A variedade do invariavelmente inútil
27 de maio de 2009, 20:59Tentamos acompanhar tudo, mesmo reconhecendo que o excesso de oferta no final das contas não acrescenta muito. Difícil discernir o que é realmente necessário em nossa vida.
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O mercado produz cada vez mais novidades para um número cada vez menor e incapaz de consumidores. Penso eu que se o economista Thomas Malthus estivesse vivo, provavelmente esqueceria as asneiras que envolvem produção de alimentos para dar vazão ao que temos de mais evidente: a produção de novidades.
Essas novidades têm se desenvolvido em progressão geométrica, enquanto suas relações com os indivíduos crescem em progressão aritmética. Cresce também o número de alternativas de produtos a consumir de forma desproporcional à quantidade de pessoas dispostas a consumir estes mesmos produtos de uma só vez.
Se no mundo real a variedade é quase infinita, no virtual não há mais horizontes. Já faz quase cinco horas que tento escrever este texto, mas me perco entre portais de informação, conversas paralelas nos inúmeros bate-papos em que estou adicionada, redes de relacionamentos virtuais e outras gamas de possibilidades que tenho disponível, em alguns cliques, só para mim, neste universo digital. Nada me deixa concentrar no mais essencial agora, que é escrever este texto.
As variedades das inutilidades me incomodam.
Nas prateleiras de qualquer supermercado, notamos como se valem os marqueteiros de recursos escusos apenas para tentar convencer o consumidor a “adquirir” as inutilidades cotidianas.
Quantas marcas do bom e velho papel higiênico usam como trunfo artifícios como cheiro, cor e texturas “diferenciadas”, algumas com extrato de pêssego, óleo de amêndoas e vitamina E, entre outras desnecessidades? Há uma marca que, inclusive, traz uma linha chamada de “Naturali”, mais absurda ainda: “Mais frescura para a sua vida. Suave para a sua pele e para o planeta”.
Na internet, são cada vez mais e mais redes sociais, surgindo dia após dia. Confesso ainda não ter capacidade suficiente para me relacionar com tantas pessoas, tantas comunidades, indivíduos tão diferentes que nunca terei a oportunidade de conhecer pessoalmente e que, com apenas um clique, já fazem parte da minha rede de amigos.
Outro dia me indicaram visitar um site chamado Petkurt. Segundo a própria descrição da comunidade, é um espaço online que conecta você e seu “pet” a outros donos. Será que uma comunidade no Orkut não bastava?
Imagino-me, daqui a poucos meses, tendo entre meus amigos adicionados diversos Totós, Xuxas, Princesas, Rex e outros. O meu gato Mel, por exemplo, ainda nem aprendeu a falar, quanto mais a ler e a digitar – porque escrever é coisa do passado, aparentemente. Talvez meu falecido cachorro Harry vá receber scraps de amiguinhos do mundo todo, com mensagens de boa eternidade para ele. Faz algum sentido?
As opções para tudo são tantas que chegam a me deprimir. Nunca consigo chegar a uma conclusão na hora da escolha. Pior, sempre tenho a certeza que fiz a escolha errada.
A moda, por exemplo, permite-me cada vez mais o uso de tudo, deixando-me confusa e cansada a cada momento que preciso trocar modelitos, cores, sapatos, bolsas, maquiagens e batons a cada ocasião. Não seria mais fácil e prático ter apenas duas, quem sabe três opções para cada coisa?
Quando penso ter escolhido a opção ideal, sempre me aparece um vendedor chato ou um intrometido da conversa alheia a me mostrar um “mais moderno”, “com mais funções” ou “mais detalhes”. Resultado, sempre acabo perdendo mais tempo do que o suficientemente necessário na escolha de qualquer ínfima coisa.
Isso sem falar na gama de possibilidades na hora de comprar modernos aparelhos de televisão, celulares, sons, computadores.
O excesso de oferta de tudo – informação, relacionamento, papel higiênico, cachorros online – é tão completamente dispensável que, ao final das contas, não agrega nada em nossa vida. Se escolher é difícil, hoje mais difícil ainda é discernir o necessário em nossa vida. [Webinsider]
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1° Joao Emanuel Data: 28/05/2009 às 6:42 am
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Este problema ocorre no Linux também. E o pior é que maioria acha tal miguxo isso. Que saco!!!