Cinema vs. home theater
15 de janeiro de 2009, 19:41A experiência do cinema é forte, mas em casa o áudio é bom e a imagem melhor ainda.
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Não importa a ginástica tecnológica que se faça, as telas dos atuais home theaters nunca irão traduzir corretamente a mesma grandeza das antigas telas de cinema, e esta é, a meu ver, uma realidade com a qual a gente ainda vai conviver por um longo período de tempo!
E nesta análise eu ainda incluo as montagens de projetores com lentes anamórficas, descritas mais abaixo.
A versão smilebox do filme “A Conquista do Oeste” (How The West Was Won) em Blu-Ray, recebida por mim em meados de outubro passado, veio acompanhada por um documentário interessantíssimo do cineasta David Strohmaier, intitulado Cinerama Adventure, onde ele explica as razões de sua emoção, ainda menino, por ter tido a chance de ver a extraordinariamente larga tela de Cinerama e de ter, posteriormente, o desejo de conhecer melhor este processo e realizar este documentário, por anos a fio.
De fato, creio que não deve haver ninguém por aí, que tenha um dia de sua vida experimentado as projeções em telas widescreeen gigantescas, nos antigos palácios de cinema, que não tenha se emocionado com a majestade daquelas apresentações.
Para início de conversa, os cinemas tinham cortinas na frente das telas, e isso, junto com o apagar das luzes, contribuía para o ato sacralizante e catártico das idas ao cinema. A maioria das apresentações das grandes produções, daquelas que passavam das duas horas convencionais de projeção, geralmente eram acompanhadas por música de abertura e intervalo de uns quinze minutos.
O Cinerama era um processo de captura e apresentação em três filmes separados, para compor uma tela muito curva e larga. Aqui no Brasil, até onde eu saiba, somente em São Paulo capital é que foram exibidos os poucos filmes feitos no Cinerama original.
Com a mudança do método para Cinerama de um filme único em 70 mm (ou Todd-AO), também essas instalações foram mudadas e o Cinerama desapareceu para sempre no Brasil. No Rio, onde eu moro, foi no cinema Roxy mais antigo que eu vi a tela de Cinerama 70 mm, chamada por alguns de pseudo-cinerama.
A tela do Roxy era igualmente curva, alta e larga, impossível de ser usada para filmes em 35 mm. Tanto assim que o material publicitário (trailers) eram todos exibidos em 70 mm. Com a decadência do filme 70 mm, a tela do Roxy foi substituída pela tela Panavision convencional.
Ainda no Rio, o falecido cinema Metro Boavista instalou uma tela muito curva, em Dimensão 150, que ficou até o cinema fechar. Mas esta também não era Cinerama. O processo de 70 mm em Dimensão 150 incluía filmagem e projeção com lentes especiais, mas a maioria dessas apresentações não era necessariamente de filmes fotografados em Dimensão 150.
A construção de telas de cinema em ampla escala não tem equivalente nas instalações do home theater convencional, e a explicação para isso é muito simples: as telas de vídeo em 16:9 são desenhadas para acomodar todas as relações de aspecto de uma só vez, e por isso optou-se pela relação 1.78:1 fixa.
Isto implica em tornar a altura da tela constante, e ela então só seria aproveitável em toda a sua plenitude para filmes widescreen, que variam entre 1.77:1 e 1.85:1. Qualquer valor acima disso, e a tela é ajustada com barras pretas verticais, acima e abaixo da imagem, em tamanhos que variam proporcionalmente à relação de aspecto. Assim, por exemplo, passando de 2.2:1 (70 mm plano) e indo até 2.76:1 (Ultra Panavision), as barras vão irão ficando cada vez maiores.
Na prática, isto também significa que as telas antes super largas do cinema serão significativamente menos largas nas telas 16:9. O prejuízo evidente é que, visualmente, o impacto fotográfico e a estética da cinematografia mudam radicalmente, com a perda do campo de visão, que era privilégio das telas do cinema. E isso é tão evidente em filmes como A Conquista do Oeste, que chega a dar pena!
O desastre só não é maior porque o ser humano tem a capacidade inata de compensar o campo visual que vê, criando, no caso, uma ilusão cerebral de uma imagem widescreen, dentro de um campo visual bastante restrito.
Este tipo de ilusão está presente em muitas telas de cinemas multiplex (como os Cinemark, por exemplo), porque estas também são construídas com altura constante. No multiplex, uma barra de pano (máscara) é baixada discretamente, simultaneamente à troca de lentes no projetor, transformando a tela em 2.35:1, sem o que a plateia perceba. A máscara da tela é escolhida em função de uma máscara equivalente (soft matte), instalada na janela do projetor.
O usuário também pode fazer algo equivalente em casa, se o orçamento permitir, ou então mudar a tela de 16:9 para outra em 2.37:1. Empresas como a Prismasonic e outras vendem lentes caríssimas, para esta finalidade. O propósito aqui é também vencer as limitações da ausência de curvatura típicas do vídeo, embora modelos de lentes mais recentes tenham reintroduzido este fator e retificando a natureza plana das telas domésticas.
A realidade do mercado, entretanto, não passa necessariamente pela introdução de sofisticados e caros sistemas de projeção, como os mencionados acima. O que se percebe é que as telas feitas com painéis LCD, plasma e equivalentes continuarão em 16:9, porém dotadas de dimensões geométricas cada vez maiores.
Por causa disso, iniciativas como esta do formato “Smilebox” são bastante bem vindas, porque pelo menos dão uma ideia de como os cinemas eram antigamente, e também mostram a influência da curvatura da tela na estética de captura das cenas, pretendida pelos cineastas da época.
Para mim, que já vivi uma enorme parcela disso tudo, foi uma experiência bastante atraente assistir as duas horas e quarenta minutos de projeção do filme A Conquista do Oeste, em formato “Smilebox” (N.B.: uma comparação entre as transcrições plana e smilebox da edição em Blu-Ray pode ser vista neste review do site DVD Beaver).
E como eu atualmente uso uma tela de 52”, não saberia dizer se o efeito seria menos convincente numa tela menor. Acho, entretanto, que o acréscimo de dimensões poderia não acrescentar muita coisa, neste tipo de percepção, porque, de qualquer forma, ficará sempre faltando a acentuada curvatura das telas de Cinerama e de 70 mm, que outrora os grandes cinemas usaram, e das quais a gente, até hoje, sente imensa falta!
É interessante ainda notar que é somente no quesito imagem que as instalações de home theater perdem para o cinema convencional, porque no que se refere ao áudio, caminhou-se em sentido diametralmente oposto: raríssimas são as salas de cinema que possuem 6.1 canais instalados, enquanto que o custo doméstico de implementação de 7.1 é quase nenhum, tanto física quanto financeiramente.
Além disso, o Blu-Ray nos permite hoje ouvir o som do estúdio sem compressão, coisa que nenhuma instalação de cinema conseguirá tão cedo.
Por outro lado, é importante observar que formato de tela, para o cinema e para as salas de exibição modernas, é sempre um cobertor curto.
A grande maioria dos filmes widescreen, hoje em dia, ficam entre 1.85:1 e 2.35:1. Se a tela for mais larga do que alta, filmes em 2.35:1 se beneficiam, e os de 1.85:1 ficam demasiado pequenos para o olho do espectador.
Se as telas de TV fossem assim, seria exatamente o que aconteceria, o que, para muitos usuários domésticos, seria desastroso. Então, a solução é mesmo a tela em 1.78:1, porque ela “acomoda” o filme 2.35:1 e dá plena altura e largura para o filme 1.85:1.
E finalmente, se nos resta algum consolo, na frustração de não conseguir ter telas de Cinerama em casa, basta observar que está cada vez mais evidente a diferença de qualidade entre a imagem projetada (mesmo nos melhores cinemas) e aquela que a gente consegue com bons painéis de TV.
Com o advento da alta definição, esta comparação chega a ser covardia - e eu tenho lido declarações de vários cineastas, dando conta da surpresa em ver seus filmes em edições HD com um detalhamento que superam as expectativas de projeção em qualquer sala de cinema! [Webinsider]
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1° Marcelo Sales Valério Data: 20/01/2009 às 4:06 pm
Atividade: Designer
Cidade: São Paulo
Concordo com absolutamente tudo e tenho saudades do extinto Cine Comodoro na São João e apesar de não ter a tela imensa também vale lembrar do Cinespacial logo em frente (hoje um ex-bingo)…
Só achei que faltou comentar sobre o IMAX lançado recentemente no Brasil, cuja imagem e som estão a anos luz de distância de qualquer outra sala “comum” de cinema. A tecnologia 3D também impressiona.
Inclusive, a edição do Batman - The Dark Knight em BD que recebi recentemente tem a projeção nesse formato (com algumas cenas rodadas especificamente pra ele). Com som e imagens também impecáveis.
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Marcelo Sales