Ambiente digital mudou o processo de aprendizagem
11 de junho de 2008, 19:14O ensino hoje lida com estudantes que nasceram, cresceram e aprendem muito mais pela experimentação e vivência própria do que pelos relatos, experiências e cases de terceiros.
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Em mais uma noite na universidade, uma de minhas alunas muito naturalmente exclamou: “Nossa, professor, é muito estranho escrever”, ao comentar a dificuldade (física, não intelectual) em responder as questões de uma prova feita com uma caneta, aquele objeto ainda utilizado por algumas pessoas para escrever e necessário em algumas avaliações no meio acadêmico. (A propósito, devo dar o crédito pela frase para poder escrever o artigo, obrigado Clarissa Wagner.)
Este fato, e um vídeo sensacional que assisti da Kansas University, me fizeram tentar entender um pouco mais sobre como é o processo de aprendizagem (e, como professor, claro que também o processo de ensino) para estudantes que nasceram num mundo digital, considerando todo impacto comportamental e social que ferramentas online proveram a esta geração.
A relação professor-aluno, a clara imagem de um ser único provido do conhecimento através de anos de estudo e leitura e seu pupilo, carente de informações e de direcionais sobre como conhecer novos fatos e replicar fórmulas de sucesso pré-concebidas é algo que há muito já não mais existe.
Todos que nasceram sob um mundo com excesso de informação (information overflow, como cito) desenvolveram novas formas de lidar com todo o conteúdo que lhes é apresentado. Os 160 bilhões de Gb produzidos no último ano e os demais bits desde o ano em que estes meus alunos nasceram, obrigam-nos a absorver de forma superficial uma quantidade enorme de estímulos e a filtrar pequenos trechos do que é relevante e efetivamente entrega o conceito principal sobre o conteúdo, para que tenham tempo de serem impactados por outros e outros estímulos.
Em outras palavras, este é o conteúdo a ser passado:
“Ontem fui ao shopping para fazer compras de inverno, desci a escada rolante e, bem em frente àquela nova lanchonete de fast-food que abriu no segundo subsolo, olhei paro o lado e vi a atriz Fulana, que faz o papel de empregada doméstica na novela das 18h, comprando equipamentos de esqui, junto com aquele cantor Beltrano”
Este é o conteúdo absorvido:
“Vi a Fulana no shopping com Beltrano”
Olhando bem, a essência da informação foi colocada, mas uma grande quantidade de informação foi dispensada. O que ocorre é que nem sempre a informação dispensada é realmente dispensável, ou pior, nem sempre o conteúdo absorvido traduz o cerne da informação a ser transmitida, completa ou parcialmente.
Isto impacta, claro, na forma como a aprendizagem acontece nas escolas e universidades. E não adianta os mais puristas reclamarem, descabelarem-se e tentarem subjulgar ou penalizar nas salas de aula o comportamento replicado do dia-a-dia destes estudantes; a “geração e” nasceu, cresceu e aprende muito mais pela experimentação e vivência própria do que pelos relatos, experiências e cases de terceiros, sejam eles professores, autores ou o Michael Porter.
A falta de capacidade em aprofundar-se em qualquer tema que lhes é apresentado é refletida na baixa adesão à leitura da bibliografia apresentada. Em resumo, quem consegue ficar tanto tempo dedicado a um único conteúdo, enquanto é bombardeado constantemente por outros diversos?
Os livros são efetivamente usados pelos estudantes que querem, rapidamente, tornarem-se especialistas num determinado tema, usualmente porque está relacionado ao direcional de sua carreira ou a um forte interesse pessoal. Do contrário, não é relevante, click no cérebro e na atenção dispensada.
O aprendizado, desta forma, se dá bastante pela vivência e pela forte capacidade que tem de criar links entre as idéias, novas associações que normalmente envolvem vários assuntos diversos simultaneamente; por este motivo, uma disciplina não pode viver isolada de todas as demais ligadas à área de especialização, bem como a todo o mundo.
Minha disciplina - Comunicação Digital - tem relação e impacto direto em Planejamento, Mídia, CRM, e também pode influenciar Finanças, RH, Gestão de vendas bem como Teologia, Evolução das espécies e Economia doméstica. Nada mais vive isolado em diferentes tubos de laboratório. Toda informação irá impactar necessariamente uma área de conhecimento diversa e essa correlação é bastante clara para os graduandos.
A transmissão de conhecimento, portanto, será feita à medida que os alunos sentem-se desafiados a realizar coisas, a fazer o que lhes está sendo ensinado, sem que isto tenha um peso avaliativo. Quer dizer, fazer também trabalhos em sala “sem valer pra nota”, onde a execução é monitorada e continuamente revista, a fim de que aprendam fazendo.
Claro que a digitalização do conhecimento também trouxe um grande vilão para o desenvolvimento intelectual, a famosa combinação Control+C, Control+V, assunto para um próximo texto.
Finalizando, a idéia de aprender por experimentação não é (nada) nova; o que é relativamente novidade é o fator que catalisou esta prática. Como dizia o supra-citado vídeo da Kansas State University sobre a visão dos estudantes hoje:
“Se estas paredes pudessem falar, o que elas diriam? Se os estudantes aprendem o que fazem, o que eles estão fazendo sentados aqui?”. [Webinsider]
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1° Gláucia Roberta Data: 11/06/2008 às 9:08 pm
Atividade: Prof. de Graduação
Cidade: Belo Horizonte
Que a forma de aprendizagem mudou é fato, entretanto aprender apenas ou focado na experiência sempre leva a questão: como praticar e/ou experimentar algo que não se conhece? Sabe-se que toda tecnologia, práticas empresariais e inovações só têm condições de ocorrer após uma base fundamentada em conceitos, estes que não são absorvidos apenas na tentativa e erro. O que tenho percebido é uma geração que vive na tão chamada sociedade da informação se transformando em um grupo cada vez maior de jovens e adolescentes que não conseguem raciocinar o mínimo necessário para conseguir interpretar e associar um oração de três linhas. Será que o mercado está esperando e precisando destes que não conseguem somar um mínimo de informações necessárias para se escrever? (aqui a dificuldade de escrever não é apenas física e sim incapacidade de se colocar no papel, ou no notebook algumas linhas úteis sobre qualquer assunto que esteja ocorrendo mundialmente, ou seja, fora do mundinho que estão vivendo.