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Paulo Roberto Elias
Áudio e vídeo

DTV e HDTV, a TV digital

17 de julho de 2008, 12:17

Entenda melhor os jargões de áudio e vídeo (7): a DTV brasileira criou uma expectativa positiva para a substituição do sinal do ar de má qualidade. Há diversos parâmetros envolvidos.

Por Paulo Roberto Elias

Mal o Brasil entra na era da televisão digital (DTV ou digital television, para os íntimos), e o acrônimo HDTV ganha força na mídia, e quem sabe um dia também na boca do povo. Mas, HDTV, que significa High Definition TeleVision, a rigor deveria se chamar TVAD ou TeleVisão de Alta Definição.

Só que, mais uma vez, o acrônimo em língua inglesa irá ter prevalência, assim como outros acrônimos e termos oriundos da informática, tais como PC (de personal computer) ou HD (hard disk). E por que não incluir também o termo home theater, que até hoje nunca teve tradução?

Na prática tudo isso pouco importa; o que realmente conta é que estamos diante de alguma coisa nova que já pode ser vista, mas pouco compreendida, em função da enorme complexidade que o termo HDTV representa.

A imagem de alta definição comporta atualmente os sinais de 720p (720 linhas de resolução vertical, em varredura progressiva com 1280 pixels cada uma), 1080i e 1080p (1080 linhas de resolução vertical, com 1920 pixels cada uma, em varredura entrelaçada e progressiva, respectivamente), mas a DTV chega, no máximo, a 1080i, e isso já é muito.

Note-se que o vídeo digital por excelência traduz-se pela varredura progressiva (todo o quadro da imagem é montado em seqüência), mas a origem analógica da HDTV é mostrada com o sinal de 1080i, ainda oriundo da tecnologia do tubo de imagem (CRT).

Se a tela do usuário for moderna, é possível que a imagem de 1080i seja convertida para algum sinal progressivo, de qualquer maneira. Na realidade, uma série de outras conversões vai ter que ocorrer, à revelia do usuário e de forma absolutamente transparente.

Em função disso, o termo HDTV deveria se referir principalmente à alta qualidade que a imagem de vídeo poderia alcançar, de preferência com o melhor áudio possível ao seu lado. Mas, para que isso se transforme em realidade, não basta uma emissora instalar câmeras HD no estúdio e sair gravando a fonte automaticamente. Este processo pode até dar um resultado que impressione as platéias, mas ele não reflete necessariamente o potencial que o sinal de HDTV pode mostrar.

E a explicação para isso é mais simples do que se imagina: em primeiro lugar, quando se trata de capturar uma imagem qualquer, uma série de parâmetros importantes entra em jogo: luz ambiente, cor, lentes, etc. O leitor mesmo pode fazer um simples teste, uma vez munido de uma câmera fotográfica digital decente: basta tentar fazer fotos em diferentes horários do dia, quando então notará que a cor varia de acordo com a luz incidente na foto. Por causa disso muitas câmeras à venda hoje em dia possuem programas para compensar essas diferenças.

Em um estúdio ou em tomadas em locação (por exemplo, ao ar livre) a iluminação é peça-chave para evitar problemas - e mesmo assim hoje em dia o processamento digital de imagens ainda poderá passar por pós-processamento, para evitar distorções de cor do material capturado. Por causa disso, um exército de novos especialistas técnicos é necessário, pessoas que sejam capazes de pós-processar este material de forma competente. Para isso existem os cursos de formação de pessoal na área, que, neste caso, não podem ser negligenciados, caso se tenha um mínimo de preocupação com a qualidade final do programa a ser transmitido.

Na história do cinema podem ser observados exemplos de cineastas que têm preferências por controle absoluto de iluminação de cena, como foi o caso de Alfred Hitchcock, que detestava filmagens em locação. Ou diretores como John Ford, ao contrário, que detestava estúdios e procurava sempre filmagens ao ar livre, sem quase ou nenhuma preocupação com a iluminação. É claro que ele dependia das habilidades do seu diretor de fotografia para fazer tudo funcionar de acordo com as intenções do roteiro, por isso até hoje ninguém pode ser queixar de falhas de estética ou iluminação nos seus filmes.

No caso específico do broadcasting brasileiro, se me permitem a ilação, os resultados são imprevisíveis. Existem aqueles profissionais com enorme preocupação com a qualidade final do produto gravado, mas existem outros que têm uma tendência mórbida em achar que o público aqui assiste qualquer coisa. Basta olhar os programas atuais de auditório, em várias emissoras, para se constatar o descaso com a qualidade de imagem.

Desnecessário dizer que, se com uma imagem standard a coisa fica feia, com alta definição ela ficará insuportável. Ou seja, com o advento da HDTV, ou essas emissoras tomam jeito, ou irão naufragar no mar de descontentamento daqueles que irão investir pesado num sistema HDTV, sem ver retorno nenhum que justifique este investimento.

Existe ainda um segundo outro aspecto da DTV que é bastante provável ter enorme influência sobre a HDTV: com a transmissão digital vem junto uma decisão, às vezes política, da maneira de se fazer uso das bandas de transmissão: a primeira hipótese seria usar a maior faixa para HDTV e o restante para sinais standard; a segunda seria abdicar da HDTV, para aumentar a oferta em resolução standard.

Aqui, essas duas vertentes poderão tomar caminhos diametralmente opostos.

O sinal digital para a transmissão é comprimido por um codec tipo MPEG-2 e no caso brasileiro, por H.264. A compressão implica em bit-rate variável, e quanto maior o seu valor menor será a compressão necessária e melhor a qualidade da imagem.

Na tentação de comprimir sinal, na mesma banda passante, é possível que haja um sacrifício significativo do sinal de melhor qualidade, para sobrar espaço para o de menor qualidade. Se isso acontecer, pouco irá importar a qualidade do sinal da fonte, porque vai ficar tudo nivelado por baixo! Não pense o leitor que o simples fato do sistema brasileiro de DTV operar com compressão por H.264 isso vai significar a inexistência dos efeitos da compressão de sinal sobre a qualidade do mesmo.

Todos os codecs, mesmo os mais modernos e eficientes, têm limitações que transcendem os seus méritos de suportar uma maior compressão. A maior evidência disso é o que a gente percebe nos discos Blu-Ray, onde MPEG-2 e H.264 se nivelam em qualidade ou em relativa falta de. Aliás, houve uma época em que se fazia críticas ao Blu-Ray por permitir o ingresso do MPEG-2 HD nos discos, que isso depunha contra o formato e outras baboseiras do gênero, mas o tempo mostrou que discos Blu-Ray autorados com MPEG-2 de forma cuidadosa mostraram imagens de excelente nível.

No que se refere à reprodução da cor, o conceito de compressão de sinal também se aplica, e o objetivo, para variar, é economizar espaço de memória.

A compressão do sinal de cor é possível, porque o olho humano reage muito mais às variações de luminância (variação da intensidade luminosa) do que a cada cor individualmente. Assim, o MPEG-2 do DVD, por exemplo, transmite cor por vídeo componente, onde Y (luminância), Cb (crominância do azul) e Cr (crominância do vermelho) estão na proporção de bits 4:2:2. No caso, o H.264 é capaz de suportar YCbCr na proporção de 4:2:0.

A fidelidade de cores (capacidade de se reproduzir tons ou gradações de cor) varia enormemente de uma fonte de sinal para outra. Com a alta definição se deve esperar uma maior fidelidade de gama de cores do que no sinal de TV convencional, mas somente a decisão de comprimir sinal para transmissão em maior ou menor proporção é que irá demonstrar se a cor será afetada.

Se alguém aqui acha que eu estou exagerando com esta estória de compressão de sinal, é porque não conheceu o som das emissoras de FM, quando o FM estéreo começou no Brasil: o som era limpo, com pouca compressão de dinâmica. Motivo: eram poucas emissoras no ar! Com o tempo, o Dentel (que era a Anatel daquela época) mandou as emissoras instalarem compressores de sinal, o que permitiu colar uma emissora na traseira da outra. O resultado imediato foi a perda de qualidade do sinal de áudio, com uma notória ausência da dinâmica original da música reproduzida.

Eu ainda não sei (e se o leitor já sabe, por favor, escreva aí embaixo) qual dessas duas vertentes de exploração de espaço de sinal irá prevalecer no sinal transmitido pelas emissoras. Mesmo não sendo nenhum adepto fervoroso da TV aberta, exceto para telejornais e esporte, eu sinceramente espero que a HDTV não siga o mesmo caminho da FM estéreo.

A DTV brasileira criou uma expectativa positiva de substituição do sinal do ar de má qualidade, motivo, aliás, pelo qual muitas pessoas fazem assinatura de sinais de televisão por satélite ou cabo. No caso, a DTV não precisa necessariamente transmitir HDTV para um grande número de pessoas, ou sinal de áudio multicanal 5.1. E tentar vender esta idéia para quem não tem e nem vai ter uma instalação de home theater a curto prazo é pura demagogia. [Webinsider]

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Sobre o autor

Paulo Roberto EliasPaulo Roberto Elias (miragem.prpelias @yahoo.com) é professor aposentado da Faculdade de Medicina da UFRJ, Departamento de Patologia, M SC pelo Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da UFRJ e PhD em Bioquímica pela Cardiff University no Reino Unido e mantém o site Miragem

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Palavras-chave relacionadas a este texto: [ TV, vídeo ] [ música ]

Comentários

9 pessoas comentaram o artigo "DTV e HDTV, a TV digital"

Gustavo Data: 17/07/2008 às 1:38 pm

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Venho acompanhando suas colunas e aprendendo muito com seus comentários.
Parabéns.

Paulo Roberto Elias Data: 18/07/2008 às 2:03 am

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Gustavo,

Muito obrigado, e vem mais uma sobre DTV por aí! Por favor, aguarde…

João Vergueiro Data: 19/07/2008 às 11:11 am

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Estive nos Estados Unidos recentemente e é gigantesca a compressão nos canais. Vários artefatos na imagem. Não sei se é limitação do sistema deles. Detalhe, vi compressão tanto na tv aberta quanto no cabo.

Roberto Monteiro Data: 23/07/2008 às 2:36 pm

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Cidade: Rio de Janeiro

Por falar em alta qualidade da “antiga” banda de FM estéreo, a quantas anda o HD Radio??!! Alguém sabe?

Fred Pacheco Data: 29/07/2008 às 9:20 am

Atividade: Gerente de Inteligência de Mídia Online

Cidade: São Paulo

Muito completo o artigo.
Mas, outro aspecto importante e ainda esquecido no Brasil é a capacidade de interatividade da TV Digital.
Vc saberia dizer a quantas anda este aspecto?

Paulo Roberto Elias Data: 29/07/2008 às 10:06 am

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Fred,

Até onde eu sei, o software que permite isso ainda não está incluso nos decodificadores à venda no momento. Eu imagino que, uma vez desatando todos os nós que amarram este assunto, a maioria dos quais a gente nem sabe quais são, o software deverá ser oferecido a quem já tem decodificador. Resta saber se isso vai ter algum custo e os decodificadores atuais têm previsão para incorporar este recurso.

jose renato barreto Data: 31/07/2008 às 5:32 pm

Atividade: empresario e fanatico por tecnologia

Cidade: santana de parnaiba - sp

Meu Guru

Desde ontem dia 30 e hoje 31/7 estou lendo seus artigos (que só agora descobri).

Tenho 61 anos e comecei meu “vicio” em tecnologia quando com o meu primeiro salário comprei um rádio
de pilha transistorizado, o máximo na época.

Passei pelas fitas cassetes, montando minhas fitas com seleções de músicas e analisando os diferentes tapes (chromo, metal).

Incontáveis dias passei no meus diferentes gravadores de cassete verificando a fita que apresentava menos “chiados” e tudo mais.

Comprei inúmeros discos de vinil e fui acompanhando pelas revistas especializadas a evolução das tecnologias que pareciam num primeiro momento definitiva e depois se mostravam superadas ou absurdas (quadrifonia e outras).

Depois da música passei para os VHS e agora obviamente estou dedicado à filmes, shows e etc. em dvd.

Tenho a minha sala de tv, que é o canto favorito,
com todas as cortinas, blackouts, tapetes e isolamento acustico onde assisto tudo numa LCD samsung de 40″.

Além disso sou muito exigente com os detalhes.

Se por um lado quando gosto de algo, tenho um prazer fantástico em ficar “fuçando”, por outro a decepção quando algo não corresponde também é enorme.

Mas por que to de dizendo tudo isso?

Porque sem conhece-lo pessoalmente, a sensação que tenho é que somos grandes amigos, por gostarmos das mesmas coisas e termos as mesmas afinidades.

É muito bom encontrar alguém assim.

Bom, agora preciso que me tires uma dúvida.

Antes de comprar essa LCD, eu possuia uma TV CRT philips wide de 32 polegadas.

Quando cheguei em casa com a nova LCD, fiquei decepcionado com a imagem das transmissãos de tv
normal e também da SKY.

As imagens parecem “lavadas” e em alguns casos manchadas ou seja o rosto de uma pessoa não reflete a imagem real.

As cores não são vivas.

Não dá aquela sensação gostosa de ver uma imagem bonita…

Já quando uso o DVD, aí a coisa é outra.
Imagem fantástica, sem defeito.

Tem a ver com transmissão analógica em um receptor digital? ou é a resolução que mostra tudo?

Por exemplo, quando vi num plasma de 42″ de um amigo, a mesma transmissão da sky, tive a sensação de uma imagem “melhor”, ainda que sem tanta definição.

Qual a miragem que estou vendo? se é que me entende.

E obrigado por você existir.

abraços

José Renato

Paulo Roberto Elias Data: 31/07/2008 às 10:38 pm

Atividade:

Cidade:

Caro José Renato,

Antes de mais nada, eu quero te declarar que é impossível não me sentir lisonjeado com as suas palavras, por demais generosas com a minha pessoa, podes crer!

Quando eu comecei o Miragem e depois esta coluna, tudo foi experimental e eu já passei por crises de dúvidas se vale a pena continuar o esforço, se eu vou encontrar público interessado no que eu escrevo e principalmente se eu vou estar de acordo com as possíveis expectativas dos leitores.

Eu torço e espero nunca ter a chance de desapontar alguém que lê os meus manuscritos. Não sendo engenheiro, em princípio nem deveria estar escrevendo sobre tecnologia, mas a vida é assim mesmo: eu conheci muito hobbyista por aí melhores do que os chamados profissionais e de minha parte eu me esforço para pelo menos me manter atualizado, coisa que muitos profissionais não fazem, e eu sinceramente não entendo por que.

Mas, deixando isso de lado, o que eu posso te dizer é o seguinte:

A maioria das pessoas que investe numa TV LCD raramente fica satisfeita com a imagem dos provedores de assinatura, e não se sabe exatamente, até onde eu pude pesquisar, se o problema está no processador dos aparelhos, se no péssimo sinal da fonte ou em ambos.

Neste ponto, eu entendo que a imagem de uma tela de plasma fica bem próxima do tubo de imagem convencional, mas, note bem, isto não quer dizer necessariamente que ela seja mais “correta” do que as telas com LCD.

Na Philips (seria uma Dwide?) de tubo, é bastante provável que a imagem dos provedores tivesse uma filtragem bem melhor. Parece público e notório que as telas atuais não são desenhadas com processadores dedicados ao sinal analógico do broadcasting que é, via-de-regra, muito ruim. E a melhor comparação, no caso, é mesmo com a imagem do DVD, que é standard, porém entregue sem os problemas costumeiros das transmissões por qualquer via. Mesmo os receptores digitais (Sky, Net, etc.) sofrem abusos de compressão, que são bastante visíveis numa tela decente (plasma ou LCD). É a mesma coisa que você pegar um DVD cheio de artefato e um Superbit, e comparar os dois!

Em última análise, eu não creio que a imagem de qualquer desses sistemas de transmissão possa servir de parâmetro para se rotular um painel como bom ou ruim. Já com a DTV, a situação é bem outra. Graças a um amigo meu, eu pude fazer algumas observações e este problema que você cita simplesmente desaparece, exceto pelas habituais lambanças das emissoras de televisão. E isso nos compele a concluir que o sinal analógico do broadcasting deteriora significativamente o sinal de estúdio.

Espero que você continue lendo as próximas colunas e aproveitando alguma coisa de útil delas. Nossa vivência no hobby é bastante parecida, mas a gente nunca sabe quando vai estar acrescentando algo de novo. E muito obrigado novamente pela leitura.

Abraço do
Paulo Roberto Elias.

Douglas Enry Data: 17/08/2008 às 12:58 am

Atividade: Publicitário / Produtor

Cidade: Niterói

É com muito orgulho que leio materiais como este.

Hoje sou um dos maníaco por tecnologia, conhecer e entender sobre tecnologia de ponta está no sangue.

Bom, concordo plenamente sobre os comentários e me junto a torcida do sinal com pouca compressão.

Alguém sabe de alguma pesquisa sobre o sinal HD?
E o Ginga? Será implementado antes da copa de 2014? Vamos torcer.

Um grande abraço.

Avisos
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