Webinsider

Redes sociais - Jornalismo

Colaboração essencial versus colaboração tangencial

26 de novembro de 2007, 20:49

Um site é colaborativo quando o cerne de sua atividade é desenvolvido por colaboradores, além da equipe que administra o espaço. A colaboração é tangencial quando dedica áreas editorialmente coadjuvantes à ocupação do público.

Por Ana Maria Brambilla

Discutir jornalismo colaborativo, às vezes, soa óbvio demais. No entanto, há ocasiões em que o entendimento que as pessoas têm sobre esse tema diverge largamente. E isso é super natural quando se trata de algo ainda novo. São nessas horas que surgem perguntas como:

  • Slashdot é jornalismo?
  • Noticiários colaborativos podem ser escritos em primeira pessoa?
  • O que leva alguém a se tornar cidadão repórter?
  • É correto remunerar os colaboradores?
  • O Brasil está preparado para ter jornalismo colaborativo?
  • O editor é um censor?
  • Onde fica a credibilidade da notícia? E a imparcialidade?

Outras lacunas não surgem em perguntas, mas em premissas, o que é ainda pior. A última ouvi de uma jornalista que atua no site de uma grande revista de informação, durante um evento promovido pelos alunos da ECA/USP.

Perguntei a ela se seu site dispunha de uma área de jornalismo colaborativo. Ela foi rápida e pareceu animada: “Sim, sim! Oferecemos um endereço de e-mail para o internauta mandar perguntas para os nossos entrevistados”.

Suspirei. Naquele coffee break, equilibrando copinhos de suco e torradinhas, reuni toda a paciência que não tenho e respondi que sim, isso até era legal. Mas o internauta não produz notícia, reportagem, artigo, né? Não, isso ainda não.

O que eu queria dizer a ela era que o fato de um internauta enviar uma pergunta é uma maneira de promover a colaboração, sim, mas tão incipiente a ponto de não poder ser considerada “conteúdo colaborativo”, muito menos “jornalismo”.

Outra agravante: o site dela não é dedicado 100% a entrevistas, mas antes disso, a notícias, reportagens. E esse filé não é entregue nas mãos do público.

Entendo que um site pode se dizer efetivamente colaborativo quando o cerne de sua atividade for desenvolvido por colaboradores, além da equipe que administra o espaço.

Assim, um noticiário colaborativo é aquele em que as notícias são feitas pelo público. Um site colaborativo de literatura permite que escritores de plantão publiquem seus contos, crônicas e romances. Uma página colaborativa de gastronomia agrega receitas de uma porção de donas-de-casa. Ou seja: a informação principal, o core editorial do site tem produção compartilhada.

Talvez seja apropriado chamar isso de “colaboração essencial” ou “interação essencial”, já que toca na essência do conteúdo.

Por outro lado, ocorreria “colaboração tangencial” ou “interação tangencial” em sites que dedicam áreas editorialmente coadjuvantes à ocupação do público leigo. A exemplo, a página de reportagens e breaking news onde o internauta pode, no máximo, interferir enviando comentários, sugestões de pauta ou perguntas aos entrevistados. Fóruns, enquetes, testes, fale conosco e outras formas tangentes de interagir com o conteúdo também entram nesse escopo.

Isso evitaria, desejavelmente, que páginas estáticas e minimamente preocupadas com a participação do usuário se auto intitulem “2.0”. E o internauta saberia identificar quais os espaços em que, essencialmente, pode se manifestar.

Aqui se abre a discussão sobre em que circunstâncias a qualidade “2.0” pode ser atribuída a um site. Meras palavras? Prefiro acreditar que se trata de uma preocupação em preencher lacunas de compreensão que nascem quando algo muito novo se populariza sem o devido amadurecimento. A chance de confusão é grande. Certas terminologias se tornam bons rótulos marketeiros e acabam vendendo gato por lebre.

Pela não banalização do jornalismo colaborativo, saibamos diferenciar colaboração essencial da colaboração tangencial. [Webinsider]

.

Sobre o autor

Ana Maria Brambilla (anabrambilla@gmail.com) é jornalista, mestre em comunicação e autora do blog Libellus. No Twittter é @anabrambilla

Apoio:

  • LayerDev Serviços de Webhosting Profissional

Palavras-chave relacionadas a este texto: [ conteúdo colaborativo ] [ aplicativos web 2.0 ]

Comentários

4 pessoas comentaram o artigo "Colaboração essencial versus colaboração tangencial"

Diego Nascimento Data: 27/11/2007 às 2:07 pm

Atividade: Coordenador

Cidade:

Olá Ana,
Primeiramente parabéns pelo artigo.
Penso que o o colaborador pode veicular notícias, mas um treinamento ou um ajustamento de perfil é necessário. Não digo isso em referência à censura de texto mas a qualidade na veiculação de informações. Há alguma comunidade que tem realizado o jornalismo colaborativo com sucesso?

Um abraço,
Diego

Ana Brambilla Data: 27/11/2007 às 3:46 pm

Atividade: Jornalista

Cidade: São Paulo

Oi Diego!
Obrigada por ler e comentar.

Sim, vários sites têm praticado conteúdo colaborativo com êxito, aliás, estás em um deles ;-)

Tenho muito como exemplos de jornalismo colaborativo o OhmyNews (sul-coreano e em inglês também). Há outros, inclusive no Brasil e América Latina.

Mas aproveitando que falastes em formação, treinamento, o próprio OhmyNews acabou de lançar uma escola de jornalismo cidadão. Fica lá em Seul, claro. Mas a proposta é bárbara: eles querem justamente treinar cidadãos leigos a como atuar como cidadãos repórteres. Acho isso fantástico e não ameaça a profissionalização do jornalismo.

O legal desses modelos colaborativos é que há lugar para todo mundo.

Um abraço!

Paulo Gomes Data: 28/11/2007 às 4:23 pm

Atividade: Criativo & Programador

Cidade: Ribeirão Preto

Ana, parabéns pelo seu artigo…

Acho q o conteúdo colaborativo é fundamental para as empresas, vide o caso da mineiradora que abriu seus mapas ao público, Quase dobraram a quantidade de ouro que extraiam. (Livro: Wikinomics)

Também acho muito fraco a exploração desse conceito no Brasil e no mundo.

Estou lançando um projeto 100% com conteúdo colaborativo. Estou em fase final e em janeiro lançarei a versão beta.

Gostaria de trocar algumas idéias e também de apresentar-lhe meu projeto. Por favor, entre em contato por email.

Obrigado.

Cesar Zeppini Data: 29/11/2007 às 7:17 am

Atividade: Publicitário

Cidade: Indaiatuba

Gostei do artigo amigo, parabéns.

Gostaria de ressaltar ainda que muita gente faz MESMO confusão com a web 2.0, mas o motivo disso é simples. A web 2.0 não é uma ferramenta, um site ou nada disso. É apenas um CONCEITO. Uma ferramenta 2.0 é aquela onde o usuário tem livre acesso para adicionar ou alterar o conteúdo que alimenta tal ferramenta. Wikipédia, YouTube, entre outras ferramentas são de conteúdo colaborativo, ou seja, fornecido pelos próprios usuários.

Mas o conceito é simples… antigamente a internet era vista com uma relação humano X computador. Hoje com a web 2.0 e seu conteúdo colaborativo e compartilhado a relação se torna humano X humano, onde o computador é apenas a ferramenta dessa relação. Web 2.0 vem para marcar a data onde os desenvolvedores resolveram usar o maior potencial da internet a favor dela mesma: o número de usuários!

Avisos
Os ítens com asterisco ( * ) são campos de preenchimento obrigatório.
Todos os links inseridos nos comentários possuem o atributo rel="nofollow" para impedir com que user agents (como os mecanismos de busca) sigam os links inseridos para desestimular spammers.
Todos devem se identificar através de e-mail válido.
Os e-mails dos usuários não serão divulgados no site.
Comentários:

Preencha os dados abaixo e clique em enviar

Outrolado.com.br

Leia

O que é grafo social e quem pode controlá-lo?Devemos trabalhar para que as pessoas possam ser donas de suas redes sociais nos diversos ambientes que frequentem e tenham controle sobre elas. E que seja uma solução livre. Por Gilberto Alves Jr.

Quatro redes e um dilema em relação ao usuárioEm ambientes colaborativos, o desafio agora é ter ferramentas, conceitos e capacitação dos incentivadores da rede para integrar os modelos e tornar tudo amigável para que o conhecimento flua para os participantes. Por Carlos Nepomuceno

Podcrer 21: mobilização social transformadora?O modelo de gestão em sites colaborativos de conteúdo editado, o impacto no jornalismo e a capacidade da internet de unir a sociedade em prol de melhor organização e funcionamento para o coletivo. Ouça. Por Podcrer

Por que não usar web 2.0 e redes sociais no ensino?Sempre pensamos em web 2.0 para o comércio ou para o relacionamento pessoal, mas pouco utilizam as vantagens dessas ferramentas e conceitos para a área da educação. Por Humberto Zanetti

FotoRepórter do Estadão: o leitor é o fotógrafoQualquer pessoa pode ser um repórter fotográfico diante da notícia. Faça a foto, ligue para a redação e envie como mensagem MMS. O Grupo O Estado de São Paulo aceita e remunera as publicadas. Por Marcelo Godoy

Paulo Rebêlo

Um velho novo jornalismoVersão impressa do jornal colaborativo OhmyNews já vende mais do que os “grandes” em Seul.
Por Paulo Rebêlo

Jornalista virou commodity. Aceite e aja.O blog facilitou a publicação de tal forma que qualquer pessoa pode ser um jornalista hoje. Ou, então, um repórter. Muitos jornalistas (com a cabeça antiga) demoraram a aceitar esse fato - mas ele é inegável. Por Julio Daio Borges

OhmyNews, exemplo de jornalismo open sourceSite de notícias coreano baseado em conteúdo colaborativo evolui: agora possui uma versão internacional em inglês, com repórteres que trabalham a partir de critérios jornalísticos. E funciona. Por Ana Maria Brambilla

Bem-vindo ao jornalismo open sourceO termo é uma tentativa de caracterizar a produção e publicação de notícias de modo colaborativo. E dá o nome de jornalismo a uma prática aberta a qualquer pessoa. O que você acha disso? Por Ana Maria Brambilla

Juliano Spyer

O sistema de moderação inteligente do SlashdotO famoso site geek de 50 milhões de pageviews por mês funciona apoiado em um sistema de moderação massiva. Veja como. Detalhe: você também pode usar esta ferramenta. Por Juliano Spyer

Webinsider