudo, precisamos entender como é que funciona esse sistema pra gente saber se posicionar e quem sabe, aumentar a turma dos “magos produtores de salário”, diminuindo a fila da procura e ajudando a empregar e ensinar a turma nova que vem por ai.

Complicado, né? [Webinsider]

Sobre o Autor

<strong>Michel Lent Schwartzman</strong> (michel@lent.com.br) </a> é publicitário e especialista em mídias interativas.

Url original: http://webinsider.uol.com.br/index.php/2003/07/31/a-incrivel-arte-de-produzir-salarios/
    Publicada em: 31/07/2003 0:00
    Impresso em: 28/11/2009
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