Alta fidelidade digital, para se fazer em casa!
24 de agosto de 2008, 23:16Conheça o Flac, o codec de áudio sem compressão e gratuito.
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Às vezes, eu me dou conta que, como eu, a maioria das pessoas não tem noção de quantas gravações de música foram feitas até hoje, desde que o fonógrafo foi inventado. Da passagem do Lp para o CD, por exemplo, muito material gravado foi quase que literalmente esquecido ou perdido pelas gravadoras, e por isso não é nada incomum se achar por aí, em sebos do mundo todo, álbuns que as pessoas não têm mais ou querem recuperar nos seus computadores.
Há dias atrás, procurando uma gravação de música brasileira, eu esbarrei num blog de um cidadão, que mantém uma correspondência bilíngüe com diversas pessoas, em torno do mesmo tema: disponibilizar, em MP3 (na maioria dos downloads), discos os quais a gente nunca mais nem ouviu falar. A atividade dessas pessoas é claramente ilegal, sob o ponto de vista dos direitos autorais sobre fonogramas, mas parece que ninguém aparenta se importar com isso. E não é para menos: as gravadoras, que detém o monopólio desses fonogramas, argumentam prejuízos de diversas ordens, para justificar a falta de acesso aos seus acervos, ou seja, relançam muito pouco do catálogo retido em seus depósitos.
Se a gente olhar isso pelo ponto de vista puramente cultural, a gente se sente compelido a concluir que se trata de um crime contra a humanidade, isso para não falar dos direitos outrora obtidos por quem gravou aquele material todo, que são os músicos propriamente ditos.
Na realidade, parando para pensar, a gente percebe que o problema é dividido em dois aspectos básicos: o primeiro, o que fazer para recuperar e preservar todos esses fonogramas, diante da “realidade” do mercado, e o segundo, o que fazer para garantir que eles cheguem íntegros na casa do aficionado, de maneira a não dar prejuízo nem a quem ouve nem aos seus provedores.
Até relativo pouco tempo atrás (circa 1999), foi o Napster que, na base operacional “peer to peer”, começou a mudar isso. E no final pagou caro, porque, como já comentei, ninguém pode distribuir fonogramas ao seu bel prazer, sob pena de infringir direitos de terceiros. Mas o Napster, justiça seja feita, ajudou a difundir formatos como o MP3 e outros, posteriormente usados pelos próprios provedores de conteúdo, para vender música online.
Infelizmente, e eu sou um que digo isso com profundo pesar, um dos seus efeitos colaterais foi a intensa propagação de áudio sem qualidade, através de codecs com compressão elevada, tipicamente a 128 kbps por arquivo. E, no caso, sem nenhuma chance de, uma vez codificado em um dado bitrate, de ver o conteúdo original restaurado em toda a sua plenitude.
E embora se possa dizer que a grande maioria dos usuários sequer se importa com isso, o fato é que o processo de distribuição em si é totalmente excludente, alijando de vez qualquer outra pessoa, que ainda procure qualidade na fonte gravada ou preservação completa da obra gravada.
Mas, isto tudo mudou, quando, em anos recentes, foi introduzido um outro formato de compressão, só que desta vez, sem perda alguma do áudio original. Trata-se do Flac (acrônimo do inglês, “Free Lossless Audio Codec”), ou “Codec de Áudio Sem Compressão Gratuito”.
O projeto FLAC foi inicialmente iniciativa do programador Josh Coalson, porém, em se tratando de um projeto aberto, recebe a contribuição de colaboradores. O formato trabalha comprimindo o arquivo de áudio PCM original, digamos com resolução de 96/48 kHz e 24/16 bits, em dois ou mais canais, exclusivamente para ser enviado ao destinatário, via internet. Este arquivo, diga-se de passagem, pode ser reproduzido em qualquer player do seu Windows, desde que um filtro DirectShow seja instalado. Diversos plugins ainda podem ser usados, para atender a programas específicos, como o Nero Burning ROM, por exemplo.
Para se ter uma idéia da importância desta iniciativa, um amigo meu, o Dr. Carlos Fernando Blanco, audiófilo super exigente e profundo conhecedor de eletrônica aplicada e música, recentemente me fala que havia descoberto um site de um pequeno selo, chamado de High Definition Tape Transfers, que disponibiliza gravações raras, vindas de fitas matrizes que caíram em domínio público, porém com altíssima qualidade de captura, preservação, e transcrição em formato Flac.
O site oferece amostras grátis para download, e foi com elas que eu e o meu amigo iniciamos algumas experiências e trocas de idéias sobre o potencial deste formato.
Note o leitor que, em se tratando de preservação de gravações analógicas antigas, para o ambiente digital, todo cuidado é pouco. De nada nos adianta que o estúdio lance mão da fita master original e depois saia aplicando filtros redutores de ruído, equalizadores e principalmente compressores ou limitadores, porque aí o som original fica completamente arruinado, e não haverá nada que se possa fazer depois, para compensar isso tudo.
Então, o que uma pequena empresa como a HDTT faz é entregar o conteúdo das fitas para download, com o mínimo de manipulação possível, em uma transcrição a 96 kHz/24 bits, com a qual o usuário pode se servir, para autorar o seu próprio disco, mantendo a qualidade original.
E, no lado do usuário, como isso é possível, afinal? Por incrível que pareça, com ferramentas gratuitas e com o uso de uma mídia de baixo custo, como o DVD-R/RW, ou até com o CD-R, se assim o desejar, mas neste caso passando de 94 kHz/24 bits para 44.1 kHz/16 bits, com um mínimo de perda.
A receita em si é muito simples: depois de baixado o arquivo Flac desejado (esta talvez seja a pior parte, por se tratar de um arquivo enorme, exigindo internet banda larga), o usuário baixa e instala uma ferramenta, chamada de “Front-end” para arquivos Flac, de acordo com o sistema operacional usado. A ferramenta, entre outras coisas, decodifica o arquivo Flac baixado, e o transforma em um arquivo “wav” (o PCM do Windows). Neste ponto, o usuário tem consigo um arquivo de áudio de altíssima qualidade, e ele pode então dar a ele o destino que bem entender.
O destino que melhor preserva o conteúdo e que dá, portanto, a melhor relação custo-benefício é fazer um DAD (“Digital Audio Disc”). O DAD é um DVD comum de vídeo, porém com a imagem (geralmente um slide) multiplexada com áudio LPCM, geralmente em 96/24, em dois canais. Como esta multiplexação não é de fácil compreensão e pouco acessível aos não iniciados, o usuário pode (e deve) lançar mão de outra ferramenta gratuita, chamada de “LPlex”.
A ferramenta seria melhor usada com o uso de argumentos em linha de comando, e pior ainda, não tem nenhuma interface gráfica feita para ela, neste momento. Porém, ela permite o recurso de “drag & drop”, muito usado pelos sistemas operacionais, como o Windows. Neste caso, a ferramenta trabalha automaticamente com os parâmetros que nos interessam, a curto prazo.
Para chegar lá, tudo que o usuário tem que fazer é abrir o arquivo zipado da ferramenta em um diretório criado em algum local conhecido do disco rígido. Depois deve rodar o executável (“lplex.exe”), para criar um arquivo “lplex.ini”. Abrindo este arquivo com o seu Bloco de Notas, deve-se trocar o parâmetro “vídeo=pal” para “vídeo=ntsc”, na segunda linha, e salvar a modificação.
Com isso, se evita que o disco não toque em algum leitor de DVD que não toca discos formatados em PAL. Outra mudança que eu particularmente achei útil foi alterar o parâmetro “alignment=seamless” para alignment=discrete”, tirando o Lplex do modo de gravação contínua para outro, com intervalo entre as faixas.
Depois disso, para facilitar mais ainda, é aconselhável criar um atalho no desktop, a partir do executável da ferramenta (“lplex.exe”), e logo a seguir trocar o ícone do DOS por outro, o que destacará o programa no desktop. Deve-se então abrir, o Windows Explorer (ou equivalente), selecionar os arquivos “wav” desejados com a tecla “control” e depois jogar (drag & drop) tudo em cima do ícone do Lplex.
O programa roda no DOS, e cria um “iso” e um diretório de DVD, no local do disco rígido onde os arquivos “wav” estavam. Qualquer um dos dois poderá ser usado, o mais prático no caso é abrir o “iso” com um programa tipo Nero, e queimar um DVD-R/RW para testes.
O usuário deve tomar cuidado com o nome dos arquivos fonte, porque o Lplex segue as regras de ordenação alfabética do DOS para criar as faixas do disco. Na dúvida, você pode renomear cada arquivo com um nome que dê para que a ordem da lista original não seja alterada, como por exemplo: track1-etc., track2-etc., e assim por diante.
O disco DAD criado toca em qualquer leitor de DVD! O Lplex usa telas (slides) em preto, e começa o tocar o programa de áudio sem passar por menu algum. Com isso, o usuário não precisa ligar a TV para ouvir o disco. Mais importante ainda é que o programa não adultera o conteúdo do arquivo “wav” original, mantendo assim o áudio em 96 kHz e 24 bits, de acordo com a fonte.
Antes de reproduzir o DAD recém criado, é importante verificar se o leitor de DVD está ajustado para saída de LPCM em 96 kHz, isto é, sem conversão para 48 kHz. Este ajuste é feito no setup do leitor e não é incomum os leitores saírem de fábrica com a conversão para 48 kHz ativada (só Deus sabe o porquê!).
Nós baixamos e fizemos testes com a peça “L’histoire Du Soldat”, gravada direta em estéreo de dois canais, no ano de 1956, e transcrita em 96/24 pela HDTT. Aqui em casa, apesar da qualidade relativamente limitada do sistema, a reprodução mostrou virtudes que eu não costumo encontrar nem nos melhores DVD-Audio que eu tenho. O som é dinâmico, com uma definição de fase e de transientes exemplares.
Nos extremos de freqüência, durante a reprodução de metais e dos tímpanos, o som continua limpo e com uma resolução bastante alta, típica, aliás, dos excelentes microfones a condensador (Telefunken e outros) usados no período. Na reprodução de violinos, a peça atinge o seu ponto alto, e este é um fator freqüentemente mais crítico na reprodução de alta fidelidade, e, portanto, prontamente apreciado pelas pessoas que buscam aliar qualidade de áudio com a qualidade da música.
A moral dessa estória, no final, é mais ou menos a seguinte: as gravadoras alegam prejuízo de pirataria, desinteresse do público e disseminação de codecs do tipo MP3, para não lançar mais muitos discos para o público. O download de álbums por arquivos Flac, das fitas originais, em repositório público, a preços abordáveis, nos parece ser a solução definitiva, para contentar a todos. Quem quiser o máximo de qualidade, pode fazer o seu DAD em casa, e quem se contentar com menos, poderá convertê-los para o formato que quiser.
O mais importante, no caso, é poder ter acesso aos acervos de gravações que a gente não espera nunca mais ver nas prateleiras das lojas. Em se tratando de repertório clássico, a questão da pirataria assume, na minha opinião, valor relativamente irrelevante! [Webinsider]
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1° Moabi Silva Data: 25/08/2008 às 12:45 pm
Atividade:
Cidade: São Paulo
Achei muito interessante essa matéria.
Mais pouca gente sabe o que é alta fidelidade sonora, se perguntar para a maioria das pessoas o que é o um equipamento de som estéreo e como isso funciona, acho que mais de 90% não saberão responder por que simplesmente não tem noção do que seja qualidade sonora, a maioria pensa que potência “geralmente estampado em PMPO” barulheira é sinônimos equipamentos de som de qualidade.
Em muitas residências se ver caixas acústicas colocadas de modo incorreto, uma perto demais da outra, ou uma em cima da outra ou ainda com sofás tampando os alto-falantes.
Imagina então tentar explicar para essa gente que o formato MP3 não tem a mesma qualidade de um CD ou ate mesmo de uma fita cassete de cromo. Por isso que acho difícil que o formato de arquivos flac se popularize.