O jazz e a Tecnologia da Informação e Comunicação
07 de fevereiro de 2008, 21:17O valor do intangível: como no jazz, nas organizações valem a informação, o conhecimento, a capacidade de comunicação e a habilidade em aprender e exercer a capacidade de improvisar e inovar.
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O professor Frank J. Barrett, em seu artigo “Creativity and Improvisation in Jazz and Organizations”, de 1998, afirma que existem fortes semelhanças entre o “jazzista” e o profissional de gestão: “… Ambos precisam encontrar novas respostas em sua área de atividade e ambos o fazem sem o benefício de um roteiro, nem certezas quanto à qualidade das soluções encontradas…”.
O artigo explica que o jazz se caracteriza por estruturas mínimas que permitem a máxima flexibilidade. Os músicos dominam conhecimentos que os habilitam a desenvolver sua música a partir de regras gerais. Isto é, embora haja muito improviso, este não é aleatório ou desconectado das estruturas básicas do jazz. Por analogia, podemos perceber que nas organizações essas estruturas são a missão, a visão, os valores e a cultura organizacional, que atuam como suporte para que os gestores improvisem e ainda assim se mantenham alinhados com as estratégias estabelecidas.
É cada vez mais notório que existe a premente necessidade de adaptação, por parte das empresas, às características e aos panoramas cada vez mais competitivos apresentados pelo mercado.
A necessidade de inovação e improvisação tem conquistado, de maneira significativa, um lugar relevante no processo de aprendizado e desenvolvimento organizacional, à medida que as características das “paisagens” em que se movem as organizações contemporâneas, vão adquirindo contornos que as obrigam a repensar os já estabelecidos modelos de gestão.
Neste quadro, o papel que a área de Tecnologia da Informação e Comunicação vem assumindo diante aos constantes desafios apresentados pelas organizações é fundamental para definir seu futuro.
Na zona de conforto?
Não é difícil estabelecer paralelos entre o “jazzista” e o profissional de gestão da Tecnologia, da Informação e da Comunicação. Percebe-se que ambos tendem a se apoiar em arranjos bem sucedidos no passado ou em repetir ações executadas anteriormente, que são comuns diante dos riscos que a inovação e o improviso representam.
No jazz, músicos que dominam as estruturas básicas correm o risco de permanecer na zona de conforto e repetir padrões conhecidos, ao invés de improvisar e inovar. Trata-se da armadilha da competência: especialmente em momentos de turbulência há uma tendência de recorrer às respostas habituais, gerando um obstáculo ao questionamento de suposições ou ao surgimento de uma nova perspectiva.
Neste último Fashion Business realizado no Rio, segundo dados divulgados pela Firjan: “…um quilo de algodão vale US$ 1,21, um quilo de tecido de algodão vale US$ 4,40 (3,6 vezes mais) e um quilo de roupa 100% algodão vale US$ 14,40 (12 vezes mais) e um quilo de moda praia de algodão (sem ser de grife famosa), sai por US$ 50 (21 vezes mais)…”.
Através da visão tradicional de uma linha de produção conseguimos entender o custo da matéria prima (um quilo de algodão), de todo o ciclo da cadeia produtiva até chegar ao produto final (um quilo de roupa) e o seu valor como produto. Isso é mensurável e passível de ser contabilizado, apresentando resultados no balanço, deixando satisfeitos e seguros todos os envolvidos no processo. A questão que fica é: como efetuar o “salto quântico” para o patamar do valor seguinte que é intangível? Como um CIO expressaria esta questão à assembléia de acionistas?
Recentemente foi publicado na Computerworld, em janeiro de 2008, um artigo com o título “Um em cada três projetos de TI não atinge objetivos, diz estudo da Tata Consultancy Services”. Neste artigo também está declarado como resultado da pesquisa que: “… 43% dos gestores de TI dizem que os gerentes e diretores de suas organizações aceitam problemas nos projetos da área como mal necessário”.
Certamente que esta cultura instaurada nos leva a imaginar que os gestores estão aptos a considerar o erro como fonte de aprendizagem. Outro detalhe que nos é possível considerar é que o custo do insucesso de um em cada três projetos de TIC é tangível e está sendo contabilizado no intervalo compreendido entre o custo da matéria prima e o custo do produto. Até quando? Sabemos que este é um momento de transição e também de conscientização.
Padrões culturais
Estimular o rompimento de padrões é uma tarefa importante, mas complexa, que acarreta inclusive a mudança de padrões culturais nas organizações.
Uma base de conhecimento muitas vezes não é só uma ponte segura, mas uma oportunidade, uma ponta de trampolim para se alcançar mergulhos mais profundos. Em um dos trechos do livro Fernão Capelo Gaivota o personagem relata que após o esforço despendido em romper com o tradicionalismo e uma prática persistente, descobriu que o mergulho a uma velocidade maior, de uma altura mais elevada, o levava a desfrutar de iguarias. Novos tipos de peixes, que só eram alcançados em mergulhos mais profundos.
Constatou também que as outras gaivotas não desfrutariam da saborosa iguaria, pois elas estavam cativas à sua zona de conforto e a repetir padrões conhecidos de mergulho.
O valor do ativo intangível
No final de 2007 através do evento patrocinado pelo BNDES e promovido pelo Centro de Referência em Inteligência Empresarial - CRIE da UFRJ, o banco apresentou uma metodologia que desenvolveu junto com a Coppe/UFRJ e que começará a medir a presença do ativo intangível nas empresas para as quais empresta.
O que se pretende é criar uma nota de classificação de risco baseada no peso do fator “inteligência” dentro das corporações. Este rating poderá beneficiar o cliente (micro, pequenas, médias e grandes empresas) na análise de crédito feita pelo banco, reduzindo o custo de capital. Nesta classificação entram práticas de governanças, práticas de gestão, processos e rotinas organizacionais eficientes, tecnologias de informação e comunicação, software, marca e patentes, entre outros.
Conforme informações colhidas na página do CRIE, verificamos que no início deste novo século, “…25% das exportações dos Estados Unidos foram de bens intangíveis como softwares, produtos da indústria do entretenimento (música, programas de televisão, filmes), consultoria e pagamento de royalties. Segundo o Institut for the Future, mesmo os bens tangíveis (aviões, computadores, etc) exportados pelos EUA são intensivos em conhecimento, fazendo com que, do total das exportações americanas nessa data, mais de 70% estivessem relacionados ao conhecimento e menos de 30% aos fatores tradicionais de produção (terra, mão-de-obra, energia e matéria prima). Cada vez mais, portanto, o componente intangível é o principal responsável pelo valor dos bens comercializados no mundo”.
Seguramente uma analogia interessante proposta pelo jazz é a capacidade dos integrantes de uma banda de alternar seus papéis entre fazer performances solo e apoiar os demais componentes.
De acordo com a música, cada um dos integrantes tem sua oportunidade de criar e improvisar, sendo o destaque naquele momento. Essa característica do jazz aumenta a motivação de cada um e estimula a inovação e o desejo de aproveitar sua oportunidade.
Em um modelo de gestão a substância intersticial não são os acordes, a harmonia ou a música, mas a informação, o conhecimento, a capacidade de comunicação e envolve a habilidade que qualquer organização tem em aprender e exercer as suas próprias capacidades de improvisar e inovar.
Ao passo que a Tecnologia da Informação e Comunicação e sua governabilidade se eleva ao patamar de ativo intangível, pode-se considerar, no mínimo, interessante o fato de citarmos o próprio Nicholas Carr (2003): “… desde que permaneça protegida, a tecnologia proprietária pode ser a base de vantagens estratégicas de longo prazo, permitindo a empresa obter lucros superiores aos de rivais…”, ou ainda “…só ganha uma vantagem sobre os rivais aquele que tem ou faz algo que os outros não têm ou não fazem…”. [Webinsider]
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1° Maria de Fátima Pissardo Data: 08/02/2008 às 8:48 am
Atividade: Consultora de TI
Cidade: São Paulo
Artigo muitissimo interessante, traçando um paralelo entre música e TI que até então eu nunca tinha lido ou sequer pensado.
Este artigo nos faz refletir sobre o novo papel dos gestores em qualquer ramo de conhecimento, e em especial de TI.
Nos dias de hoje, não só o conhecimento e a experiencia são valiosos, mas também a capacidade de improvisação e inovação, e este artigo retrata muito bem este novo paradigma.