Aceita um patê? Sobre conteúdo e contexto
06 de outubro de 2008, 21:00Seria bem melhor se, em vez de raptar a atenção do público, a publicidade não desviasse as pessoas do conteúdo que estão vendo para obter um pouquinho de atenção.
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Outro dia precisei dar um pulo rápido no supermercado porque o detergente de casa havia acabado. Chegando lá, fui direto para a seção de limpeza, localizei rapidamente o que precisava – os detergentes têm cores tão berrantes que a gôndola deles parece a Marquês de Sapucaí – e depois me encaminhei para pagar. No caminho, uma promoter me mostrou uma torradinha e perguntou, com um ar esperançoso: “Aceita um patê?”.
Eu, com pressa, respondi sem pensar “Não, obrigado” e segui rumo ao caixa. E a menina continuou lá, estática, igual a um banner não clicado.
Já reparou que essa mesma situação acontece toda vez que navegamos na internet? Basta acessar um portal, buscador, blog, fotolog ou site de vídeo e, sem mais nem menos, um banner aparece na sua frente querendo roubar sua atenção. E se você clica nele, seu mouse é capturado e levado para um endereço desconhecido, completamente diferente do que você estava vendo antes – e pode até ficar preso lá por um bom tempo. Em outras palavras, os banners não passam de seqüestradores de cliques.
Nada contra esse tipo de prática – que vem sendo usado com sucesso há anos para estimular a famosa “compra por impulso” (se bem que, na internet, o impulso tem frete). Mas já não está na hora de evoluirmos? Afinal, até onde eu sei, ninguém gosta de ser seqüestrado – apesar de alguns usuários, depois do clique, adquirirem a “Síndrome de Estocolmo” e se apaixonarem pelo seqüestrador.
Não seria mais fácil, em vez de raptá-los, deixar que eles permaneçam no site onde estão? Ou seja, fazer com que as pessoas não precisem abandonar o conteúdo que estão vendo pra te dar um pouquinho de atenção?
Assim, em vez de oferecer o patê para quem foi comprar detergente no supermercado, que tal levá-lo até a praça de alimentação de um shopping, na hora do almoço, pra quem está passando fome na fila de algum restaurante self-service?
Essa tem sido a tendência na internet: criar conteúdos segmentados em canais especializados para aproveitar o tráfego que já existe por lá. Dessa forma, você dá música pra quem gosta de música, esporte para amantes de esporte e notícias de baladas para quem não vive sem uma, transformando, assim, a própria casa do usuário em um cativeiro.
Aí você não precisa mais roubar a atenção dele, pois já faz parte dela. E não tem que gastar toda a sua verba em banners divertidinhos para fisgar surfistas web afora. Além disso, seu público não vai mais te achar o chato que fica pulando na frente de outros conteúdos, e você passará a se comunicar na mesma língua que ele – e não mais em Esperanto, que é feito pra todo mundo mas ninguém fala.
E o melhor de tudo, você mudará de rótulo: deixará de ser apenas uma publicidade para se tornar um conteúdo.
Estive recentemente em um evento de mídia online tratando desse assunto e, em meio à polêmica que o tema sempre gera, surgiu a fatídica pergunta: “O banner vai morrer?”. Minha resposta foi simples e clara: “O banner nunca vai morrer. Vai apenas se tornar o PDV da internet”.
Ou seja, assim como os anúncios de ponto de venda continuam até hoje nas lojas e supermercados, tentando seqüestrar sua atenção a qualquer custo, a mídia online dita “tradicional” continuará rondando os portais e sites de conteúdo com seu bando de seqüestradores – cujos apelidos são dignos de uma gangue de rua do Bronx: Full, Super, Half e Sky –, sempre em busca de vítimas para serem aprisionadas em algum site de produto.
O que não podemos, de forma nenhuma, é confiar apenas nas meninas do supermercado como estratégia para dar visibilidade a um produto ou serviço. Por mais que elas sejam interativas e até expansíveis, só vão atrair a atenção de quem estiver disposto a parar o que estava fazendo para clicar nas torradinhas. Mas quem estiver com pressa – e com um detergente na mão – jamais vai se interessar.
Afinal, as pessoas são cada vez mais atraídas por conteúdos relevantes. Incluindo você, que só chegou até aqui porque aceitou meu patê disfarçado de título no início desse artigo. [Webinsider]
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1° Diego Mac Data: 06/10/2008 às 11:17 pm
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“clicar nas torradinhas” é ótimo! ahahahahaha