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Potencial ou real: quanto você pagaria pelo Yahoo?

03 de julho de 2008, 14:46

Como pode ser seguro, concreto e real um setor onde o valor da mercadoria é medido pelo seu potencial de receita e não pelo retorno real financeiro?

Por Gustavo Audi

Há alguns anos, apresentaram-me a seguinte situação: quem é mais rico, um sheik, dono de castelos e jazidas de petróleo, ou Bill Gates, dono de papéis e números em uma conta bancária? Esquecendo a simplicidade da pergunta, aprendi a valorizar mais o concreto do que uma fortuna virtual.

Entretanto, mudei minha cabeça devido à importância que a internet passou a ter na economia mundial (segundo o IDC, em 2011 o gasto mundial com anúncios online será de 106,6 bilhões de dólares).

Em fins dos anos 90, o mundo colheu o que plantou na década de 1970, na revolução da tecnologia da informação: novos produtos e processos incentivaram a concorrência e a produção. A desregulamentação liberou os mercados internacionais e a fusão de empresas criou megacorporações. A nova economia é global e em rede, assim como o mercado financeiro.

As empresas da internet estão inseridas nessas novas indústrias da tecnologia. O investimento na web elevou as ações das empresas pontocom. A expectativa dos investidores estava nas novas fontes de desenvolvimento econômico. O potencial das empresas da internet era uma promessa para a obtenção de lucro.

O valor das ações não correspondia ao real retorno financeiro das empresas. E, em 2001, os investimentos foram interrompidos e a Bolha estourou, levando centenas de empresas à falência.

No entanto, não foi de todo ruim esta crise, pois a internet amadureceu bastante depois.

Crescimento do número de usuários, retorno dos investimentos em inovação… Sete anos depois, a internet vive nova febre de valorização. Empresas grandes compram menores, novos serviços são criados a cada dia, investimentos milionários são distribuídos por diversas iniciativas. A economia está profundamente ligada e empolgada.

Então, é o melhor momento para parar e se perguntar: como pode ser seguro, concreto e real um setor onde o valor da mercadoria é medido pelo seu potencial e não pelo retorno real financeiro?

Não acredito em uma nova bolha. Mas acredito que algo está errado neste cenário. Investidores movidos pela possibilidade (repito: possibilidade) de adquirir ações de uma “super inovação” injetam seu dinheiro em algo que, em valores monetários, não vale aquilo.

O recente caso da proposta que a Microsoft fez pelo Yahoo ilustra bem o que eu quero dizer. A eterna empresa de Bill Gates ofereceu 44,6 bilhões de dólares em fevereiro de 2008. Depois de recusada a oferta, a Microsoft, em maio, elevou a proposta para 47,5 bilhões. E, enquanto isso, as ações do Yahoo flutuavam na bolsa de valores…

No caso do Yahoo, e de inúmeros outros casos na internet (como o Youtube, que foi comprado em 2006 pelo Google por 1,36 bilhões de dólares), a oferta não é sobre o potencial de lucro com o serviço, e sim, sobre o valor do nome. Os investidores compram a idéia e não o bem.

O problema é que web é um ambiente de riquezas virtuais, intangíveis, e, portanto, frágeis. Sem desmerecer iniciativas como o Yahoo ou Youtube, é perigoso atribuir tanto valor e de forma tão especulativa. Acontece hoje uma falta de noção no sistema de atribuição de valores financeiros – o critério principal é o que o mercado está disposto a pagar (baseado ou não pelo investimento já realizado sobre a iniciativa – o LinkedIn está avaliado em um bilhão de dólares devido a investimentos de algumas empresas). O valor cresce na medida em que novas propostas se sobrepõem.

E isso ocorre não só na internet: você acredita realmente que o Obina, jogador de futebol do Flamengo, merece aquele salário se basearmos o valor no retorno produtivo que dá à torcida?

Um exemplo que reforça a minha cabeça pré-revolução-internet, é uma comparação citada por Manuel Castells em “A Sociedade em Rede” sobre a Nova Economia, antes da bolha de 2001.

Ele compara a América On Line com a General Motors: a primeira possui dez mil empregados e receita de US$ 68 milhões no último trimestre de 1998, sendo avaliada em US$ 66,4 bilhões; a segunda empregava 600 mil trabalhadores e declarava receita trimestral superior a US$ 800 milhões. O normal seria a GM valer mais que a AOL, todavia o valor das ações totalizava US$ 34,4 bilhões, pouco mais que a metade do valor da AOL.

Acredito que o valor deve ser permeado pela popularidade e pela receita possibilitada pelo serviço, seja através do pagamento direto e indireto por parte do usuário ou da publicidade. Um cálculo poderia ser formulado baseado nestas duas variáveis: receita e popularidade; sendo que popularidade leva em conta o simples acesso ao site, número de usuários cadastrados, comentários positivos e negativos e tempo de permanência.

A relevância poderia ser mais que um guia para a propaganda, deveria ser o limitador das propostas de compra (lembra do caso do Obina?)

Resta a nós criarmos mecanismos para controlar nossos corações investidores e sabermos dosar o quanto estamos dispostos a pagar pela nova economia. [Webinsider]

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Sobre o autor

Gustavo Audi (gustavoaudi@fiocruz.br) é formado em Rádio e TV pela UFRJ, trabalha com produção de vídeo para a Fiocruz e é especialista em Mídias Digitais pela UNESA.

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Comentários

4 pessoas comentaram o artigo "Potencial ou real: quanto você pagaria pelo Yahoo?"

Leonardo Corletto Data: 04/07/2008 às 11:55 am

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Gustavo,

este “fenômeno” não passa nem perto de ser uma coisa restrita à Internet. Valor potencial e especulação existe há muitos anos.

Investidores compram empresas pelo o que ela PODE valer no futuro e não pelo que ela traz de retorno no momento. Clubes estrangeiros pagam milhões por jogadores brasileiros pelo o que eles PODEM trazer de retorno ao seus times. Não há novidade nenhuma ai, meu caro.

Isto para não falar no valor de marcas. Empresas pagam bilhões por marcas, apenas as marcas, sem ativo nenhum. Sempre foi assim. Mas discordo que este tenha sido o caso do Google com o Youtube. O Google comprou milhões de usuários assíduos por consumir vídeos. Eles acreditam SIM que isto tem algum valor e que poderia trazer retorno no futuro. Ainda não chegaram lá…

Discordo de novo sobre uma nova forma de calcular o valor de uma empresa. Popularidade só tem valor se tiver potencial de receita. O que você quer então, é uma fórmula para calcular o potencial de receita de popularidade. Isso não existe, cada caso é um caso. 10 milhões de usuários no Orkut têm valor completamente diferentes de 10 milhões de usuários em Busca.

Abs,

Gustavo Audi Data: 04/07/2008 às 3:02 pm

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Leonardo,

Obrigado por ler e criticar o texto. Aí vão as minhas explicações…
Você definiu bem o que eu ataco neste artigo: especulação. O meu objetivo é levantar a questão de até onde ela pode ir, até que valor um bem pode chegar, e não a especulação em si. Isso realmente não acontece somente na internet (como no caso do Obina) e não é algo novo, de fato. Chamo atenção ao valor especulativo que se está chegando nesta nova economia, mais especificamente na Web.
Não sou economista, mas considero no mínimo perigoso dar tanto valor a algo virtual: um jogador de futebol é concreto, uma empresa automobilística é concreta – um site só existe no ambiente digital, abstrato. A OGX, de Eike Batista, levantou mais de 6 bilhões de reais no seu IPO (oferta pública de ações), mas é uma empresa petrolífera de uma pessoa bem sucedida. Para mim, é um erro comparar o valor da indústria do petróleo com o valor da internet (a OGX vale 36 bilhões de reais). O Banco do Brasil vale 75,7 bilhões de reais. Realmente, quem acha que o Yahoo vale mais que esse banco?
Acredito que esses sites, portais, aplicativos, possuam grande valor, principalmente pelo caráter inovador, mas discordo do patamar da quantia dada a eles.
Não a especulação, mas a Web é um fenômeno novo. E por isso, as pessoas ainda estão descobrindo como utilizá-la (tanto do lado do desenvolvedor quanto do lado do usuário). A minha proposta é o equilíbrio (conceito que eu acho fundamental em qualquer área) na metodologia do aprender-fazendo.
Sobre o cálculo, se uma empresa usa a relevância de um site para definir sua propaganda nele, porque não usar este mesmo cálculo para atribuir valor no momento da compra ou investimento? O que proponho é dar o valor a partir da análise de diversas variáveis, e não de apenas uma. Como você mesmo lembrou, o público, por exemplo, é mais uma variável que poderia ser usada.
Entretanto, o que chamamos de fórmula poderia, também, ser chamada de bom senso.

abraços

Fred Pacheco Data: 06/07/2008 às 11:29 pm

Atividade: Gerente de Inteligência de Mídia Online

Cidade: São Paulo

Gustavo, também gosto de passar um tempo refletindo sobre os atuais processos de valuation - ou precificação de uma empresa. Está cada vez mais dificil ter um valor absoluto.

Mas, o fato é que não deve basear-se apenas em sua capacidade de geração de receita. Independente da web, as empresas já valiam também por suas marcas, conhecimento, processos e até quadro funcional.

O Yahoo! para mim vale muito pouco, pois não vou conseguir gerar mais receita e vou sucumbir frente ao Google. Já para a Microsoft vale muito, pois irá levar além de uma forte marca, tecnologias de ponta, conhecimento sobre o mercado e sinergia! Com a competência da Microsoft este potencial pode virar dinheiro!

Concordo, novamente, que tudo isso deva sim ser calculado de forma exata e sem emoção. Mas, todos os elemento devem ser considerados: quanto a empresa gera de faturamento, quanto valem em estudo as tecnologias incorporadas ao negócio, quanto a marca pode agregar de valor adicional ao mesmo negócio feito por outros, quanto a sinergia da empresa comprada e da compradora pode economizar em custos. Tudo isso deve ser avaliado!

Tony Ferraz Data: 10/07/2008 às 3:37 pm

Atividade: Gerente de e-Commerce

Cidade:

Bom, pesando racionalmente, pelo ponto de vista concreto, lógico que a situação é absurda. No entanto nas últimas décadas o valor do intangíveis tem sido cada vez mas importante, tanto para o mercado, quando para os investidores.

Isso, obviamente gera situações que não parecem estruturalmente corretas, mas advém da possibilidade da perenidade das marcas, independetemente das condições de mercado.

A associação da BMW com segurança, por exemplo, faz com que, mesmo após uma crise de petróleo que impeça fabricação ou utilização de automotivos, ela possa se dar muito bem, e ser muito bem aceita pelo consumidor no setor de segurança, fabricando dispositivos para as mais diversas utilizações, e não só para carros.

E concretamente também, a soma das ações disponíveis na bolsa nunca tiveram uma relação absolutamente direta com os lucros da companhia, mesmo porque, nem todas tem distribuição de lucros para os acionistas.

Querer mexer nessa forma de mercado, é o mesmo que querer que a taxa de juros, o índice da poupança, ou o câmbio tenham relações únicas com o volume de dinheiro que se movimenta, e não com especulações, ações do governo, credibilidade, e milhões de outros fatores não concretos. Afinal de contas, se ter ou não ter garantia influem no preço real de um produto, pq não seria o mesmo com o mercado de capitais?

Na verdade o capital aberto é uma forma de investimento abstrata, quase como um jogo, que vale na verdade, quanto dinheiro se põe lá e só. No fim das contas, é, e sempre foi, tudo virtual mesmo(e melhor que poupança… rs).

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