Analfabetos digitais maltratam o português
31/03/2002 0:00Por:
Não estamos falando dos sem acesso ao computador e à internet, mas daqueles que têm coragem de enviar e–mails contendo frases como opa kra intaum vamu faze a coisa tipo comu vc conseguiu akilo".
É muito comum ler matérias e comentários sobre os analfabetos digitais, pessoas cuja distância do mundo digital garante a mesma falta de futuro reservada aos que não sabem ler e escrever. Não discordo do tema, mas ao trocar milhares de e–mails com usuários de um site que mantenho, descobri que existe um outro tipo de analfabeto digital, o que sabe ler e entende de computador, mas não passaria em um exame de escrita da primeira série.
Não me considero um ótimo escritor e muito menos professor de português, mas o que venho percebendo me assusta um pouco. Não sou chato com o português, já aceito com certa naturalidade “Falow” (falou), “Temais” (até mais), “se cv quize” (se você quiser) e até mesmo “Dae Kra Blz?” (E aí cara, beleza?). Bons exemplos de simplificações ou firulas com a sonoridade da palavra, próprio de uma tribo urbana qualquer. Também não ligo mais para os que viraram parte da linguagem dessa nova tribo, como por exemplo trocar a acentuação como vemos em “eh” (é), tah (tá) ou entaum (então) e naum (não).
Mas com o site, troquei muitos e–mails com todo tipo de gente e percebi que a quantidade de erros grosseiros é muito grande – erros como “para bens” (parabéns), “ssena” (cena), “deminuisse” (diminuisse), “isentivar” (incentivar), atraz (atrás), fike (fique). Alguns até parecem forjados, mas infelizmente não são.
Às vezes, e–mails inteiros pareciam ter saído de um personagem de programa de humor, aqueles bem sem graça das tardes de sábado. Quem sabe criptografados, para que ninguém possa entender o conteúdo. Um exemplo: “mais tipo.. opa kra intaum vamu faze a coisa tipo.. ae tipo comu vc conseguiu akilo”.
Realmente não sei explicar o porquê desse cenário. Poderia achar razões na velocidade com a qual escrevemos, na quantidade de informação e de tarefas que fazemos ao mesmo tempo, mas na verdade só consigo dar desculpas para as novas abreviações, como por exemplo “vc” (você) e “tc” (teclar).
Eu já tive um exemplo próximo, um amigo, que não era mais moleque (o que o isentaria de certa culpa). Sempre que eu conversava com ele pelo ICQ dava de cara com frases dolorosas como “Vc ta’ boum?” (Você está bem?) e outros absurdos. Não adiantou reclamar e puxar a orelha dele, que com sorte e com o tempo arrumou um bom emprego e assim as coisas aos poucos mudaram da água para o vinho. Foi um tratamento de choque, mas tenho certeza que fez muito bem a ele. Pelo menos aprendeu a conversar direito, a se expressar melhor.
Talvez no fundo tudo se resuma a isso – computadores não fazem milagres. Quem não sabe se expressar, não aprende porque manda e–mail ou ICQ. Se a pessoa por algum motivo evolui, como meu amigo, ótimo; senão apenas aprende a digitar os erros com mais velocidade.
Temos muitos exemplos públicos de pessoas que também não sabem falar ou se expressar, entre atores, atrizes, novos famosos, apresentadores etc. Mas levantar alguma tese culpando este mau exemplo seria espaço para um novo texto. [Webinsider]