Começar de novo com o Blu-Ray
02 de março de 2009, 14:49Clássicos de cinema, preservados anteriormente em alta definição, são agora remasterizados novamente para uso em home video.
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Faz muito tempo (e bota tempo nisso) que eu fui assistir ao seminário sobre preservação de filmes, durante o Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. Logo depois da apresentação do primeiro palestrante, uma pessoa da plateia pergunta se o filme cuja restauração foi demonstrada sairia em DVD. E logo a seguir, eu aproveitei a oportunidade e perguntei se, depois da restauração feita, o resultado iria ser transferido para uma master de vídeo de alta definição.
A resposta que me foi dada, que eu prefiro não declinar aqui, criou desconforto e constrangimento, sanados poucos minutos depois. Mas eu ainda tive tempo de lembrar que era isso que os estúdios americanos estavam fazendo há muito tempo. E nesse dia, por uma coincidência estranha, o segundo palestrante era o diretor de fotografia Gary Graver, cujo trabalho com Orson Welles lhe deu o direito de tecer pesadas críticas à transferência para vídeo do clássico Cidadão Kane.
Graver citou, em particular, o contraste excessivo usado no ajuste do telecine, mudando completamente a intenção do cineasta, de ocultar detalhes da fotografia para a plateia. A passagem de filme para vídeo, portanto, não atende apenas a interesses comerciais, ela é um componente importante da preservação de filmes, e por causa disso mesmo, deve ser feita com o máximo de cuidado e critério possível!
Já faz tempo que os estúdios americanos vêm se dando conta da perda do legado deixado por Hollywood e seus antecessores. O movimento de restauração e preservação, a par das iniciativas, é resultado do envolvimento de arquivistas, técnicos em restauração, historiadores, instituições como cinematecas, universidades, bibliotecas, e até de diretores de cinema, como foi o caso notório de Martin Scorcese, que andou gritando que os filmes e negativos importantes estavam desaparecendo.
A preservação é uma obsessão norte americana
Ao contrário do que andou dizendo o “The History Channel” num dos seus documentários, o cinema não foi inventado por Thomas Edison. Na realidade, vários desenvolvimentos e pesquisas nesta direção ocorreram em várias partes do globo, mas acabou sendo dado aos irmãos Lumière o crédito de terem inventado a primeira câmera de cinema e de terem feito a primeira exibição pública de filmes em uma tela que se conhece.
O que é curioso é que Hollywood também não foi local onde o cinema norte americano começou. No entanto, a massa de projetos e os legados deixados ao longo dos anos, pelos estúdios lá localizados, são inegáveis. Para fazer do cinema uma arte completa, Hollywood importou de tudo: atores, diretores, métodos de fotografia (anamórfica, por exemplo), mas desenvolveu, ela própria, formas de linguagem e métodos fotográficos próprios (como o VistaVision, por exemplo) e o som multicanal. Deixar este material todo apodrecer é um crime que os americanos não querem e não irão cometer!
A participação e o uso do vídeo no processo preservacionista
A introdução do chamado “home video” trouxe ao cinéfilo ou mesmo ao consumidor mediano a oportunidade de comprar um filme e levar para a casa. A competição e a derrocada de Hollywood frente à presença da televisão, na década de 1950, acabaram por compelir os grandes magnatas em investir em mudanças tecnológicas radicais nas apresentações de filmes em salas de cinema.
Foi por conta disso que apareceram exibições em grandes telas e com o uso do som estereofônico. Mas, foi pela adaptação aos meios de propagação do material filmado que Hollywood conseguiu sobreviver até hoje. As receitas das salas de exibição continuam caindo, mas os lucros obtidos na venda de filmes em vídeo mantêm esses mesmos estúdios abertos. Portanto, ao se adaptar à televisão, Hollywood abriu as portas da mesma para avançar, por meios próprios, nas novas mídias.
Esta adaptação obrigou ainda os estúdios a estudar como um filme pode passar para o formato de vídeo sem adulterar as suas origens. Os métodos de telecinagem digital avançaram de maneira significativa nesses últimos anos, mas por outro lado obrigaram técnicos a se especializarem ainda mais. Existe um tipo de técnico, especificamente, o chamado “colorista”, que deverá ter conhecimentos tanto na área de fotografia, quanto na área de vídeo. Ele será responsável pela manutenção correta da cor gerada pelo negativo na fita master gerada após o filme ser transferido para vídeo.
É interessante notar que, mesmo no ambiente doméstico, alguns hobbyistas e fãs de cinema conseguem rapidamente identificar os erros de cor derivados da transcrição filme – vídeo. Foi esse o motivo, por exemplo, que forçou a Columbia a refazer completamente a edição em DVD de “Lawrence da Arábia”.
Em outros casos, existe uma polêmica que acabou obrigando arquivistas a revisar este material, para determinar se existe erro de cor ou não. No caso do clássico de John Ford, “The Searchers” (“Rastros de Ódio”), por exemplo, a edição em laserdisc tinha mais azul no céu do que a edição restaurada em DVD, e isso deu a impressão de que havia erro na transcrição.
Acontece que o erro foi cometido na edição em laserdisc, e corrigido depois com o novo negativo obtido da restauração, sem que mesmo o estúdio, admitidamente, ter se dado conta. Só depois do negativo examinado é que foi possível conferir se foi este de fato o caso.
Remasterizações para corrigir erros
As remasterizações são constantemente feitas nos estúdios, para corrigir diversos tipos de problemas. Com o advento do vídeo digital, formatos como o letterbox (widescreen em tela 4:3) se tornaram inaceitáveis, por conta da mudança de padrão de tela, e por conta da perda relativa de resolução (cerca de 33% a menos que a tela anamórfica).
Além disso, o processamento de “limpeza” digital da cópia de filme utilizada acabou por destruir detalhes em baixo relevo, necessários à apreciação da fotografia original. E esse tipo de problema é particularmente visível depois do advento do Blu-Ray. Em função dele, a cópia do filme “O Quinto Elemento” em Blu-Ray foi substituída pela Columbia/Sony e agora a do filme “Terminator 2”, pela Lionsgate. Em outros casos, como a transcrição de “Lethal Weapon” os erros de filtragem são tão gritantes, que mesmo a edição em DVD fica abaixo de qualquer padrão existente à época. Fazer um Blu-Ray com este mesmo vício acabou por torná-lo um produto de segunda categoria.
Remasterizações para recuperar filmes clássicos
Já não é de hoje que cineastas são chamados aos laboratórios de telecinagem, para verificar se seus filmes estão sendo corretamente transcritos. Mas, no caso de filmes que foram produzidos no passado distante, há uma necessidade de se fazer uma transcrição que garanta a preservação da imagem. E assim foi, com a adoção do telecine digital com duas mil linhas de resolução (2 K), e posteriormente com quatro mil linhas de resolução (4 K).
O problema, porém, é que não é somente a resolução em si que entra em jogo. A varredura quadro a quadro, e a aplicação de programas destinados à correção de artefatos fotográficos ou imperfeições no negativo também modernizaram, e muito, a transcrição de filmes para vídeo.
Inicialmente, os estúdios optaram pela solução mais barata: submeter o negativo com problemas para correção por computadores. A Warner fez isso com a cópia Technicolor/VistaVision do clássico de Alfred Hitchcock “North by Northwest” (no Brasil, “Intriga Internacional”). Tal processo, infelizmente, faz uma recuperação parcial, prontamente assistível em vídeo, mas não se aplica à preservação do negativo com problemas.
Neste ponto, é preciso esclarecer que existe uma diferença entre preservação e restauração: para a preservação, se o negativo estiver em ordem, basta pedir uma cópia nova aos laboratórios; para a restauração, é preciso corrigir e/ou trocar completamente o negativo, pela criação de um novo negativo.
O vídeo digital pode não só ajudar neste trabalho, como proceder à transcrição necessária à composição, em filme, de um novo negativo. Isto é conseguido com a criação do chamado “digital intermediate”, que é uma espécie de cópia de transição entre vídeo digital e filme.
Voltando ao que foi dito no início deste texto, os estúdios vinham fazendo masters digitais em alta definição, logo após a restauração fotográfica de seus filmes. Essas masters mostraram-se obsoletas e consequentemente inadequadas, para o uso moderno das mídias de home vídeo, neste caso, o Blu-Ray.
Existem basicamente duas áreas nas quais a remasterização de filmes irá fazer a diferença: a da resolução nativa da imagem e a do formato de áudio.
A prática tem demonstrado que fontes de resolução mais alta tendem a gerar imagens de melhor qualidade, mesmo em mídias cuja resolução nativa é mais baixa, como é o caso do DVD. Por causa disso, não é de se espantar que usuários possam ter em casa edições em DVD derivadas de fontes de alta definição, e com menos compressão, com resultados bastante diferentes. Quando este material, cuja resolução nativa é 480i, passa por upscaling, por exemplo, até 1080p, a imagem não encontra paralelo na reprodução convencional do DVD.
Pode até parecer um exagero sem proporções, mas o fato é que a Warner Brothers resolveu encarar experimentalmente a resolução do filme “A Star is Born” (o último filme de Judy Garland, rodado em CinemaScope, em 1954), passando o mesmo para vídeo com 6 K de resolução. A tarefa em si acarreta uma enorme demanda física, cerca de 10.5 Terabytes de memória em disco nos laboratórios, para armazenar 6144 pixels horizontais de resolução.
O processo não terminou, mas gera controvérsias. A Lowry Digital, por exemplo, defende que 4 K (4098 pixels) ou mesmo 2 K (2048 pixels) já capturam a maior parte do material fotográfico. Mas, os preservacionistas mais radicais discordam!
Um outro aspecto importante é o som
O filme de cinema avançou, na sua apresentação nas salas de exibição, ao padrão de 8 canais, com o SDDS, mas o formato se restringe a apenas dois canais surround, porque os seis restantes ficam na área da tela. Para contornar isso, a THX propôs o Dolby Digital Surround EX, que inclui um terceiro canal surround, no fundo da sala de cinema. Este formato foi rapidamente seguido pelo DTS Extended Surround (DTS-ES), com a mesma finalidade.
Acontece, porém, que as extensões dos codecs usados no Blu-Ray passaram de 5.1 para 7.1 canais discretos, tanto em LPCM, quanto em Dolby TrueHD ou DTS-HD MA. Mesmo filmes anteriormente mixados em menos do que cinco canais podem perfeitamente se beneficiar deste novo recurso.
Assim como a transição do Dolby Stereo para o Dolby Digital causou uma enorme mudança de padrões de gravação em filme e depois em home vídeo, também a passagem do áudio comprimido para o áudio direto teve um impacto dos mais significativos. Há certo tempo atrás, era simplesmente inimaginável conceber que uma mídia de vídeo doméstica pudesse ser capaz de armazenar e transmitir o som original das trilhas em estúdio, sem perdas ou compressão. Mas, foi-se além disso: com o Dolby TrueHD e o DTS-HD Master Audio, a transcrição é, ao mesmo tempo, sem perda e com compressão o suficiente para economizar espaço, às vezes valioso, de memória em disco.
Por causa disso, inclusive, codecs como, por exemplo, o Dolby Plus, nunca encontraram, ao que se saiba, paralelos em transcrições para Blu-Ray. E foi por isso que, quando o Universal Studios passou do HD-DVD para o Blu-Ray, todas as masters anteriormente feitas com Dolby Plus passaram para DTS-HD MA, com excelentes resultados e benefícios para o consumidor final.
Considerações finais
O padrão de conversão filme para vídeo mudou drasticamente. E assim também foram consideradas como “inaceitáveis” ou “obsoletas” as transcrições de filmes feitas anteriormente com telecine em 1080i. O padrão atual é de 1080p e a 24 quadros por segundo, ou seja, na exata cadência usada pela maioria dos filmes de cinema. Este padrão é sinônimo de economia de memória, versatilidade (porque o sinal pode ser facilmente convertido a 1080p 60 Hz, aceito universalmente pelas telas de TV) e qualidade geral da imagem armazenada e transmitida.
Clássicos como “Dr. Zhivago”, “Meet me in St.Louis” (anteriormente em “Ultra Definition” a 1080i), “Singin’ in the Rain”, e até mesmo “Cidadão Kane”, que Gary Graver tanto se queixou, vão ter cara nova, ao saírem suas edições em Blu-Ray. Com isso, lucram os fãs e cinéfilos, e se preserva para o futuro imediato, filmes que marcaram a história do cinema! [Webinsider]
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1° Zelão Data: 04/03/2009 às 2:01 pm
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Como sempre, excelente texto!
Meus parabéns pelo ótimo conteúdo que traz ao Webinsider.