Preservação de fonogramas
25 de fevereiro de 2008, 0:01Comemoração dos 50 anos da bossa nova levanta a questão da memória áudio-visual no país.
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O ano de 2008, segundo o consenso de historiadores, marca os 50 anos do início “oficial” da bossa nova, levado a efeito nos estúdios da Odeon, no Rio de Janeiro, e concretizado no disco em 78 rpm “Chega de Saudade”, onde João Gilberto interpreta de maneira peculiar a agora composição clássica de Tom Jobim e Vinícius de Morais.
Na verdade, ninguém sabe precisar, até hoje, aonde e como a bossa nova começou, quem foram todos os seus precursores ou inventores, e isso parece um tema que invoca uma discussão que parece que nunca vai ter fim. No entanto, é possível se admitir que a bossa nova foi se cristalizando naquilo que a gente conhece dela hoje, através do esforço coletivo de um monte de compositores e músicos, alguns dos quais, diga-se passagem, estão há tempos no esquecimento cultural que é típico deste país sem memória e que teriam merecido o seu justo lugar na importância histórica deste movimento.
Francamente, não adianta os políticos correrem rapidamente para tombar a bossa nova como herança cultural do Rio de Janeiro, sem que haja uma contrapartida concreta de recuperação de todo o material fonográfico e áudio-visual, que ainda existe por aí, mas cujo acesso, ao longo dos anos, se tornou quase que impossível aos habitantes desta parte do planeta.
Basta dizer que no mercado fonográfico japonês a oferta de discos de bossa nova tem sido infinitamente superior à nossa, portanto os japoneses fazem aquilo que nós aqui já deveríamos estar fazendo há décadas atrás, antes que este patrimônio desapareça. Aqui, a Odeon colocou alguns títulos importantes, na série “100 anos de Odeon”, mas ficou por isso mesmo. Iniciativas de outras gravadoras foram ainda mais esparsas.
Infelizmente, e eu digo isso com imenso pesar, a história oficial da bossa nova, se tem explicações sobre o banimento do gênero, estas nunca foram devidamente discutidas pelos historiadores. Eu, que não sou historiador, mas vivi parte desta época como ouvinte, entendo que, salvo melhor juízo, a bossa nova foi oficialmente assassinada em fins da década de 1960. E anos antes de isso acontecer, um número significativo de músicos brasileiros já tinha cruzado fronteiras, na expectativa de sobreviver, sendo muitos daqueles que voltaram se tornaram invisíveis aos olhos do público ou esquecidos pela mídia.
A bossa nova foi, no meu entendimento, uma vítima sem socorro da intolerância cultural e do ressentimento por parte de vários críticos de música, compositores e adeptos do samba tradicional, que viam nela uma abertura para uma suposta “intromissão” de gêneros musicais estrangeiros na música pátria. Pode ser que hoje esta história seja contada de forma diferente, mas naquela época a bossa nova foi rapidamente rotulada por diversos exegetas de “música da elite da classe média carioca” ou algo nesta direção.
E no tocante à imprensa, ninguém na minha observação de adolescente foi mais contundentemente contra a bossa nova do que o crítico José Ramos Tinhorão. Tinhorão não foi apenas mais um desaprovador do movimento, ou um scholar tentando impor seu ponto de vista, ele foi um militante ativo, nas hordes dos jornais, contra o que ele dizia em público ser “a influência norte-americana (entenda-se “do jazz”) nesses rapazes da zona sul do Rio”.
E por acaso a bossa nova não influenciou o jazz também? Não seria o caso dos americanos reclamarem da invasão cultural na música que eles criaram? Mas, não foi isso que eles fizeram, foi? Na realidade a bossa nova como tal só sobreviveu exatamente porque americanos e europeus a receberam de braços e ouvidos abertos, entenderam a sua transcendência, a cultivaram e a preservaram, dando assim uma lição de moral àqueles que agiram aqui para destruir o movimento!
Se Tom Jobim, por exemplo, não tivesse se afastado do Rio de Janeiro, para ir aos Estados Unidos gravar, nós hoje não teríamos álbuns como “Wave” (A&M) “Tide” (A&M), ou “Stone Flower” (CTI/CBS/Sony) e “Matita Perê” (Philips), todos eles imperdíveis.
Não adianta querer negar que músicos como Tom Jobim e tantos outros de igual valor, como por exemplo Newton Mendonça, nunca tiveram o devido valor político-social, enquanto vivos, nem mesmo em praias cariocas. E neste ponto, distorcer a história, passados cinqüenta anos, não vai resolver nada. Tem muita coisa que ainda pode ser feita para consertar tudo isso. Primeiro, e principalmente, resgatar a memória do movimento e a dignidade dos músicos, principalmente daqueles que estão vivos e esquecidos por aí. Segundo, resgatar fonogramas de discos importantes e os tornar disponíveis ao público brasileiro.
No tocante a fonogramas, uma série significativa de gravações antológicas da bossa nova foi realizada nos estúdios da Philips. A maior parte deste acervo foi gravado pela dupla Sylvio Rabello (engenheiro) e Célio Martins (técnico). Por mero fruto do acaso, eu tive a sorte de conhecer o Sylvio Rabello, porque ele era o pai de uma colega de campus universitário. Naquela época, eu soube que ele havia montado o estúdio da Philips (Companhia Brasileira de Discos) com as próprias mãos. Este estúdio era mono, mas ele foi substituído por um sistema estereofônico, circa 1964. Embora tecnicamente limitadas e de certa forma artesanais, essas gravações tinham um som bastante musical.
Uma vez reproduzidas corretamente, e enviadas para um computador dotado de software adequado, as correções devem ser feitas de forma muito conservadora, para evitar introduzir distorções. Idealmente, a remasterização e a restauração (se necessária) devem ser feitas por pessoas ligadas à produção original no estúdio. Esta experiência é fundamental, para a correta recuperação de fonogramas gravados no passado. Nos estúdios da Mercury, por exemplo, toda a série “Living Presence”, gravada pelo lendário engenheiro Bob Fine, foi transcrita do analógico de 3 canais para o digital (SACD, inclusive), com a presença da viúva do engenheiro, que foi sua assistente e sabia exatamente o alinhamento correto e o som que deveriam ser obtidos.
Remasterização e restauração
Em tese, a recuperação de fonogramas ocorre em duas etapas: na primeira, as fitas analógicas matrizes (chamadas de “madres” ou “masters”) são colocadas, de preferência, em tape decks originais ou compatíveis, corretamente alinhadas (existe, normalmente, um som guia, na própria fita, para fazer isso), e aí transferidas para mídia digital.
Este processo é chamado de remasterização. Em casos onde a fita master está com a sua integridade física comprometida, ainda assim é possível “cozinhar” a fita numa estufa em torno de 60 ºC, e depois reproduzi-la imediatamente. O processo de aquecimento provavelmente resultará na perda total do conteúdo depois disso, portanto ele é normalmente feito por técnicos especializados em restauração.
Na etapa seguinte, são feitos ajustes, através de filtros criteriosamente aplicados, e se necessário for, por algum tipo de remixagem (por exemplo, de 4 canais para 2), ou equalização. Em todas essas etapas, é preciso tomar cuidado, para se evitar erros que conduzam a distorção ou desequilíbrio tonal. Um software adequado pode eliminar ruídos de impulso ou sibilado das fitas, sem qualquer deturpação do conteúdo. Este último processo é chamado então de restauração. Entre os programas mais usados para esta finalidade estão o NoNoise, da Sonic Solutions, o do equipamento integrado Cedar, e outros.
O uso de compressores ou limitadores de pico, freqüente em vários estúdios especializados brasileiros, é questionável e, no meu entender, desnecessário, podendo inclusive arruinar por completo todo o trabalho de recuperação dos fonogramas.
A vantagem de se trabalhar em ambiente digital, em todas essas etapas, é fazer uso da extrema precisão de cálculo que os computadores possuem. O computador enxerga o áudio não como ondas senoidais (embora ele possa simular isso na tela), mas como valores resultantes da amostragem e da quantização dessas ondas. Assim, qualquer alteração que envolva a manipulação da onda sonora original leva em conta apenas os cálculos matemáticos necessários para se completar uma dada tarefa.
Por exemplo, se eu quiser passar um filtro com diminuição de 0,5 dB em 5 kHz, o computador irá procurar todos os locais do arquivo onde esta freqüência está presente, diminuir exatamente 0,5 dB, mantendo o resto do programa inalterado. Num sistema de filtragem analógico semelhante, esta tarefa é virtualmente impossível, já que circuitos analógicos afetam também freqüências próximas. A limpeza digital ficaria ainda mais fácil se o ruído original da fonte for constante, como por exemplo, no chamado “hiss” (sibilado) da fita analógica. Neste caso, o computador diminui todo o programa, na freqüência desejada, e na amplitude desejada, sem alterar as freqüências adjacentes.
No caso de ruídos de impulso, como estalos, o ruído é isolado (até manualmente, se for necessário), de acordo com a duração do mesmo (tempo de ataque, pico e queda, respectivamente), e então o computador retira o ruído e depois corrige a onda original, se for o caso, por extrapolação estatística do seu formato mais provável.
Em síntese, a preservação de fonogramas é tecnicamente viável, e dentro do alcance da maioria dos estúdios especializados brasileiros. O que falta mesmo é as pessoas aqui tomarem coragem, parar com essa choradeira de que música dá prejuízo, e começarem a recuperar este acervo, divulgá-lo, e torná-lo acessível e visível, para que todos possam se dar conta de verdade da nossa riqueza de talentos e dar o justo valor a quem um dia mereceu! [Webinsider]

Edição japonesa do antológico A Grande Bossa dos Cariocas. Quem quiser ouvir o som original da matriz em estéreo, que nunca saiu nem em Lp, vai ter que importar o disco!
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1° Armando Pittigliani Data: 25/02/2008 às 2:18 pm
Atividade: MIlitante Fonográfico
Cidade: Rio de Janeiro - CEP: 22471-003
Se, por um lado, fico feliz em darem o merecido crédito do Celio Martins e ao Sylvio Rabelo, por cuidarem da parte técnica da gravações de bossa nova da Cia. Brasileira De Disco (Philips), por outro lado, fico mais uma vez decepcionado com a completa omissão do meu nome, sem falsa modéstia, responsável pela quase totalidade das gravações de BN na referida gravadora. Quanto ao LP de “Os Cariocas”, o mesmo (também de minha produção) foi originalmente editado no Brasil pelo selo Philips.
No momento, o Sr. Eboli, atual presidente da Universal Music,detentora do referido catálogo da Philips, planeja, com a minha colaboração reeditar todos os discos de bossa nova que ainda restam, inéditos em CD, no catálogo.