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Educação e ensino

O professor está sempre errado

15 de fevereiro de 2008, 19:50

A capacidade de admitir falhas em sala de aula é fundamental para o professor, e ao contrário do que se imagina, pode até melhorar a relação com seus alunos. Um pequeno ensaio sobre a atividade docente e a falibilidade humana.

Por Sthefan Berwanger

Lembro que a alguns anos, logo que comecei a dar aulas nos cursos Superiores de Tecnologia, entrei na sala dos professores, e me deparei com o seguinte texto afixado na parede, cujo título tomei emprestado, e abaixo reproduzo integralmente:

O Professor Está Sempre Errado

Quando…
É jovem, não tem experiência.
É velho, está superado.
Não tem automóvel, é um coitado.
Tem automóvel, chora de ‘barriga cheia’.
Fala em voz alta, vive gritando.
Fala em tom normal, ninguém escuta.
Não falta às aulas, é um “Caxias”.
Precisa faltar, é ‘turista’.
Conversa com os outros professores, está “malhando” os alunos.
Não conversa, é um desligado.
Dá muita matéria, não tem dó dos alunos.
Dá pouca matéria, não prepara os alunos.
Brinca com a turma, é metido a engraçado.
Não brinca com a turma, é um chato.
Chama à atenção, é um grosso.
Não chama à atenção, não sabe se impor.
A prova é longa, não dá tempo.
A prova é curta, tira as chances do aluno.
Escreve muito, não explica.
Explica muito, o caderno não tem nada.
Fala corretamente, ninguém entende.
Fala a ‘língua’ do aluno, não tem vocabulário.
Exige, é rude.
Elogia, é debochado.
O aluno é reprovado, é perseguição.
O aluno é aprovado, ‘deu mole’.
É, o professor está sempre errado mas, se
você conseguiu ler até aqui, agradeça a ele!”

Tinha achado sensacional o que tinha acabado de ler! Era dia do professor e alguém ali fixou o texto. Peguei uma cópia e fiz outras tantas cópias, para distribuir entre os meus alunos do curso.

Então um deles me falou: “E aí professor hoje é o seu dia! Vamos tomar uma gelada lá na ‘padoca’ (padaria) depois da aula?”. Por um momento pensei que não seria mal, porém ponderei que, a partir do momento em que me formei e passei a dar aulas, percebi que tinha passado para o outro lado da trincheira. Agora era o profissional, o professor, e tinha que ter algum distanciamento, então capitulei o convite.

No texto supracitado, a primeira sentença já me parecia endereçada: “É jovem, não tem experiência”. Como eram as minhas primeiras aulas na graduação, certamente perceberam que se tratava de um iniciante, estava tenso, hesitante. Não que me importasse sobre o que pensavam, mas que era intimidador encarar pela primeira vez quase 40 alunos, a isso era. Fora o choque de ouvir alguns alunos na casa dos 40 ou 50 anos me chamando de “senhor”. Onde estavam mesmo minhas barbas brancas?

Nem tão racional, nem tão emocional. Nem tão libertário, nem tão autoritário. Cada profissional descobre seu equilíbrio entre cada uma das sentenças em oposição com o passar dos anos. Alguns colegas, talvez por orgulho, não aprendem, de que é preciso se adaptar, ter bom senso, ser flexível.

Mas o que fazer com esta sentença?

“Não tem automóvel, é um coitado.
Tem automóvel, chora de ‘barriga cheia’.”

Talvez nesse caso a solução seja comprar uma bicicleta, não?

Admitir as falhas é o melhor caminho

Desde que iniciei a carreira como docente até os dias de hoje, ocorreram situações constrangedoras onde cometi erros em sala de aula, tanto erros conceituais ligadas à matéria, como por esquecimento de passagens pelo meio do caminho. Muitas vezes eu mesmo percebia o erro e logo corrigia, ou acontecia o caso mais embaraçoso, quando um aluno me corrigia.

Já ocorreu até mesmo de eu ter errado o enunciado de uma prova, e vou dizer aqui: este tema, sobre falhas em sala de aula, por vezes, é encarado como tabu entre nós professores. Pelo menos em minha experiência no ensino superior, nunca se conversou sobre o assunto abertamente, nem mesmo em reuniões pedagógicas como forma de troca de experiências. Os “pecados” em sala de aula, quando muito, são confessados somente aos colegas mais próximos. De certa forma é uma atitude natural, afinal as pessoas preferem se resguardar.

Cada indivíduo tem uma reação diferente quando erra, mas posso dizer por experiência própria que admitir o erro perante os alunos é bem mais nobre, além de reverter o jogo a seu favor. Eles sabem que dentro da sala o professor é a entidade que detém o conhecimento e a experiência, e que devem respeitá-lo por isso. Admitir o erro, neste caso, é uma demonstração de humildade, atenua o constrangimento e reforça sua condição humana sujeita a falhas.

Por outro lado, os erros cometidos pelo docente começam a ser um problema quando passam a ser freqüentes, então chega o momento de refletir se a disciplina é adequada ao seu perfil, se realmente gosta do ofício. Sobrecarga devido ao excesso de atividades gera cansaço, stress e falta de tempo para o planejamento, tornando as falhas constantes no momento de conduzir a aula. Dessa forma, a credibilidade do docente e da instituição que representa, ficam comprometidas.

A necessidade da adaptação

Os alunos trocam muitas informações. Qualquer deslize de um professor não tão popular pode ser bastante amplificado. Quando precisam lembrar de seus direitos, eles têm o discurso na ponta da língua: O direito das aulas começarem pontualmente e terminarem no horário determinado, de ter um professor qualificado que não falte, das instalações da instituição estarem em dia.

Então rebato com os seus respectivos deveres de: comparecer pontualmente às aulas, não sair antes que se encerre salvo em casos excepcionais, não enforcar as sextas-feiras no bar, estudar e não bagunçar as aulas, respeitar o professor e demais funcionários da instituição, respeitar os colegas de aula, não depredar a instituição. E eis que surge o silêncio total em sala de aula…

Aproveito para desfazer uma ilusão junto aos que desejam seguir o ofício. Logo que comecei, achava que todas as turmas seriam iguais: haveria uma proporção x% de alunos estudiosos, uma proporção y% de bagunceiros e assim por diante. Ledo engano, cada turma tem seu “DNA”, ou como me disse um colega certa vez: cada turma é como um cafezinho com proporções diferentes de água pó e açúcar. A impressão é de que se forma uma “alma coletiva”, e mesmo turmas do mesmo curso no mesmo Campus podem ser bem diferentes.

Portanto, a capacidade de adaptação a este “DNA”, principalmente em ambientes mais hostis, é o diferencial. Naturalmente não estou falando em facilitar o lado dos alunos nos casos mais difíceis, e nem precisa. Um dos papéis do coordenador de curso é justamente o de auxiliar professores em apuros. Hoje em dia onde tantos ventos sopram ao contrário, é bom ter cautela, faz bem à sua saúde, e ao seu salário no fim do mês.

Reforçando a idéia, cito o educador brasileiro Paulo Freire que em uma de sua obras escreve o seguinte:

“ensinar exige respeito aos saberes dos educandos, ensinar exige bom senso, ensinar exige humildade, tolerância e luta pelos direitos dos educadores, ensinar exige saber escutar, ensinar exige liberdade e autoridade”.

Para finalizar, caros colegas educadores de todos os níveis de ensino, sugiro que distribuam os singelos versos do texto inicial aos seus educandos, adicionando antes duas linhas que acho pertinente:

“O Professor Está Sempre Errado

Quando…
Erra a matéria, é um despreparado
Não erra a matéria, é porque decorou que nem papagaio”

Boa aula! [Webinsider]

.

Sobre o autor

Sthefan Berwanger (sthefan.berwanger@agenciaclick.com.br) trabalha na área de planejamento da AgênciaClick e é professor universitário pela UNIP.

Apoio:

  • LayerDev Serviços de Webhosting Profissional

Palavras-chave relacionadas a este texto: [ formação profissional ]

Comentários

9 pessoas comentaram o artigo "O professor está sempre errado"

Vinicius Data: 15/02/2008 às 11:10 pm

Atividade:

Cidade:

Parabéns!.
Ficou muito bom seu texto, além de que tudo que foi dito acontece na prática.

Boa Professor!

Marcos Paulo Rodrigues Gomes Data: 16/02/2008 às 12:43 pm

Atividade: Estudante

Cidade: Nerópolis

É esse texto é uma maravilha, eu lembrei de muitas coisas que eu já pensei de meus professores, esquisito ou não ainda serei professor nessa vida e irei entregar aos meus alunos este texto (isso é pra ver como a vida da voltas!).
Parabéns PROFESSOR!

Roberson Data: 16/02/2008 às 3:10 pm

Atividade: Instrutor Informática

Cidade: São Paulo

Legal gostei muito do texto, Obrigado.

Profa. Ludmyla Orozco Data: 17/02/2008 às 6:58 pm

Atividade: Professora

Cidade:

Divino!

Lindo texto, é bem isso que acontece.

Wagner Data: 18/02/2008 às 12:56 am

Atividade: Professor

Cidade: Recife

Cara nunca imaginei que ia ler isso aqui, tenho assinado teu site no meu Reader na parte de Informática, tenho um site sobre cultura e tal, mas amo o que faço, sou estagiario da prefeitura do recife, o trabalho de professor é desgastante, mas qd se faz o que gosta, nada impede do trabalho ser bem feito, ah da uma lida na coluna do gustavo, da veja, se não leu claro http://veja.abril.com.br/gustavo_ioschpe/index_071207.shtml)

parabens pelo texto, muito legal!

Rodrigo Anunciato Data: 19/02/2008 às 11:07 am

Atividade: Professor

Cidade: Santos/SP

Sou chef de cozinha e há 3 anos professor de gastronomia universitário. Já formei 3 turmas e posso afirmar que sempre agi dessa maneira, sempre fui humilde e sempre admiti meus erros, já que exijo isso de todos os meus alunos.
DÁ CERTO! Fui homenageado por uma e Paraninfo das outras duas.

Grande texto! Parbéns, Professor!
Vamos quiçá aendar uma palestra aqui em nossa Universidade.

ricardo damasceno Data: 18/04/2008 às 11:07 am

Atividade: professor de tecnologia social

Cidade: belem

ah! que bom poder recordar os grandes professores que passaram pela nossa vida, percebendo que todos tiveram suas limitações, alguns conseguiram supera-las,outros esmoreceram os sonhos de milhares de jovens através de um ensino repetitivo.Nossos professores são seres humanos e erram sim posso dizer isso porque também sou um.Mas no final de cada trabalho tenho a conciência do cumprimento do dever,não pelo gosto pela profissão é maior do que isso é a paixão que faz com que sejamos bons professores.

arteinterativa.blogspot.com

Eliana Data: 13/06/2008 às 10:52 am

Atividade: Prfessora de ensino fund e médio

Cidade: Cássia

Esse text resume o sentimento do professor nos dias atuais. Os alunos conhecem todos os seus direitos e nós os nossos deveres. Tudo se inverteu rapidamente, hoje, não é o aluno que precisa respeitar o professor,mas o contrário. Para não sermos agredidos fisica ou verbalmente, é preciso q nos calemos, pois, estamos sempre errados. Professor jovem ou tradicional, popular ou nem tanto, o desrespeito por nós é o mesmo.
Infelizmente, daqui há alguns anos, não haverá mais professores, pois, nossos alunos mesmo, reconhecem q não temos “valor”. Parabés pelo seu comentário ” Necessidade de Adaptação”
Abraços

Roberto Blatt Data: 28/08/2008 às 12:06 pm

Atividade: Professor

Cidade: Curitiba

Acrescentarei ao massificado (e chato, na minha opinião) Paulo Freire que, ser professor ou ensinar “exige aprender”.
Talvez ela tenha querido dizer isso, mas faltou clareza e caiu num tom meio cristão demais pro meu gosto.
A completa desinstitucionalização do posto de professor é consequência da que grassa em todas as instâncias do país, com exceção talvez de nichos (corruptos, por sinal) como o judiciário.
Isso produz um mercado editorial que explora todas as receitas possíveis, mas nada substitui o papel tradicional de um professor do século XIX que tinha autonomia para primeiro, continuar sendo estudante e segundo forçar, isso mesmo, forçar o avanço dos alunos.

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