Concurso público pede ITIL e COBIT. Precisa tanto?
05 de março de 2009, 11:36Opinião: concursos públicos para profissionais de TI exigem conhecimentos em boas práticas em serviços ITIL e em governança de TI COBIT. É uma exigência realmente importante? Você concorda?
Por
Engana-se quem pensava que as onerosas certificações de TI (Tecnologia da Informação) eram exigidas apenas no mercado corporativo e nas grandes multinacionais. Recentes concursos públicos de nível federal com editais publicados no Brasil passam a exigir do candidato a áreas específicas, além do imenso conteúdo geral, conhecimentos em boas práticas em serviços ITIL e em governança de TI COBIT.
Estão abertas as inscrições para o concurso público do DNIT, Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes, vinculado ao Ministério dos Transportes. São duzentas vagas para todo o país, com salários pomposos de R$ 8.300,00.
Alguém pode pensar: “- Por que alguém que trabalha no DNIT precisará conhecer ITIL ou COBIT?”
Se ao leitor a exigência parece soar estranha, não é este o entendimento dos organizadores do edital: para os cargos envolvendo Diretoria de Administração e Finanças, Diretoria de Infra-Estrutura Aquaviária, Diretoria de Planejamento e Pesquisa, lá está a exigência, juntamente com um arcabouço tecnológico de difícil assimilação em anos de experiência:
“Gestão dos serviços contratados junto a empresas e fornecedores de soluções de TI: 1 Gerência de projetos: conceitos básicos; processos do PMBOK; gerenciamento da integração; gerenciamento do escopo; gerenciamento do tempo; gerenciamento de custos; gerenciamento de recursos humanos; gerenciamento de riscos; gerenciamento das comunicações; gerenciamento da qualidade; gerenciamento de aquisições. 2 Conceitos de segurança da informação: conceitos básicos; Normas ISO 17799 e 27001; políticas de segurança; análise de vulnerabilidade; plano de continuidade de negócio; procedimentos de segurança; classificação de informações; auditoria e conformidade. 3 Gerenciamento de serviços de TI: fundamentos da ITIL® (Versão 2); ITIL ® - suporte a serviços (versão 2); ITIL ® - entrega de serviços (versão 2); fundamentos de COBIT. 4 Arquitetura e tecnologias de sistemas de informação: conceitos básicos; Workflow e gerenciamento eletrônico de documentos; Arquitetura cliente-servidor; Arquitetura orientada a serviço; Arquitetura distribuída; Arquitetura de grande porte; Datamining; Datawarehouse. 5 Gestão de processos de negócio: modelagem de processos, técnicas de análise de processo; melhoria de processos; integração de processos. 6 Conceito de banco de dados: arquitetura; estrutura; administração. 7 Conceito de rede: noções de arquitetura; noções de estrutura; noções de administração. 8 Indicadores de desempenho: conceito; formulação; análise; Balanced Scorecard (BSC); Matriz SWOT. 9 Conceito de linguagens de programação: noções de Lógica; noções de estrutura de programação; linguagens de Script (Shell, SQL , JCL, BAT, VBS). 10 Qualidade: noções da Norma ISO 9001-2000. 11 Conceito de armazenamento de dados: noções de Rede SAN (Storage Area Network); Switches e Directors Fiber Channel; sistemas de fitoteca; sistemas de armazenamento em disco.”
A mesma exigência aparece no concurso aberto pela Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários), que oferece 140 vagas à R$ 8.389,60 cada. Mas aqui é pior: ITIL é exigido para o cargo de analista administrativo com especialidade em informática. Pasmem, analista, sem qualquer função gerencial ou de direção, tendo que conhecer a biblioteca de boas práticas. A preparação sai mais cara do que um mês de salário, pois não se conhece até o fechamento deste artigo qualquer cursinho preparatório que ofereça ITIL embutido!
Como se não bastasse a necessidade de ser um “rábula” da informática, bem como a exigência de um conteúdo inalcançável para o tempo oferecido, alguns editais ainda preveem para alguns cargos a necessidade de especialização latu sensu de 360 horas e comprovação de 3 (três) anos em gerência. Tenho uma vontade imensa de falar: “Estes concursos são classificatórios ou, efetivamente, eliminatórios?” ou “Quem já está lá dentro, tinha todas estas qualificações ou usou o dinheiro público para se atualizar?”
É, os “veteranos” devem ter um sentimento de “auto-inutilidade” ao constatarem que mesmo com tais exigências absurdas, muitos são os que conseguem vencê-la. Francamente, eu não teria “moral” para ser superior de um recém-concursado que passou em uma prova de fogo como estas. Infelizmente, moral no Brasil é mais que subjetiva!
Nada contra se exigir “super-heróis” nos quadros da administração pública, mas efetivamente quando vemos alguns profissionais que integram quadros das mais variadas áreas, no Brasil, salvo muitas exceções, sempre nos vêm a pergunta em mente: “Nossa, como foi que ele entrou?” e a resposta é sintomática: “Talvez na época dele a prova exigia datilografia básica”.
Seja como for, deve-se destacar a nossa maquiavélica, ancestral, biológica e até irracional conduta de dificultar para os outros o que já conseguimos para nós, em um descabido egocentrismo injustificável e inaudito, cujo resultado, em concursos públicos espalhados por este Brasil, lamentavelmente, já estamos cansados de saber qual é… Não é?
Mãos à obra, se acabe ou se relacione. E que Deus nos dê força para aceitar o que não podemos mudar. [Webinsider]
Informações sobre os concursos citados
.



1° Giovanni Giazzon Data: 05/03/2009 às 2:25 pm
Atividade: Gerente de Projeto
Cidade: Brasília
Caro José,
Como alguém que mora em Brasília, trabalha na iniciativa privada e convive com o universo de concursos (família, amigos e amigos de amigos), o excesso de exigência nos concursos é praxe. O que sempre dizem é que se for um concurso com poucas vagas, é sinal de favorecimento. Se for um concurso com muitas vagas, é peneira. Tome como exemplo o concurso da Anatel, que acontecerá esta semana: 240 vagas para mais de 90 mil inscritos. A taxa média (dependendo do cargo) está em 1/250. O nível elevado da prova reduz a quantidade de candidatos que alcançam a nota de corte (nota mínima para seguir à próxima fase). Assim, dos 90 mil somente 600 terão a redação corrigida (e reduzindo o trabalho da banca do concurso). Se não aumentarem o nível da prova, a quantidade de candidatos empatados na pontuação fica maior. Em um concurso recente, a prova de português tomou 2 horas dos candidatos..
Não quero dizer que concordo, mas realmente virou praxe. O senso comum aqui na Capital Federal é que você precisa de 2 a 3 anos de estudo para chegar ao nível suficiente de disputa efetiva a uma vaga.
Eu também me pergunto o que se passa na cabeça da equipe que formula uma prova de concurso. Mas, como você bem disse, que Deus nos dê força para aceitar o que não podemos mudar.
Grande abraço,
Giovanni Giazzon.