O mundo como criado por um publicitário
16/03/2003 0:00Por:
Momento distração: circula por e–mail um texto que sugere que o mundo foi criado a toque de caixa por uma agência de publicidade, a pedido de um cliente misterioso. Não é à toa que não funciona.
Mais um daqueles e–mails de autor desconhecido que circula entre publicitários debochando do processo de criação das agências, que pode ser bastante absurdo. A começar pelo briefing simplificado como costuma cair na ponta final de quem tem trabalha em regime quase fabril (sem os benefícios e horários estruturados dos operários), seguido pelo desenvolvimento nonsense.
Este texto não é tão agudo como aquele do sapo cor–de–rosa (Nos bastidores de uma campanha continental), mas não deixa de ser divertido. Foi enviado pelo Pedro Frazao, que também escreveu um comentário, lá no final do texto. Segundo o leitor Wilson Rodrigues, “o texto é do Carneiro, redator de mão cheia, espero que bolso idem”. Lá vai:
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Não resta a menor dúvida: Deus trabalhava na criação de uma agência de propaganda e criou o mundo por obrigação profissional! A troca de e–mails deve ter sido mais ou menos assim:
De: Atendimento
Para: Deus
Pedido: Favor criar o mundo.
De: Deus
Para: Atendimento
Briefing incompleto. Solicito informações mais detalhadas.
De: Atendimento
Para: Deus
JOB
O cliente solicitou que o mundo fosse redondo, colorido, que fosse claro durante o dia e escuro pela noite. Pediu muita água nos rios e mares e nenhuma nos desertos. Quer que no verão faça calor e frio no inverno. Quer plantas que cresçam na terra e animais que respirem. Montanhas altas, depressões baixas e planícies planas.
RESTRIÇÕES
O cliente não quer acontecendo ao mesmo tempo chuva e sol, a não ser por ocasião de casamento de espanhol.
MÍDIA
O cliente pretende fazer uma inserção deste mundo no sistema solar e deixá–lo rodando lá por tempo indeterminado.
OBRIGATORIEDADES
Nós tentamos tirar essa idéia da cabeça dele, mas não houve jeito, ele bateu o pé: quer colocar gente no mundo.
De: Deus
Ah, essa não! Como é que eu vou trabalhar desse jeito? Não vai caber! É muita informação para um mundo só. O ideal é fazer um mundo e uma luz para dividir as informações. Além do mais, gente no mundo nós sabemos que não dá certo. Nós podemos deixar as pessoas na lua e para o mundo a gente retoma aquela idéia dos Incas Venusianos.
De: Atendimento
O Cliente aceita a idéia da lua, mas só para enfeitar, controlar mares, orientar cortes de cabelo e fazer agendas. Todo o resto ele continua querendo ver dentro do mundo, inclusive gente.
De: Deus
Já estou vendo que esse cliente é do tipo buraco negro!
De: Atendimento
Também não é assim. É que ele nunca fez um mundo antes. Ele não tem idéia de como toda essa coisa funciona. A gente peita, mas até um certo limite. Se ele quer pôr gente no mundo, OK. Ele está pagando e acha que o ser humano pode dar certo. Vamos tentar?
De: Deus
OK. Eu faço o trabalho. Qual é o prazo?
De: Atendimento
Ah, graças a Você! Quanto ao prazo, está estourado. Você só tem 7 dias para criar o mundo.
De: Deus
Impossível! Não dá! Isso aqui não é padaria e a pauta está lotada! Eu preciso de mais prazo. Em sete dias ninguém consegue fazer um mundo decente.
De: Atendimento
A questão é que se não estiver pronto daqui a uma semana, o cliente vai perder o espaço reservado. Infelizmente, não tem outra alternativa. Estamos com o faturamento de fevereiro em baixa. Deixa para ganhar Grand Prix no Salão com outros trabalhos. Daqui pra frente você pode criar mundos melhores.
De: Deus
Isso é um absurdo! Um mundo não se cria assim, como quem apaga uma estrela. É um processo delicado, que exige tempo. Ou a Gente faz como tem que ser feito ou esse mundo está perdido.
De: Atendimento
Você está exagerando. É só um mundo. Coisa pouca. Se fosse um sistema solar, uma galáxia, vá lá. Mas um mundinho destes? É querer gastar energia demais numa poeira cósmica.
De: Deus
Bem, lavo as minhas mãos. Mas quero deixar registrado aqui o Meu protesto. E é bom que não se esqueça mais pra frente, que se alguma coisa der errado foi porque, desde o princípio, o briefing entrou errado. Até Eu duvido que vá sair alguma coisa boa disso.
De: Atendimento
Você me livre, vire essa boca pra lá! Se Você quiser, tudo vai dar certo. Aliás estamos tão confiantes que vamos fazer um making off escrito. Tipo um livro contando como tudo começou e etc. E não se preocupe, Você vai ficar com todos os créditos. Não esqueça, hein? Você tem apenas sete dias.
De: Deus
Olha, pra ser franco, esse cliente não merece coisa melhor. Vou matar esse trabalho rapidinho e tirar da frente. Em seis dias eu crio o mundo e ainda vou ter um dia pra descansar.
De: Atendimento
Você é quem sabe. Também podemos ir pensando numa campanha de manutenção…
De: Deus
Nem pensar! Se precisar, depois Eu mando Meu filho lá pra dar uma olhada…
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Para fechar, o comentário do Pedro, que já trabalhou em agência e hoje está no departamento de marketing e comunicação de uma grande consultoria: “Agora para pensar: só aceitamos fazer trabalho sem prazo porque se não fizermos, outros farão. Só aceitamos trabalhar mal remunerados porque se não aceitarmos, outros aceitarão. Mas quem será o primeiro a dizer não? Será que é utopia querer trabalhar dignamente em uma agência ganhando o justo?
Imagine um publicitário recebendo todo dia 15 e 30 de cada mês, com participação nos lucros, benefícios, carteira assinada, férias, 13º, hora extra e respeito ao horário de saída às 6h da tarde. É, isso deve ser utopia, mas alguém tem que dar o primeiro passo. Eu não agüentei o tranco, e virei cliente. Se isso mudar, eu volto a ser agência. Parabéns a quem agüenta o tranco.” [Webinsider]
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