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Fernand Alphen
Webvertising

Quando a propaganda é intolerável

12 de julho de 2009, 21:38

Quando ela é intoleravelmente invasiva ou masturba a marca, dá muita vontade de sabotar.

Por Fernand Alphen

A propaganda é baseada em um princípio sagrado, o da tolerância.

Trata-se de uma espécie de toma-lá-dá-cá. “Aceito ser impactado por algo que não quero, em troca de algo que quero”. Simples assim. É baseadas nesse princípio que funcionam quase todas as mídias: a TV aberta e o rádio, por exemplo. A internet também. Os outros meios, como a TV por assinatura, o jornal e a revista, embora não sejam gratuitos, são tolerados porque o valor pago parece irrisório quando comparado aos benefícios oferecidos.

No entanto, quando o valor pago pelo serviço solicitado ou desejado parece desproporcional à mensagem “não desejada”, a propaganda é intolerável.

É o que acontece, lamentavelmente, com quase toda propaganda chamada “below the line”, eufemismo publicitário para qualificar a propaganda invasiva, como a propaganda veiculada em aviões, o que vem sendo praticado de forma pornográfica por algumas companhias aéreas. É propaganda na mesinha, no encosto do assento, e, suprassumo do mercantilismo selvagem, nos lanches patrocinados. É mais uma vez uma questão de proporção: passagem aérea não é algo irrisório quando comparada ao bombardeio publicitário a que deve se sujeitar o passageiro.

O mesmo acontece com a prostituição visual da mídia exterior gratuita que, sorte nossa, está sendo banida das nossas retinas (exceção dada aos relógios, pontos de ônibus, sinalização e outros mobiliários). O que falar então da festejada mídia indoor, dos monitores mudos dos ônibus urbanos, dos malhos feios nos shopping centers, dos mictórios decorados com televisão de plasma? Promiscuidade comercial e vulgarização do tempo.

Lamentavelmente, muita gente ainda defende a propaganda da forma mais selvagem possível: a efetividade é proporcional tão somente ao impacto visual e sonoro. Para esse tipo de troglodita, é o tamanho da voz que determina o resultado. E pouco importa se a voz está gritando, poluindo, estressando ou insultando. É a lei bruta do mais forte ou do mais esperto.

A lei da exploração safada da fragilidade alheia: que alternativa nos resta a não ser ler que uma marca de carro está lançando um modelo novo, uma empresa de consultoria é a melhor do mundo e a sopa de saquinho é feita de improváveis ingredientes naturais?

Mas há outro tipo de propaganda. É aquela admite que, embora por vezes haja tolerância, mesmo assim a invasão precisa ser compensada. É aquela que sabe que a mensagem deve servir antes àqueles que irão consumi-la e depois àqueles que a financiam. É aquela que entende que propaganda pode ser conteúdo, pode ter um sentido para além do tamanho da voz e da simplória informação: é a propaganda que diverte e emociona sem precisar lustrar o umbigo da marca.

Quando ela consegue isso, então ela assume uma dimensão cultural, ela é referência e inspiração. Essa transcendência além de responsabilidade, engendra um potencial comercial muito mais rentável porque a mensagem incorpora a linguagem comum e as mentalidades. Aí sim pode se falar de “investimento” e não “despesa” publicitária.

Propaganda pode ser muito mais do que egotrip e gozo autoprovocado. Quando o desserviço é tal, quando a propaganda masturba a marca, ou o marketing ou o publicitário que a cria, dá muita vontade de proibir ou sabotar. [Webinsider]

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Sobre o autor

Fernand AlphenFernand Alphen (falphen@fnazca.com.br) é diretor de Branding, Planejamento e Pesquisa da F/Nazca S&S e mantém o Fernand Alphen’s Blog.

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Comentários

6 pessoas comentaram o artigo "Quando a propaganda é intolerável"

Highlander Data: 12/07/2009 às 10:21 pm

Atividade: Webmaster

Cidade: São Paulo

Interessante o artigo, mas eu esperava um aprofundamento maior no absurdo que se tornaram as propagandas na TV Paga.

Vários canais “lotearam” diversos horários da programação pelos quais NÓS pagamos.

XISDE Data: 13/07/2009 às 1:50 am

Atividade:

Cidade:

Bem, tem os “três lados da moeda”:
1) Você vai financiar diretamente obras do metrô, melhoria no transporte coletivo, etc? Não? Então deixe a propaganda financiar. Não gostou, leia um jornal. Só não concordo com anúncios sonoros em coletivos, pois acabam por ser uma forma de tortura (crime contra os direitos humanos). É óbvio que não vou entrar no mérito de desvio de verbas, mau gerenciamento, etc; não faz parte do assunto. Este é o ponto para o tal do “alguém tem que financiar isso”.
2) O Highlander já comentou esse: vc paga canais de TV para ver…propaganda? Propaganda por propaganda, prefiro a gratuita, ou melhor ainda: desligar a TV. Por que então eles não pagam TV a cabo pra mim (pra todos), não é mesmo?
3) Quando a instituição não tem a mínima noção do que seja CRM. Essa é ofensiva, insultante, insuportável, anti-ecológica e também atenta contra os DH. O sujeito, ganhando salário mínimo, recebe em casa, propaganda do banco: “financie seu automóvel”. Depois, ganhando 2 salários mínimos, recebe outro tipo de propaganda, do mesmo banco, em casa: “financie sua casa própria”. Aconteceu comigo e encerrei a conta, pois só podiam estar me xingando de imbecil…

Luiz Pryzant Data: 13/07/2009 às 12:10 pm

Atividade:

Cidade: São Paulo

A TV paga é um surrealismo: vende para quem já comprou! interrompem um seriado para exibir uma chamada da própria série ou interrompem a programação do canal para propaganda do próprio canal!…olha só, eu estava gostando de assistir quando vc veio atrapalhar pedindo para eu assistir!

Os canais pagos pegaram o vírus Polishop, vendem máquinas para fazer suco mandioca em pequenas parcelas.
O ridículo maior cabe ao aviso que suco de mandioca é tóxico e não se deve tentar fazer em casa!

Nicolau Data: 16/07/2009 às 11:44 am

Atividade:

Cidade:

Xisde,

Metrô e transporte coletivo, só para citar dois exemplos, são atribuições do governo, seja estadual ou municipal. Se o governo não tem dinheiro para manter, privatize, não nos torture.

Os canais pagos são surreais. Como já foi dito, assino na Net para ver propaganda dizendo para eu assinar a net e por aí vai. Sem contar que cada canal a cabo deve ter mais ou menos meia dúzia de propagandas. Ou seja, para assistir uma hora da mesma meia dúzia. Ou pelo menos quatro vezes de cada. Já cheguei a ver duas vezes a mesma propaganda no mesmo intervalo. Incrível! Não há como reclamar? Talvez pagar o proporcional ao que é realmente conteúdo?

abs

Henrique Burity Data: 12/08/2009 às 5:34 pm

Atividade:

Cidade:

Bom, para os críticos da publicidade em TV Paga, qual a diferença entre esse método e os anúncios em jornais e revistas? Em ambos voce paga e leva a publidade com voce. Ok, a da TV Paga é mais irritante porque voce nao tem opção de pular a página, mas o conceito é o mesmo.

Mas essa não seria uma forma de subsidiar nossos serviços? Será que conta da TV Paga fecharia com o preço que cobra e sem ganhar com anúncios? E o custo de uma passagem de avião? Será que não fica mais barata com os anúnios?

Talvez o ganho com publicidade seja uma forma “moderna” de compor o custo de um serviço, tornando-o mais competitivo ou até mesmo viável.

Alexandre Bigaiski Data: 13/08/2009 às 3:17 pm

Atividade: Webwriter | Publicitário

Cidade: Curitiba

Com base no princípio de que quanto mais uma marca é vista, mais ela fica gravada na cabeça das pessoas, a publicidade “masturbadora da marca” faz sentido. Entretanto, eu acho que não é desta forma que uma marca se torna realmente top of mind. A qualidade, a atenção que a marca dá aos seus consumidores, a atenção do atendimento ao consumidor do produto e/ou serviço, também influenciam, e muito, a concretização do top of mind.

Poluição visual e sonora, ninguém gosta. Mas às vezes temos de suportar certas coisas para ganharmos outras em troca. Se a TV aberta não fosse financiada pela publicidade, provavelmente não existiria TV aberta. Todos nós teríamos de pagar para assistir TV.

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