Por que tenho que pagar pelo meu jornal?
31 de março de 2009, 16:16Questões a serem resolvidas entre o jornalismo e a publicidade.
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Luís XVI deve ter se sentido assim. De um lado, os ventos da modernidade a soprar inclemente; do outro, o povo clamando por sensatez. No centro da questão, o dinheiro - sempre ele - a fazer a roda do tempo girar mais uma vez.
Estou pregando a Revolução? Nem é preciso, amigos. Fato é que, à luz dos acontecimentos dos últimos anos, os jornais impressos observam em pânico, da sacada de um Versalhes digital, o perigo se aproximar. E se movimentam na penumbra, em passos minuciosamente estudados, cuidando para não disparar um novo “se não tem pão, sirvam brioches”. É feia a coisa.
De um lado, uma questão ancestral, que nos remete à era moderna do jornalismo: antes da web, não havia opção se eu quisesse consumir informação confiável. Era preciso pagar para ter acesso à apuração bem feita, ao texto claro e inteligente. Pagávamos sem pensar, e ao longo das últimas cinco décadas virou fato do dia-a-dia do cidadão do mundo inteiro comprar um jornal. Vai-se à banca de manhã cedo ou o exemplar é depositado na porta de casa, antes do café da manhã. Em troca, dinheiro, e ponto final.
Do outro lado, as versões online dos jornais surgiram com a web, começando a rivalizar com as de papel. Tentativas foram feitas para se cobrar pelo conteúdo, mas o público chiou. Vieram os blogs e os jornais foram obrigados, com o tempo, a entendê-los e até a contá-los como ferramenta de trabalho. A notícia, agora, circulava em bilhões de minúsculos pedaços, em uma realidade virtual em que o controle da informação começava a escorrer por entre os dedos.
No momento em que as grandes empresas começavam a pensar, ainda aturdidas, em um novo modelo de negócios em que a notícia ao menos pudesse encontrar nas grifes jornalísticas – e em tudo o que isso significa – uma base sólida que justificasse ser trocada por dinheiro, veio a Crise. E tudo começou a ruir.
Graves questões vêm à tona. Se não estamos mais no alvorecer do ciberespaço, mas no fim da infância da web, e neste cenário encontro, sim, informação confiável espalhada pelos mil cantos da Rede, por que tenho que pagar pelo meu jornal? Afinal – e aí ressurge a principal questão, vinda do início da era do jornal pago – é a junção notícia/publicidade que mantém um jornal vivo e um produto nas prateleiras, não é? Foi desta troca que surgiu o modelo de negócios de sucesso que sobrevive até hoje.
Mas, pare e pense: se um produto quer ser visto, por que *eu* devo pagar por um veículo que “transporta” este anúncio e tantos outros? Se o produto quer visibilidade, ora bolas, que o jornal me seja oferecido de graça! O anunciante paga o espaço ao jornal – aí sem faz sentido – mas ele me chega gratuitamente.
Ao longo de muito tempo, havia um conformismo (bastante incômodo) que justificava que se pagasse por um impresso: por mais que fizesse sentido a troca jornal/anunciante, não havia jeito para que se tivesse acesso à notícia de qualidade, era preciso pagar. Se não havia saída, era no próprio bolso que tínhamos que mexer, mesmo.
Em 2009, estas e outras questões não apenas vêm à tona, mas começam a incomodar seriamente – a todos, a bem da verdade, e não apenas a jornais e anunciantes:
- Já é possível um leitor confiar no que lê na internet, diariamente?
- Teria chegado o momento de reproduzir gratuitamente na Rede tudo o que se paga para ler no jornal, e desistir de recriar na web o modelo do impresso?
- No impresso, será que as empresas jornalísticas sobreviveriam sem as assinaturas, seria possível bancar a qualidade da notícia apenas com os valores dos anúncios?
- Este novo modelo daria certo com empresas jornalísticas de médio e pequeno porte?
- E, ponto mais preocupante, como sobreviveria o jornalista neste cenário?
Tantas questões, quanta incerteza. Por mais que saibamos que momentos de mudança pedem criatividade e jogo de cintura, será que ainda há tempo para negociar com quem que clama por novos paradigmas (o leitor), ou só resta, mesmo, um fim trágico para o jornal impresso e pago? [Webinsider]
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1° Julio Data: 31/03/2009 às 7:11 pm
Atividade: jornalista
Cidade: Santos/SP
Os jornais gratuitos estão aí para provar essa sua tese, de que eu não preciso pagar por um jornal cheio de publicidade (edições de fim de semana dos jornalões são ABSURDAS com aquele monte de anúncios imobiliários), já que ela pode sustentar a publicação. Mas enquanto isso não vira realidade por completo, continuo a separar parte do orçamento para consumir a imprensa melhor apurada, mas que nem por isso deixa de ser tendenciosa.