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Negócios - Gestão

E se o carnaval fosse privatizado, como seria?

16 de fevereiro de 2009, 22:47

Administração e carnaval: o que aconteceria se o desfile das escolas de samba do Rio por decreto fosse cair na mão de administradores profissionais? Divirta-se com o cenário na esfera pública e na privada.

Por Zeca Martins

Embora pesquisa recente afirme que apenas 40% dos habitantes deste país do Carnaval sejam reais entusiastas da folia, é inegável que o evento mexe com 100% da população: oba-oba para uns, retiro espiritual para outros, puro descanso ou oportunidade de reflexão para outros ainda.

Mas os verdadeiros súditos de Momo, no entanto, só querem mesmo saber é de fazer o Carnaval bem-realizado de praxe. Como sempre foi, espontaneamente bem feito. Em especial, pelo pessoal das escolas de samba do Rio de Janeiro que, à parte do entusiasmo febril que lhes toma a alma por quatro dias, fazem do maior espetáculo da Terra também um show de incontestável competência administrativa.

Como? Ora, basta ver o resultado final desfilando com brilho e precisão na avenida.

E o que isso tem a ver com administração? Acho que o jeito mais fácil de demonstrar é pela criação de cenários onde administradores profissionais, públicos e privados, resolvem tomar conta do Carnaval carioca.

Na esfera pública

Pela repercussão internacional da grandiosidade da festa brasileira, é criado o Ministério do Carnaval, porque as coisas muito importantes são, invariavelmente, alvo prioritário da eterna ambição político-partidária.

Bem, no tal ministério, a primeira dificuldade seria determinar a data do evento, porque as pressões políticas da base aliada do governo são no sentido de privilegiar o calendário de eventos da região em que o partido majoritário tem maiores interesses eleitorais.

Assim, se o nome do Rio de Janeiro não coincidir exatamente com esses interesses, Mangueira e Beija-Flor de Nilópolis, por exemplo, deverão ser remanejadas para algum lugar que não exatamente a Marquês de Sapucaí, inclusive porque a prefeitura do Rio está nas mãos de partido de oposição a Brasília.

Teríamos, também, de renomeá-las para G.R.E.S. Unidos da Jaboticabeira e Canarinho de Altinópolis. A única unanimidade foi definir o Duda Mendonça como responsável pela criação da campanha publicitária.

Depois, o orçamento. Interesses de apadrinhados do Ministro do Carnaval e de alguns assessores mais próximos fariam com que a distribuição das verbas previstas para as escolas de samba fosse marcada pela desigualdade.

Por isso a ala das baianas de todas as escolas contaria só com umas três ou quatro integrantes; mais do que isso é dar muita força política pro ACM, coisa que, no momento, não interessa ao Planalto.

E a bateria ficaria seriamente prejudicada, depois que a revista Veja trouxesse a público denúncias de compra superfaturada de surdos e agogôs.

Por falar em bateria, o puxa-saco de plantão se apressaria em sugerir o nome da primeira-dama para o cargo de Rainha da Bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel, ideia que a comunidade local rejeitaria com veemência, a ponto de ser necessária intervenção da polícia, pois “fontes do ministério” alegaram que o movimento anti-primeira-dama havia, na realidade, sido orquestrado por bicheiros descontentes com a “falta de memória” de alguns figurões de Brasília, pelas generosas doações de campanha.

Os argumentos populares de que a simpática senhora não é exatamente uma gostosa e nem cumpre com o quesito samba-no-pé seriam creditados como intrigas da oposição.

E lá iria D. Flácida Madame da Silva (cafonérrima que é) desfilar supimpa, puxando o ritmo acelerado dos tamborins e o ronco emocionado das cuícas.

Inesperadamente, surge, para complicar, um questionamento do MEC: por se tratar de escolas de samba, o percentual de mestres e doutores no quadro docente dessas escolas está de acordo com as portarias ministeriais? Há bibliotecas suficientes? Os cursos têm conceito A no provão?

E como fica o funcionalismo, isto é, os figurantes, passistas, comissão de frente? Alguém avisa que a legislação em vigor exige um determinado percentual de funcionários concursados, mas o resultado do último concurso está sub judice, em risco de ser anulado, pois um filho e um sobrinho de um ministro do STF foram nomeados irregularmente para exercer o cargo de figurantes em carros alegóricos, sob a designação de “assessores especiais em destaque móvel”, função pela qual, aliás, cada um deles receberá salário superior ao do presidente da República, o que é flagrantemente ilegal, embora a nomeação já tenha sido publicada no DOU - Diário Oficial da União.

O caso também irritou profundamente o presidente, que já havia cedido aos apelos repetidos de um senador, de nome não divulgado, não só para indicar ao Ministro do Carnaval a amante do tal senador ao cargo de porta-bandeira comissionada, como o de um jovem apadrinhado, “uma estrela em ascensão no partido”, à complementar função de mestre-sala. Ambos com direito a aposentadoria especial.

Mas problema maior seria a licitação embargada pelo Ministério Público para a construção dos carros alegóricos. Denúncias publicadas com exclusividade pela revista Isto É dão conta de irregularidades já no edital de concorrência, a fim de favorecer empreiteiras de empresários ligados ao governo.

Dias depois, a TV Globo levaria ao ar as fitas com gravações de telefonemas grampeados com autorização judicial, que comprovam que muitas propinas, inclusive, foram pagas em dólares cash não declarados à Receita.

Computadores e caixas de documentos também seriam apreendidos pela Polícia Federal nas residências dos acusados (é impressionante como todos os acusados do país têm o hábito de guardar caixas de documentos em suas casas!).

E a sucessão de eventos carnavalescos resultaria numa CPI sem data determinada para acabar. Ainda assim, apesar de tudo, o carnaval oficial de 2009 seria realizado pontualmente no mês de fevereiro. De 2015.

Vamos à esfera privada

Tudo começa na criação de um plano de negócios. A definição de um objetivo claro para o Carnaval é imprescindível.

Embora se comente pelos corredores, à boca pequena, que o objetivo da festa é pura e simplesmente todos se divertirem o mais que puderem, os responsáveis pelo planejamento negam firmemente, porque apenas diversão pura e simples, não orientada a resultados, vai frontalmente contra a cartilha da matriz nos Estados Unidos.

É necessário que um objetivo seja claramente definido e os planos estratégico e tático precisamente traçados, pois haverá muito dinheiro em jogo.

Por falar em dinheiro, foi nomeado para presidir a subsidiária nacional, e coordenar o lançamento do Carnaval no país, o diretor-financeiro da matriz, um americano pós-graduado em Harvard, pós-pós-graduado em Yale, com mais um doutorado em Princeton e que nunca esteve no Brasil (porém já dirigiu as filiais do Gabão e do Senegal: “crioulo e batucada é igual em todo lugar” comenta ele em entrevista ao Valor Econômico e à Gazeta Mercantil), mas vê o país com bons olhos, pois “o Brazil se tratar di um força em desenvolvimento que será destaque na panorama internacional dentro di poucos décadas”.

Assim, sua primeira ação foi voltada aos aspectos industriais do processo.

Importantíssimo, em primeiro lugar, mapear quais estados e municípios oferecem maiores benefícios fiscais. Mas a informação vazou, alertou a concorrência e suscitou até um editorial do Estadão, conclamando prefeitos e governadores a comportarem-se responsavelmente e, por causa das ambições de uma empresa privada, não iniciarem nova guerra fiscal tão prejudicial aos interesses nacionais.

Ainda a este propósito, a rádio-peão, aquela dos corredores da empresa, dá como certo que a unidade industrial de produção de Carnaval carioca será mesmo implantada próxima ao pólo petroquímico de Camaçari, na Bahia (apesar da forte candidatura de Caxias do Sul).

Mas o problema que mais preocupa os administradores privados do Carnaval carioca são os recursos humanos: haverá em Camaçari mão-de-obra qualificada em abundância?

A sugestão alternativa de migrar para o ABC paulista foi descartada pelo medo das pressões sindicais.

Houve quem lembrasse que há outras áreas intensamente industrializadas próximas à capital paulista, sem sindicatos fortes e, de quebra, com alto índice per capita de profissionais com MBA. “É verdade, saiu na revista Vencer e na Você S/A!” De qualquer modo, o custo dos programas de benefícios, será determinante para a tomada de decisão.

Ainda mais se for confirmada a necessidade de aproveitar nos desfiles o pessoal dos carnavais anteriores, basicamente aquela gente que vive no morro: “tem até analfabetos e elementos com passagem pela polícia! Que horror! Quer saber, vamos burlar a lei e colocar gente treinada por nós mesmos!”

Eis que entra em cena o pessoal de marketing, todos eles já preocupados com a verba a ser alocada para seus programas promocionais e publicidade.

Acontece que, por ser o diretor-presidente egresso da área financeira, os marqueteiros sabem que ele vê a tarefa como puro gasto, não investimento.

De qualquer modo, já foi feita a concorrência para a contratação da agência de propaganda responsável pela conta, e a primeira campanha, com o tema “Carnaval. Você precisa conhecer”, já está prestes a ser veiculada em todas as emissoras de rádio e TV do Brasil.

“A campanha tem caráter eminentemente educativo, para que as pessoas conheçam bem o produto e o consumam da melhor forma. Queremos conquistar os 60% restantes de brasileiros que não consomem carnaval com regularidade”, alerta entusiasmada a elegante profissional de relações públicas da agência de propaganda. “Esperamos um forte recall”, completa o gerente de marketing.

Ao falar em marketing, um dos gerentes do setor, que acaba de fazer seu curso de pós-graduação em importante escola de São Paulo, lembrou-se da teoria dos 4 Ps: produto, propaganda, preço e ponto de venda, vulgo distribuição.

E foi exatamente a logística de distribuição que chamou sua atenção e o fez distribuir um memorando interno a todas as gerências, acompanhado de uma previsível presentation em Power Point: “Por questões de logística, seria melhor transferirmos o Carnaval do Rio para Santiago do Chile: as tarifas portuárias e aduaneiras são menores e a burocracia e corrupção quase inexistem, isso sem falar que os custos de frete para o mercado asiático serão sensivelmente reduzidos. É estratégico: o poder aquisitivo asiático continua em forte ascensão e precisamos estar preparados para ganhar mercados worldwide para o nosso carnaval”.

“Transportar o carnaval do Rio? De navio? Não será um tanto esquisito e sem propósito?!?”, surpreende-se alguém. “Isso é o de menos; o importante é que, de acordo com as novas tendências, devemos estar prontos para executar quaisquer tarefas com padrões de eficiência globais!” responde o manager.

Bomba! Bomba! A diretoria dá ordem para que todos os programas sejam temporariamente suspensos!

A questão é: carnaval carioca é só um, portanto, é monopólio. O CADE já sinalizou que vai se intrometer e determinar que o carnaval seja igualmente distribuído entre empresas concorrentes, sem se importar se as habilidades gerenciais são díspares e o produto final ficará irreconhecível aos olhos dos consumidores.

De qualquer modo, vem aí a divisão de quotas de mercado acompanhada de uma inexorável fusão de empresas, e ninguém sabe, afinal de contas, quais produtos esta empresa resultante retirará ou colocará no mercado.

Há estudos apontando que, por razões de sinergia - “ora, tudo é espetáculo!” - a empresa poderá voltar-se para o mercado mundial de distribuição de videoclipes de rock´n´roll.

Conclusão: o Carnaval do Rio de Janeiro não tem pressão de mercado, não tem política partidária, não tem plano de negócio, não tem cartilha administrativa, não tem business nem governo no meio.

Só tem garra, bom senso e o puro interesse de realizar alguma coisa inesquecível, que seja melhor a cada ano que passa. Por isso é que funciona. [Webinsider]

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Sobre o autor

Zeca Martins (zecamartins@yahoo.com.br) é publicitário e mantém um blog.

Apoio:

  • LayerDev Serviços de Webhosting Profissional

Palavras-chave relacionadas a este texto: [ formação profissional ]

Comentários

6 pessoas comentaram o artigo "E se o carnaval fosse privatizado, como seria?"

JOSÉ PREDEBON Data: 17/02/2009 às 9:06 am

Atividade: professor

Cidade: são paulo

O artigo revela um profundo conhecimento socio-econômico do ambiente, a par de uma verve literária excepcional. Recomendo a leitura e distribuição de cópias. JP

Sandro T. Cavallote Data: 17/02/2009 às 9:38 am

Atividade: Publicitário

Cidade: São Paulo

Que texto espetacular, Zeca! Em vários momentos me peguei rindo das situações e ficando puto com certos aspectos burocráticos envolvidos. Mas, como bom profissional de criação, fiquei imaginando um brainstormig para criação de conceito de campanha… seria um ziriguidum só!

Abração e parabéns novamente.

Paulo Porto Data: 17/02/2009 às 10:20 am

Atividade:

Cidade:

Fantástica comparação de exageros.
Fina ironia. Muito bom o texto.

Geradores Data: 18/02/2009 às 10:29 am

Atividade:

Cidade:

Muito bom o texto

Rita Roque Data: 19/02/2009 às 10:55 am

Atividade: Editora Web

Cidade: Rio de Janeiro

Muito bom. Vi cada etapa descrita… Perfeito! Parabéns pelo humor inteligente.

Joao dos Reis Paschoalino Data: 21/02/2009 às 3:48 pm

Atividade: sapateiro

Cidade: Franca

Maravilha de texto, ele nos prende ate o seu final, o bom é que ele nos mostra que onde se tem politica as coisas não funcionam muito bem, pois vira um cabe-de-guerra, e isso é uma pena.

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