Os bens intangíveis e as fronteiras da economia
14 de julho de 2008, 20:31Os bens intangíveis não são rivais. Ao envolver uma segunda pessoa, os dois passarão a usufruir do mesmo bem, sem necessariamente competir pela sua posse, gerando uma espécie de propriedade comum ou coletiva.
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A humanidade conhece bem o desprezo da sociedade, em determinada época, por algo que aparentava ser um estágio de loucura de algum cientista ou pensador. O ditado popular reforça: ninguém é profeta no seu tempo. A profecia, quando se manifesta, é remetida à loucura ou à incompreensão.
Algumas tendências científicas, sociais e/ou culturais abordadas como profecias, certamente geraram atrasos irrecuperáveis na sociedade. O mais angustiante é que alguns desses “profetas” foram tratados com perseguições, prisões ou até mortes.
A comprovação do fato é bastante simples, pois respostas óbvias hoje geraram embates no passado. A Terra é plana? O Sol gira em torno da Terra? O átomo é a menor partícula da matéria? Podemos então perguntar: se investíssemos nessas teses antes, a humanidade teria avançado mais? Ao olharmos a trivialidade das perguntas, conseguimos afirmar que sim, mas outras pessoas, também com razão, defenderiam que tudo tem o seu tempo e o seu espaço.
Estamos convivendo na área econômica com o mesmo fenômeno “profético”: o estudo da economia dos bens intangíveis. Uma tese abandonada no passado, que se talvez fosse explorada desde a sua identificação, poderia transformar o modo de produção vigente e ampliar as fronteiras da economia mundial.
No passado, existia uma dificuldade técnica para sustentar tais estudos em função da impossibilidade de apurar com precisão os custos de produção dos bens intangíveis. Uma parte decorrente da sua difusão operacional e outra pela valoração adequada do trabalho de cada pessoa. Isto fez com que a produção colaborativa (ou social), como afirma Benkler, fosse abandonada por grande parte dos estudiosos. [1]
Atualmente, a emergente economia dos bens intangíveis ressurge com ancoragens cada vez mais fortes. Podemos afirmar que a revolução econômica proporcionada por esses bens pode, com grande êxito, auxiliar o mundo a gerar riqueza e, ao mesmo tempo, distribuí-la com mais igualdade.
O professor Francisco Proenza acredita que “as Tecnologias da Informação e Comunicação oferecem um conjunto de ferramentas sem precedente, uma oportunidade na qual toda cidadania pode ganhar, seja pela prestação de serviços, seja pela abertura de oportunidades para população a baixos custos, como nunca antes se tinha alcançado.” [2]
Se o professor nos alerta com tanta precisão para as oportunidades crescentes, a descrição do universo dos bens intangíveis é fundamental. Alguns dos mais conhecidos são: o conhecimento, o software, a música, a idéia, a informação, a cultura, etc. São muitas as facetas desse conjunto de bens pouco estudado pela economia clássica.
Os bens intangíveis por sua natureza não são rivais e nem indivisíveis. Isto significa que ao se envolver uma segunda pessoa na produção, no uso e na distribuição do bem, os dois passarão a usufruir do mesmo bem, ao mesmo tempo, sem necessariamente competir pela sua posse, gerando uma espécie de propriedade comum ou coletiva.
Existe ainda, uma capacidade adicional transformadora que é inerente aos bens intangíveis: incrementar novas qualidades em cima do bem produzido, sem depender de outra pessoa. Neste caso, o resultado do esforço produtivo individual pode gerar de forma inesgotável outros “produtos” diferentes, o que sinaliza para um ciclo independente de produção. Assim, cada pessoa, grupo ou organização se tornam potenciais produtores de um bem.
Muitos economistas podem ter abandonado no passado tal estudo, assim como o assunto ainda é acompanhado com timidez no presente. Porém, a sociedade vem impulsionando de forma natural o modelo da produção dos bens intangíveis traçado na colaboração, que se fortalece a cada ano em função da estrutura de “muitos para muitos” proporcionada pela anárquica internet.
Ao trazer à tona o abandono do estudo da economia dos bens intangíveis, não se pretende operar uma caça as bruxas. Longe disso. Trata-se de animar os cientistas econômicos a pensar nos modelos “diferentes” da Teoria Econômica Clássica. Um desafio complexo, pois tais modelos fogem de fundamentos consolidados na sociedade, dentre eles: o princípio da escassez, de Adam Smith, a Teoria do Valor, de Marx e a estrutura da organização burocrática, de Weber.
Ao “enfrentar” as teorias clássicas, não se cria uma colisão teórica ou se comete heresias científicas. Ao contrário, todos os pensadores acima tinham e têm inestimáveis (e até insubstituíveis) contribuições, que foram dadas ao seu tempo. Mas, a revelação de Benkler do abandono desse estudo, indica a necessidade de retomarmos o curso dos bens intangíveis.
Alguns pesquisadores apontam que ciclos virtuosos na economia são raros. São momentos em que toda humanidade usufrui da produção, do acúmulo e da distribuição de riqueza. Parece que o momento começa a se desenhar na economia global, e aparentemente surgirá da economia intangível.
A definição deste novo modelo possibilitará atingirmos, de modo estruturado, um cenário em que trabalha-se com qualidade e valoriza-se o conhecimento, sendo o retorno financeiro uma conseqüência natural da capacidade profissional e a colaboração um princípio que antecede ao da competição. Para tanto, a formação de ecossistemas de produção colaborativa serão essenciais.
Mais do que observar a necessidade de desarrumação de convicções estabelecidas, torna-se necessário se inspirar no fenômeno que vem se formando para a organização de um novo modelo de produção, que conjugue os princípios econômicos clássicos, com a nova fronteira baseada na economia dos bens intangíveis. [Webinsider]
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Notas:
[1] BENKLER, Yochai. The Wealth of Networks, How Social Production Transforms Market and Freedom, Yale University Press, 2006, pág. 108.
[2] PROENZA, Francisco; E-Paratodos: uma estratégia para redução da pobreza na Era da Informação, pág. 177, Software Livre e Inclusão Digital, Editora Conrad, São Paulo, 2003
Este artigo foi publicado no Jornal Monitor Campista, em 13 julho de 2008, na seção de Tecnologia, página D8.
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1° Samara Brochado Data: 15/07/2008 às 5:22 am
Atividade: Mestranda
Cidade: Porto
Olá Corinto,
Realmente é um tema muito pertinente este. Tal como enfrento hoje autores como o renomado Aaker, que, fora um dos poucos que realmente procurou identificar o valor intangível das marcas, através do próprio mercado económico, é válido verificar até que ponto os “ativos” passíveis também influenciam no valor de uma marca, bem, serviço ou produto.
Acredito aqui, que a discussão deveria ser mais interdisciplinar entre áreas como Economia, Recursos Humanos e até mesmo o Marketing como ponto de verificação de níveis de resultados.
Como já dito, parabéns novamente pela matéria.