Sou um jogador de handebol, trabalho com internet
27 de agosto de 2008, 10:39Quem trabalha com criação online tem uma dificuldade muito grande em explicar o que faz para os habitantes nos galhos mais altos de sua árvore genealógica. Você já tentou?
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Não há nada mais difícil para quem trabalha com criação online do que explicar para os pais o que faz. Para os avós, então, nem se fala. “Meu neto, você está trabalhando com o quê agora, hein? É com computador, né?” Sem contar aqueles tios chatos que só aparecem no Natal e ainda acham que você faz assistência técnica. “Tá crescido, hein? (tapinhas fortes no rosto). Maior que eu! Lembro quando você era da altura dessa mesa aqui, ó. Agora me diz uma coisa: tua mãe me falou que você tá trabalhando com informática, né? Pô, comprei um Home Theater e não tô conseguindo instalar as caixas de som. Será que você não podia dar um pulo lá em casa e…”.
Por essas e outras, sempre busquei formas didáticas e até metafóricas para fazer os habitantes dos troncos mais altos da minha árvore genealógica entenderem, de uma vez por todas, o que eu faço da vida. Tentei até navegar uma vez junto com eles, mas a barreira tecnológica atrapalhou ainda mais – e me fez ficar horas respondendo a perguntas do tipo “Mas se é tudo de graça, como esse pessoal ganha dinheiro?”. Comecei, então, a generalizar dizendo que trabalhava com publicidade. “Mas é anúncio de revista dentro do computador?”. Aí cansei e resolvi dizer só que trabalhava com internet. “Como assim? Você faz aquelas coisas do Gugôu? É assim que se diz, né? Viu como eu sei!”
Como o didatismo fracassou, parti para as analogias. “Vó, sabe os comerciais de TV que passam no intervalo da novela? Então, eu faço a mesma coisa, só que para as pessoas verem no computador.” Nada. Deu até pra ouvir ela pensando: “Ué, não sabia que computador tinha controle remoto…”. Resolvi apelar pro universo dela: “Sabe quando você vai ao supermercado e compra um produto? Não tem na embalagem, escrito em letras miúdas, um endereço pra você saber mais sobre ele? Então, eu trabalho com isso.” Tadinha. Olhou pra mim com uma carinha de pena, como se o netinho querido dela tivesse virado operador de telemarketing.
Quando já estava quase desistindo de tudo – e havia decidido que, a partir de agora, se alguém perguntar vou dizer que “manipulo próteses dentárias” (as pessoas costumam ter medo de quem “manipula” coisas) – eis que outro dia, voltando de um cliente, me deu um estalo: sou um jogador de handebol. Agora foi você que não entendeu nada, né? Calma, eu explico.
O Brasil é, notoriamente, o país do futebol (isso eu não preciso te explicar). Dessa forma, todos os outros esportes são, de certa forma, marginalizados em nosso país. Por mais que vôlei e basquete tenham um público cativo grande – que é fiel e acompanha de perto os campeonatos –, nada se compara à comoção nacional gerada pelo esporte bretão – tanto que até os próprios praticantes de outras modalidades têm seus times de coração. Essa sombra faz com que a grande massa não conheça mais a fundo os outros esportes, e os que mais sofrem, paradoxalmente, são exatamente aqueles que se parecem com o futebol.
Fico imaginando um jogador de handebol explicando para parentes distantes que foi contratado pelo Flamengo. “Que legal! Você vai jogar esse domingo no Maracanã? O Galvão Bueno vai falar seu nome??? Vou até pedir pro teu primo programar o videocassete pra gravar!”. Aí ele tem que voltar atrás e explicar que, na verdade, ele joga um esporte pa-re-ci-do com futebol e que, mesmo estando em um grande clube, seus jogos não vão ser no Maracanã e as pessoas não vão poder assistir pela TV. E o tio distante, pra não ficar chato (tarefa quase impossível para tios distantes), vai dizer: “Bom, o que importa é que você está em um clube grande, né meu filho? Parabéns, viu? Todos aqui estamos muito orgulhosos de você!”.
É mais ou menos assim que me sinto quando digo que trabalho em um dos maiores grupos de publicidade do país atendendo clientes multinacionais. “Já saiu algum anúncio seu na Veja?”. Não, não saiu. Nem vai sair. Aí preciso explicar que uso a mesma estrutura dos famosos jogadores de futebol só que o meu esporte, apesar de bem semelhante (vence aquele que marca mais gols todos os dias), tem suas peculiaridades. E o pior não é ter que explicar as regras para os familiares, mas também para os próprios clientes que nos contratam. E alguns ainda fazem questão de comparar: “Pega o mesmo esquema tático do futebol e só troca os pés pelas mãos”.
Se eu jogasse futebol de salão (marketing direto), acho que até seria mais fácil de entender. O problema é que meu esporte, apesar de parecido na teoria, é bem diferente na prática. Aí eu preciso ficar sempre catequizando o público em busca de novos adeptos: “Olha só que divertido: todo mundo pode usar a mão! E sai muito mais gol do que no futebol!”. E não entro, claro, em detalhes do tipo “pênalti se chama tiro de 7 metros” para evitar polêmicas desnecessárias. O dia em que resolverem jogar de verdade, eles vão aprender.
Mas confesso que, às vezes, cansa um pouco gastar mais tempo explicando as regras do que batendo bola. É por isso que os melhores jogadores de internet estão indo disputar campeonatos em outros países, onde nosso esporte é muito mais valorizado. Assim, em vez de montarmos uma seleção nacional poderosa com os times daqui, ficamos fortalecendo o plantel das agências de fora, cada vez mais ricas e repletas de estrelas internacionais. E na hora de representar o Brasil nos campeonatos mundiais, também precisamos recorrer aos “estrangeiros”.
Principalmente para nossa Olimpíada, também conhecida como Festival de Cannes. Essa é a época do ano em que brilhamos tanto quanto o futebol – às vezes, até mais. Assim como o judô e o iatismo, é o único momento para ganharmos mais medalhas e holofotes do que nossos primos ricos. Ganhamos espaço na mídia (não só na especializada), matérias no Jornal Nacional (com aqueles títulos mais-do-que-batidos: “Brasil, a pátria de tênis”), damos entrevistas para vários lugares e, de vez em quando, até o Galvão Bueno narra nossos jogos – quase como um “Dia de Princesa” para publicitários. Depois de alguns meses, porém, tudo volta ao que era antes. E não aparecemos mais nem no “Show do Intervalo”.
Só que essa semana, pela primeira vez desde que virei “federado” em internet, tive uma prova concreta de que as coisas estão realmente mudando. Li um press release sobre o lançamento de um produto dizendo que “o tema da campanha foi criado pela agência online e adaptado para o offline”. Ou seja, é praticamente como se o juiz tivesse visto que o gol foi de mão mas, por ter sido um lance muito mais bonito do que um mero chute prensado de canhota, resolveu validá-lo mesmo assim. Méritos para o árbitro, que valorizou muito mais o conceito do que a execução. E uma esperança para aqueles que, acima de tudo, apreciam o futebol-arte.
Em tempo: não acho que o handebol um dia será mais popular que o futebol. Isso nunca. Mas não duvido nada que, em breve, o futebol também possa ser jogado com as mãos. E aí acontecerá o inevitável: os dois esportes virarão um só. [Webinsider]
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1° Jésus Lopes Data: 27/08/2008 às 11:12 am
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Excelente artigo!
Conseguiu apontar os exatos pontos onde temos dificuldade na hora de explicar nossa profissão.
Parabéns.